Lutas Boxe

Teofimo Lopez e o duro desafio de superar a nostalgia do boxe

Teofimo Lopez fez o que precisava fazer em Las Vegas: superou Rolando “Rolly” Romero por decisão majoritária, tomou o cinturão dos meio-médios da WBA e se tornou campeão mundial em três categorias. A vitória, porém, deixou uma questão maior do que o próprio resultado. Enquanto Lopez conquistava mais um título em sua carreira, diante de uma arena que parecia longe de estar lotada, o boxe voltou a encarar um problema que já não consegue esconder: quem é capaz de ocupar o espaço deixado por Manny Pacquiao?

A comparação é inevitável porque ocorreu na mesma cidade e dentro de um intervalo relativamente curto. Em julho de 2025, Pacquiao, aos 46 anos, levou 13.107 pessoas a uma MGM Grand Garden Arena esgotada para enfrentar Mario Barrios pelo cinturão dos meio-médios do WBC. Um ano depois, Lopez, aos 29, entrou no T-Mobile Arena para disputar outro título da categoria e encontrou um cenário muito menos impressionante nas arquibancadas.

Não se trata de diminuir a conquista de Lopez. Pelo contrário: vencer Romero fora de casa, superar uma luta complicada e sair como campeão de três divisões reforça sua posição como um dos principais nomes da geração atual. O problema é que o boxe não consegue transformar esse tipo de conquista esportiva em um fenômeno comercial proporcional. Lopez ganhou o cinturão. O que ainda não ganhou foi o público.

Lopez tem o espetáculo, mas ainda não tem o fenômeno

Há uma certa ironia na trajetória de Lopez. “The Takeover” construiu justamente sua imagem em torno do espetáculo, da personalidade e da confiança. Suas entradas, entrevistas e postura diante das câmeras são pensadas para transformar uma luta em acontecimento. Dentro do ringue, também existem argumentos: ele já conquistou títulos em três categorias e segue procurando os maiores desafios disponíveis.

Mas existe uma diferença entre ser uma estrela do boxe e ser uma estrela capaz de mover o público casual. Lopez pertence claramente ao primeiro grupo. Pacquiao pertenceu, e, de maneira quase absurda, ainda pertence, ao segundo.

A noite contra Romero expôs essa diferença. Lopez teve de lidar com um corte complicado e atravessou um quinto round particularmente difícil antes de encontrar o caminho para a vitória. Não foi uma apresentação perfeita, mas foi uma vitória importante. Ainda assim, a atmosfera não acompanhou a relevância esportiva do confronto. E esse descompasso é um problema para o esporte como um todo.

Lopez é o campeão que venceu, mas não conseguiu tomar o lugar do ídolo

O mais curioso é que Lopez parece estar fazendo exatamente aquilo que deveria fazer para assumir o protagonismo da divisão. Depois da vitória, afirmou que ainda tem três lutas em seu contrato com a DAZN e que pretende transformar todas elas em grandes confrontos.

A ambição é clara: não fazer defesas de título burocráticas, mas perseguir todos os cinturões disponíveis. É uma estratégia correta para um lutador que precisa construir uma narrativa em torno de si. O problema é que, enquanto Lopez tenta construir seu legado, existe um personagem de 47 anos que continua ocupando uma parte enorme do imaginário da categoria.

Pacquiao sequer precisa estar ativo para continuar sendo uma referência comercial. Seu nome apareceu nas negociações de Romero antes da luta contra Lopez e também é citado como possibilidade para outros campeões. Liam Paro, por exemplo, já foi colocado como um possível adversário para o retorno do filipino.

Isso diz muito sobre o momento dos meio-médios. Uma divisão que deveria estar sendo comandada por uma nova geração ainda encontra em Pacquiao uma das opções mais atraentes para uma grande noite.

Pacquiao é o passado, mas ainda parece mais interessante que o futuro

Existe, naturalmente, um limite para essa história. Pacquiao tem 47 anos e não luta há 13 meses. Seu eventual retorno precisa ser analisado com enorme cuidado, principalmente porque boxe não é um esporte em que idade seja apenas um número.

A diferença é que, até aqui, Pacquiao ainda não parece ter apresentado o mesmo declínio competitivo de outros veteranos que continuam tentando prolongar suas carreiras. Anthony Joshua, Tyson Fury e Deontay Wilder são exemplos de nomes gigantes que, nos últimos anos, alternaram derrotas, combates de menor expressão e tentativas de reconstrução.

Pacquiao, por outro lado, saiu de sua última luta contra Barrios com a sensação de que ainda poderia competir no mais alto nível. A decisão majoritária contra ele foi amplamente contestada, e houve quem considerasse que o filipino merecia ter saído de Las Vegas como campeão mundial novamente. É isso que torna seu retorno tão tentador. Não seria apenas uma luta de nostalgia.

O problema não é Pacquiao voltar. É o boxe ainda precisar dele

O retorno de Pacquiao pode ser excelente para o boxe. Um confronto contra Lopez, Paro ou qualquer outro campeão dos meio-médios teria potencial para gerar interesse e colocar novamente a categoria no centro das atenções.

Mas existe uma contradição impossível de ignorar. Quanto mais o esporte depende de Pacquiao, maior fica a evidência de que a próxima geração ainda não conseguiu ocupar o espaço deixado por ele.

Lopez já é campeão mundial em três categorias. Há outros campeões jovens e talentosos. O problema é transformar talento em conexão com o público. O boxe possui lutadores capazes de vencer grandes combates, mas ainda procura personagens capazes de fazer o público precisar assistir a eles.

A imagem de Las Vegas resume o momento. Pacquiao tinha 46 anos quando lotou uma arena e transformou uma disputa de cinturão em acontecimento. Lopez tinha 29 quando conquistou seu terceiro título mundial e não conseguiu produzir o mesmo impacto comercial.

Talvez isso mude. Talvez Lopez precise apenas de mais uma grande vitória, de um rival adequado ou de uma rivalidade que ultrapasse as quatro cordas. Mas, enquanto isso não acontecer, o boxe continuará vivendo uma situação desconfortável: a nova geração já conquistou os cinturões, mas a geração anterior ainda possui os maiores holofotes.

E Pacquiao continua esperando. Não necessariamente porque o boxe precise dele, mas porque, até agora, ninguém conseguiu convencê-lo, ou ao público, de que sua era realmente terminou.

(Foto: Getty Images)

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