Existem lugares que acabam sendo associados para sempre a determinadas pessoas. Para Lionel Messi, um deles é o MetLife Stadium, em Nova Jersey. Em junho de 2016, o craque argentino estava devastado dentro daquele estádio depois de a Argentina perder mais uma final de Copa América para o Chile. Messi havia desperdiçado sua cobrança na disputa por pênaltis.
Aquela foi a quarta derrota de Messi em uma final pela seleção principal. Poucos minutos depois, exausto por tentar e falhar repetidamente na missão de entregar o título que seu país tanto cobrava, ele anunciou que não defenderia mais a Argentina. Dez anos depois, o mesmo estádio voltaria a fazer parte da história do craque.
Aos 39 anos, Messi retornou ao MetLife para disputar uma final de Copa do Mundo. Desta vez, porém, a Argentina perdeu para a Espanha por 1 a 0 na prorrogação, com gol de Ferran Torres nos acréscimos. Semanas depois, Messi anunciou sua aposentadoria definitiva da seleção, encerrando sua trajetória com 207 jogos e 125 gols. Mesmo estádio, outra derrota, outra despedida. Quase tudo entre esses dois momentos havia mudado.
O garoto que deixou a Argentina, mas continuou escolhendo o país
Qualquer filme sobre Messi e a Argentina precisa começar em outro lugar: Barcelona. Aos 13 anos, o garoto de Rosario colocou sua vida em uma mala e atravessou o Atlântico rumo à Espanha, sem saber exatamente o que encontraria pela frente.
O Barcelona se tornou sua casa no futebol. O clube ajudou a financiar o tratamento para sua deficiência do hormônio do crescimento e acompanhou o garoto se transformar no maior jogador de sua história. Pela equipe catalã, Messi marcou 709 gols em 837 partidas, conquistou dez títulos do Campeonato Espanhol e quatro Champions League.
Mas havia um contraste. Em Barcelona, o futebol de Messi era compreendido. A La Masia havia ajudado a construir o ambiente ao seu redor. Depois, Xavi Hernández, Andrés Iniesta, Sergio Busquets e Gerard Piqué se juntariam ao argentino sob o comando de Pep Guardiola para formar uma das maiores equipes da história do futebol.
Com a Argentina, entretanto, a história era diferente. A seleção carregava pressão, expectativas e a sombra de Diego Maradona e da Copa do Mundo de 1986. Messi poderia ter escolhido defender a Espanha, mas optou pela camisa azul e branca. Ele brilhou no título argentino no Mundial Sub-20 de 2005 e estreou pela seleção principal pouco depois, contra a Hungria. Sua primeira partida durou apenas 47 segundos antes de ser expulso.

O protagonista que demorou a aparecer
Na Copa do Mundo de 2006, Messi ainda era tratado como uma promessa. Aos 18 anos, usava a camisa 19 e entrou durante a vitória por 6 a 0 sobre Sérvia e Montenegro. Em poucos minutos, deu uma assistência e marcou um gol.
Aquele jovem havia acabado de entrar em um filme cheio de estrelas e, mesmo com uma participação curta, já deixava sua marca. Havia ainda um detalhe que ninguém poderia imaginar naquele momento: no banco da Argentina estava Lionel Scaloni, o homem que anos depois ajudaria Messi a viver o capítulo mais vitorioso de sua carreira pela seleção.
Em 2010, já não havia mais como esconder o protagonista. Messi chegou à Copa da África do Sul como vencedor da Bola de Ouro, tendo Diego Maradona como treinador. Ao seu lado estavam jogadores como Gonzalo Higuaín, Ángel Di María, Carlos Tevez, Sergio Agüero e Javier Mascherano. Ainda assim, a equipe parecia não funcionar.
A diferença entre Messi no Barcelona e Messi na Argentina nunca ficou tão evidente. Enquanto o time de Guardiola parecia jogar de maneira quase instintiva, a Argentina reunia grandes jogadores que pareciam não falar a mesma língua dentro de campo. O resultado foi uma derrota por 4 a 0 para a Alemanha nas quartas de final. Messi terminou o Mundial sem marcar e as primeiras dúvidas começaram a aparecer.

2014: a tragédia perfeita
A Copa do Mundo de 2014 parecia preparar um final trágico para Messi. Capitão da Argentina, ele marcou quatro vezes na fase de grupos e conduziu a equipe de Alejandro Sabella por uma sequência cada vez mais complicada até a final, a primeira da seleção desde 1990.
No Maracanã, a história foi decidida por detalhes. Higuaín desperdiçou uma chance, Messi mandou uma oportunidade para fora e Rodrigo Palacio não conseguiu aproveitar sua chance na prorrogação. Aos 113 minutos, Mario Götze marcou para a Alemanha, que venceu por 1 a 0.
Messi recebeu a Bola de Ouro daquela Copa, mas a imagem que ficou não foi a do prêmio individual. Foi a do argentino passando ao lado da taça da Copa do Mundo para receber sua premiação. Se a história tivesse terminado ali, ainda faria sentido: o gênio que conquistou praticamente tudo pelo Barcelona, mas não conseguiu levantar o troféu pela Argentina.
Só que o roteiro ainda estava longe do fim. Em 2015, a Argentina perdeu a final da Copa América para o Chile. Um ano depois, novamente contra o Chile, veio outra derrota. Foram três finais importantes perdidas em três verões consecutivos. No MetLife Stadium, Messi mandou sua cobrança para fora e, pouco depois, anunciou que não jogaria mais pela seleção.

Scaloni muda o roteiro
Mas Messi voltou. Em outubro de 2017, com a Argentina ameaçada de ficar fora da Copa de 2018, o Equador marcou logo no início. Messi respondeu com três gols e garantiu a classificação argentina para o Mundial da Rússia.
Aquela, porém, foi outra falsa esperança. A Argentina empatou com a Islândia, perdeu por 3 a 0 para a Croácia, avançou com dificuldades contra a Nigéria e caiu para a França por 4 a 3 nas oitavas de final. Kylian Mbappé, então com 19 anos, foi um dos grandes destaques daquela partida. Messi tinha 31.
Depois da Rússia, Lionel Scaloni assumiu a seleção, inicialmente como interino, e começou a fazer o que treinadores mais badalados não haviam conseguido: construir uma equipe. Aos poucos, a Argentina deixou de depender exclusivamente de Messi e passou a funcionar como um grupo.
Cristian Romero trouxe intensidade, Rodrigo De Paul acrescentou energia e Emiliano Martínez ganhou espaço com uma personalidade enorme. Lautaro Martínez, Leandro Paredes e, depois, Alexis Mac Allister, Enzo Fernández e Julián Álvarez também passaram a formar uma nova geração. O paradoxo era perfeito: a Argentina se tornou menos dependente de Messi enquanto ficava cada vez mais dedicada a ele.

O final que todos queriam
Em 2021, a revolução de Scaloni encerrou um jejum de 28 anos sem títulos importantes. No Maracanã, Ángel Di María marcou o gol da vitória por 1 a 0 sobre o Brasil e Messi finalmente conquistou seu primeiro grande título pela seleção principal.
Um ano depois, no Catar, a história ganhou seu capítulo mais importante. A Argentina perdeu para a Arábia Saudita na estreia, mas Messi marcou contra o México e manteve a equipe viva. Depois vieram Austrália, Holanda e Croácia, até a final contra a França.
A Argentina abriu 2 a 0, mas Mbappé marcou duas vezes. Messi voltou a balançar as redes, Mbappé marcou novamente e a partida terminou em 3 a 3. Emiliano Martínez fez uma defesa decisiva no fim para levar o jogo aos pênaltis. A Argentina venceu por 4 a 2, e Messi, aos 35 anos, finalmente levantou a Copa do Mundo.
Aquele parecia ser o encerramento perfeito. Em 2024, na final da Copa América, Messi deixou o campo lesionado e chorando contra a Colômbia. Desta vez, porém, a Argentina continuou sem ele. Lautaro Martínez marcou na prorrogação, a equipe venceu por 1 a 0 e conquistou mais um título.
Então veio 2026. Aos 39 anos, Messi ainda encontrou forças para disputar mais uma Copa do Mundo. Foram oito gols e quatro assistências até a Argentina chegar novamente à final. No MetLife Stadium, a Espanha venceu por 1 a 0 na prorrogação.

Não houve final feliz. Mas Messi já não precisava dela.
Porque talvez a maior característica de sua história tenha sido justamente o tempo. O passe no momento perfeito. O drible na hora certa. A finalização precisa. E, agora, a despedida no momento certo.
2014 poderia ter sido o fim. 2016 parecia ser o fim. 2018 também. 2022 entregou o final que todos queriam. E 2026 deu a Messi a oportunidade de sair nos seus próprios termos.
No fim, foi um filme espetacular.
Doloroso demais para a fantasia. Perfeito demais para a ficção.
Foto: Shaun Botterill – FIFA/FIFA via Getty


