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Automobilismo Fórmula 1

Pilotos temem caos em Monza e apontam grande problema das regras de 2026

O Grande Prêmio da Itália promete colocar à prova uma das características mais controversas da nova Fórmula 1. Com as regras técnicas de 2026, os pilotos chegam a Monza diante de um desafio que vai muito além de encontrar o acerto ideal para um dos circuitos mais rápidos e tradicionais do calendário.

A grande preocupação está no gerenciamento de energia. Monza possui longas retas e poucas curvas capazes de recuperar a energia necessária para alimentar as baterias dos carros. Isso significa que os pilotos poderão chegar ao final das retas sem energia suficiente para manter o acelerador totalmente pressionado, obrigando-os a administrar potência, velocidade e regeneração durante a volta.

O fenômeno já foi observado em circuitos como Spa-Francorchamps, Silverstone e Melbourne. Em algumas dessas pistas, a situação acabou sendo menos problemática do que o esperado, mas também produziu um tipo de corrida que recebeu um apelido bastante peculiar no paddock: o “yo-yo racing”.

Agora, Monza pode levar esse problema ao extremo. As opiniões dos pilotos, entretanto, estão divididas. Alguns esperam uma experiência bastante complicada e pouco natural. Outros acreditam que as mudanças feitas pela FIA já reduziram parte do problema. Há também quem esteja torcendo para ser surpreendido positivamente quando os carros finalmente entrarem na pista.

Monza coloca as regras de 2026 à prova

A característica de Monza faz com que o circuito seja particularmente sensível às novas regras. Ao contrário de pistas com muitas curvas, nas quais os carros conseguem recuperar energia com mais frequência, o traçado italiano oferece longos períodos de aceleração entre uma oportunidade e outra de regeneração.

Lando Norris resumiu o problema ao comparar Monza com outros circuitos visitados pela F1 neste ano. Segundo o piloto da McLaren, em Zandvoort era mais fácil administrar a energia porque havia mais curvas onde a bateria poderia ser recarregada. Em Monza, a situação é oposta: há uma curva, depois uma longa reta, outra curva e novamente uma reta enorme. “É um pouco mais escasso em termos de energia aqui”, explicou Norris.

O problema também aparece nas quatro grandes retas do circuito, onde os pilotos precisarão decidir cuidadosamente onde gastar a energia disponível. George Russell, por outro lado, acredita que essa característica pode produzir boas disputas. O piloto da Mercedes lembra que as corridas em circuitos nos quais o gerenciamento energético foi mais complicado, como Silverstone e Austrália, acabaram proporcionando bastante entretenimento.

Para ele, Monza poderá seguir o mesmo caminho. Todos estarão sujeitos às mesmas limitações. Portanto, quem errar no gerenciamento poderá perder posições rapidamente, enquanto um piloto que guardar energia no momento certo poderá recuperar terreno mais tarde.

Ainda assim, existe uma preocupação clara: até que ponto administrar energia continuará sendo parte da estratégia sem começar a prejudicar a própria essência da pilotagem?

Pilotos divergem sobre o impacto da falta de energia

Lewis Hamilton é um dos pilotos que mais destacou o quanto Monza poderá ser diferente das experiências tradicionais no circuito italiano. Para o heptacampeão mundial, o gerenciamento da unidade de potência será um dos principais desafios do fim de semana.

A característica que mais chama atenção é a velocidade no final das retas. Hamilton acredita que os carros poderão chegar às zonas de frenagem cerca de 20 ou 30 km/h mais lentos do que nas gerações anteriores. Isso muda completamente a sensação de pilotagem.

Durante anos, Monza ficou marcada pelo som dos motores e pela sensação de velocidade nas longas retas. Os pilotos aceleravam até o último momento antes de pisar no freio para as chicanes.

Agora, Hamilton espera que alguns pilotos tenham de reduzir marchas antes mesmo de chegar à zona de frenagem. Para ele, não é necessariamente a experiência ideal, mas é uma consequência das novas regras. O desafio será encontrar o ponto perfeito entre acelerar, recuperar energia e ativar os sistemas do carro sem comprometer o restante da volta.

Max Verstappen foi ainda mais direto ao falar sobre o assunto. Para o tetracampeão mundial, Monza será “muito doloroso” do ponto de vista energético. O problema, segundo o piloto da Red Bull, é simples: o circuito é extremamente ineficiente para os carros de 2026 em termos de recuperação de energia. Em vez de poder atacar cada reta com o acelerador totalmente pressionado, os pilotos precisarão ser mais delicados com o pedal para preservar a bateria. “É muito ineficiente em termos de energia”, resumiu Verstappen.

O holandês, entretanto, evitou transformar sua crítica em uma condenação definitiva das regras. Ele reconhece que a FIA e a Fórmula 1 estão tentando encontrar soluções para os problemas identificados durante a temporada e prefere esperar para ver como o sistema funcionará na prática.

Oscar Piastri também espera uma situação bastante particular. O australiano acredita que a corrida pode ser “caótica”, principalmente no início. Monza terá várias retas nas quais os pilotos poderão utilizar a energia disponível, mas todos estarão tentando fazer isso ao mesmo tempo, enquanto precisam administrar a quantidade de bateria que conseguirão recuperar posteriormente.

Piastri explica que existe uma espécie de problema sem solução perfeita. Se a FIA permitir uma recuperação de energia muito alta, os carros sofrerão com o chamado super clipping, quando a potência elétrica acaba antes do final da reta.

Por outro lado, se o limite de recuperação for reduzido demais, os pilotos simplesmente não terão energia suficiente para utilizar durante as retas. É um equilíbrio extremamente delicado. O piloto da McLaren chegou a revelar que, em determinadas simulações, o carro poderia ser mais rápido na reta principal de Hungaroring do que na reta de Monza, algo que parece completamente contraintuitivo quando se olha para as características dos dois circuitos. A explicação está justamente na energia disponível.

Antonelli, Norris e outros pilotos enxergam um cenário menos preocupante

Nem todos os pilotos estão esperando um desastre. Kimi Antonelli, que terá uma corrida especialmente importante diante da torcida italiana, acredita que a situação pode ser melhor do que as simulações inicialmente indicavam.

O piloto da Mercedes revelou que testou Monza no simulador e ficou relativamente surpreso com o resultado. Segundo Antonelli, a FIA reduziu o limite de recuperação de energia para evitar um excesso de super clipping. Com isso, os carros não deverão sofrer uma desaceleração tão brusca no fim das retas. Em vez de perder velocidade rapidamente, a tendência será uma espécie de estabilização da velocidade. Para Antonelli, isso representa um ponto positivo.

Ainda assim, o italiano acredita que algumas curvas serão particularmente difíceis. A chicane Ascari, por exemplo, pode se tornar um dos pontos mais complicados da pista, já que os carros terão muita potência disponível durante a aceleração. As Lesmo também devem exigir bastante dos pilotos. E existe outro problema: a frenagem.

Com os carros de 2026 apresentando características diferentes das gerações anteriores, acertar o momento de frear pode ser especialmente complicado. Liam Lawson também espera uma Monza muito diferente daquela que os pilotos conhecem.

Para o neozelandês, o circuito poderá ser mais punitivo caso um piloto utilize energia demais em determinado trecho. Um pequeno erro pode comprometer não apenas aquela curva, mas toda a sequência seguinte de retas. Yuki Tsunoda teve uma impressão semelhante durante os testes no simulador.

O japonês afirmou que Zandvoort foi um dos circuitos mais fáceis para administrar a energia, enquanto Monza representa praticamente o extremo oposto. O aspecto mais estranho, segundo Tsunoda, é saber que o carro poderia andar mais rápido, mas precisar reduzir o ritmo porque acelerar demais naquele momento fará com que o tempo total da volta seja pior.

Esteban Ocon também apontou algumas situações que considera pouco naturais, como a necessidade de andar muito devagar em determinadas voltas para não começar o giro seguinte com menos bateria. Apesar disso, o francês considera que as regras de 2026 evoluíram significativamente desde o início da temporada.

Gabriel Bortoleto compartilha da ideia de que Monza terá um gerenciamento energético bastante direto. Para o brasileiro, a maior parte da energia será utilizada na saída das curvas, justamente porque é nesse momento que o ganho de velocidade poderá ser carregado durante toda a reta.

Sergio Pérez, por sua vez, alerta que a margem para erros será mínima. Segundo o mexicano, utilizar apenas uma pequena quantidade de energia a mais em determinada curva pode custar alguns décimos de segundo posteriormente. Depois do que foi observado na Bélgica, Pérez espera que Monza seja ainda mais exigente nesse aspecto.

Fernando Alonso adotou uma postura mais pragmática. Para o espanhol, não existe muito mistério: as equipes simplesmente terão de descobrir durante os treinos livres qual é a melhor maneira de administrar a energia.

A primeira sessão será fundamental para entender como cada fabricante de unidade de potência pretende distribuir sua energia ao longo da volta. Depois do primeiro contato com a pista, os times poderão observar o comportamento dos rivais e ajustar suas próprias estratégias.

Classificação e corrida podem ganhar uma dinâmica completamente diferente

O problema não estará restrito à corrida. A classificação pode se transformar em outro espetáculo completamente diferente, principalmente por causa do vácuo.

Monza sempre foi famosa pelo tow, quando um piloto utiliza o ar limpo e a redução de resistência provocada pelo carro da frente para ganhar velocidade nas retas. Nico Hülkenberg acredita que o efeito poderá ser ainda mais importante este ano.

A distância entre os carros durante as voltas rápidas será fundamental. Se um piloto estiver muito próximo, poderá ganhar velocidade com o vácuo. Se estiver distante demais, perderá uma oportunidade preciosa. Isso pode levar novamente àquelas imagens tradicionais de Monza, com pilotos procurando desesperadamente uma posição adequada antes de iniciar suas voltas rápidas.

Mas agora existe um ingrediente adicional: a energia. Não basta estar no lugar certo para pegar o vácuo. Também será necessário chegar à volta decisiva com energia suficiente.

Hülkenberg acredita que uma distância inferior a cinco segundos poderá ser importante para aproveitar o vácuo, enquanto o efeito pode ser ainda mais significativo do que nos últimos anos. Max Verstappen, por outro lado, não espera que o novo sistema transforme completamente as disputas de classificação. Para ele, o cenário pode ficar um pouco mais próximo entre os carros, mas será necessário esperar para entender exatamente como a dinâmica funcionará.

Charles Leclerc também vê uma mudança significativa em Monza. O piloto da Ferrari afirma que o circuito deverá parecer muito diferente dentro do carro. Ele lembra que, em gerações anteriores, chegar a Monza significava reduzir drasticamente o nível de carga aerodinâmica.

Agora, essa diferença será muito menor. Os pilotos deverão chegar ao circuito com uma configuração aerodinâmica mais próxima daquela utilizada durante o restante do calendário. Para Leclerc, essa talvez seja uma das maiores mudanças provocadas pelas regras de 2026, além da própria questão da unidade de potência.

Valtteri Bottas, por sua vez, não acredita que o gerenciamento energético represente necessariamente um risco maior para a segurança. Para ele, as alterações feitas após o GP do Japão ajudaram a reduzir as diferenças de velocidade. A preocupação maior estaria nas condições de chuva, quando a visibilidade ruim poderia tornar as diferenças de velocidade mais perigosas.

Monza, portanto, chega como um verdadeiro laboratório para a Fórmula 1 de 2026. O circuito italiano reúne praticamente todas as características capazes de colocar o novo sistema energético sob pressão: longas retas, poucas oportunidades de regeneração, grandes zonas de frenagem e enormes possibilidades de vácuo.

Se tudo funcionar como planejado, a etapa poderá produzir uma corrida estratégica, imprevisível e cheia de ultrapassagens. Mas, se o efeito “yo-yo” se tornar exagerado, Monza poderá expor um dos maiores problemas das regras atuais: carros capazes de andar muito rápido, mas que nem sempre podem ser conduzidos no limite por falta de energia.

E essa será uma das grandes perguntas do fim de semana. Em um circuito que durante décadas simbolizou velocidade absoluta, a Fórmula 1 terá de descobrir se os novos carros conseguem preservar o espetáculo sem obrigar seus pilotos a levantar o pé justamente quando deveriam estar acelerando.

Foto: (Reprodução/ MotorSport Images)