O assunto que dominou praticamente todas as conversas entre os pilotos durante o dia de mídia da Fórmula 1 em Monza foi um só: gerenciamento de energia. Depois de dois circuitos considerados favoráveis ao armazenamento e à recuperação de energia, em Budapeste e Zandvoort, a categoria chega ao lendário traçado italiano para mais um fim de semana em que as limitações do regulamento de 2026 prometem ficar expostas.
E quem parece ter se preparado especialmente para enfrentar esse cenário é Max Verstappen. O tetracampeão mundial já havia usado Monza como exemplo, ainda em 2023, quando alertava para possíveis consequências das regras atuais. Na época, o holandês chegou a prever que os pilotos poderiam ser obrigados a reduzir marchas nas longas retas para administrar a energia disponível. Agora, em 2026, Verstappen acredita que aquela previsão está prestes a se tornar realidade.
Monza deve expor novamente as limitações das regras de 2026
As velocidades máximas no chamado Templo da Velocidade deverão ser consideravelmente menores do que nos últimos anos. Oscar Piastri, inclusive, revelou que as simulações da McLaren chegaram a apontar velocidades máximas menores em Monza do que as registradas em Hungaroring, um circuito completamente diferente e normalmente muito mais lento.
A explicação está, em grande parte, no limite extremamente baixo de recuperação de energia estabelecido para o fim de semana italiano: apenas cinco megajoules. A medida foi adotada justamente para controlar o chamado super clipping, situação em que o piloto fica sem potência elétrica do MGU-K antes do fim de uma reta.
O problema é que limitar demais a recuperação não elimina o gerenciamento de energia. Pelo contrário. Com menos energia disponível, os pilotos terão de lidar com uma quantidade significativa de clipping convencional, ficando sem a potência adicional do MGU-K ainda durante as retas.
Isso obrigará os pilotos a adaptar a maneira como aceleram e até mesmo a forma como utilizam as marchas. Em vez de simplesmente acelerar ao máximo até o ponto de frenagem, será necessário administrar o pedal do acelerador para preservar energia e evitar uma perda ainda maior de desempenho no restante da volta.
Verstappen, que em 2023 já havia antecipado a possibilidade de pilotos reduzirem marchas nas retas de Monza, reconhece que a situação será estranha.
“Vai ser bastante doloroso. Esta pista é simplesmente muito ineficiente em termos de energia, mas também não quero ser muito negativo sobre tudo isso. É o que é. Eu aceitei isso mentalmente. Eu me preparei para um fim de semana em que será um pouco diferente. Você não pode andar no limite o tempo todo e precisa ser gentil com o pedal do acelerador, digamos assim.” afirmou o piloto.
A adaptação não será apenas uma questão de encontrar o ponto ideal para economizar energia. Os pilotos também precisarão evitar desvios da estratégia planejada, já que pequenas alterações podem afetar os algoritmos de aprendizado dos sistemas da unidade de potência. Piastri, por exemplo, sentiu esse problema na própria pele em Spa. Uma alteração aparentemente pequena no comportamento durante a volta pode fazer com que o sistema reaja de maneira diferente, provocando consequências significativas para a utilização da energia disponível.
Verstappen reconhece que a FIA e a Fórmula 1 estão tentando minimizar os efeitos do problema. O limite de cinco megajoules para Monza é justamente uma dessas medidas. Ainda assim, o holandês deixa claro que isso não significa que a questão esteja resolvida.
“Estão sendo feitas mudanças para tentar melhorar a situação, mas melhorar não significa que ela esteja resolvida. Está longe de estar resolvida. Mas todos estão tentando fazer o melhor que podem. A FIA e a F1 estão tentando lidar com a situação atual.” afirmou.
Na prática, portanto, Monza será um fim de semana em que os pilotos terão de aceitar um comportamento pouco natural para um carro de Fórmula 1. Em um circuito tradicionalmente associado à velocidade máxima, será necessário, em determinados momentos, abrir mão de desempenho para conseguir completar a volta de maneira eficiente.
Red Bull pode ser mais competitiva, mas Verstappen não espera milagres
Apesar do cenário complicado para todos, Monza pode oferecer uma pequena esperança à Red Bull. A equipe comandada por Laurent Mekies esteve longe do ritmo em Zandvoort e terminou aquele fim de semana claramente atrás de McLaren, Ferrari e Mercedes, aparecendo como a quarta força do grid.
Na Itália, porém, existe uma característica que pode favorecer o RB22: com os pilotos ficando sem potência do MGU-K em diferentes trechos do circuito, o motor de combustão interna pode ganhar uma importância um pouco maior. E, de acordo com os resultados do ADUO da FIA, a Red Bull conta justamente com a unidade de potência que apresentou os melhores números de potência do motor a combustão.
Isso, em teoria, poderia permitir uma recuperação da equipe em relação ao desempenho apresentado na Holanda. Verstappen, no entanto, prefere manter os pés no chão. O problema é que Monza não será apenas uma disputa de potência do motor. A capacidade de administrar a limitada quantidade de energia disponível também será decisiva e esse não tem sido um dos pontos fortes da Red Bull nos circuitos considerados energeticamente ineficientes.
“Nas pistas ineficientes, não temos sido particularmente bons com energia, então não espero milagres aqui. Ainda será difícil”, admitiu Verstappen. Além disso, outras equipes estão levando atualizações para Monza e podem dar novos passos de desempenho. Para Verstappen, isso torna ainda mais improvável uma grande mudança de cenário para a Red Bull.
“Outras equipes ao nosso redor estão trazendo atualizações neste momento, então estão avançando. Nós já estávamos atrás antes disso, então não espero que isso mude agora. Mas vamos tentar aprender mais sobre o carro e sobre as coisas que queremos fazer de maneira diferente no próximo ano também.” A declaração resume bem o momento da Red Bull. Em vez de esperar uma transformação repentina no campeonato, Verstappen parece mais concentrado em compreender os problemas atuais e utilizar as informações para preparar um projeto melhor para a próxima temporada.
Verstappen chega a Monza recuperado após doença em Zandvoort
Se o cenário competitivo da Red Bull não oferece muitos motivos para otimismo, pelo menos Verstappen chega à Itália em uma condição física muito melhor. O tetracampeão sofreu com uma forte gripe durante o fim de semana do GP da Holanda, em Zandvoort. A situação tornou uma etapa que já havia sido complicada dentro da pista ainda mais desgastante para o piloto.
Depois da corrida, Verstappen continuou doente por alguns dias, mas teve tempo suficiente para se recuperar antes da chegada a Monza. “Eu me senti bem em relação ao impacto [após o acidente] porque era a barreira SAFER. Foi a primeira vez que bati nela e, na verdade, ela fez muito bem o seu trabalho”, disse Verstappen, referindo-se também ao acidente ocorrido em Zandvoort.
Mas, para ele, o maior problema naquele fim de semana não foi o impacto. “Eu estava muito doente. E, na verdade, quando você se recupera completamente, volta a perceber como é bom se sentir bem. Porque todo o fim de semana em Zandvoort foi horrível e, mesmo depois de Zandvoort, fiquei alguns dias sem estar bem. Então foi muito bom ter aquela semana para me recuperar e voltar a me sentir melhor. Fazia muito tempo que eu não me sentia daquele jeito.”
Agora recuperado, Verstappen chega a Monza sabendo exatamente o que o espera. A pista que historicamente representa velocidade, potência e longas retas deverá apresentar uma realidade bem diferente em 2026. O piloto já não parece interessado em gastar energia reclamando das regras a cada fim de semana. Ele admite ter aceitado mentalmente que a temporada não poderá mais ser salva — tanto no que diz respeito ao desempenho da Red Bull quanto aos problemas estruturais do regulamento atual.
Por isso, em vez de esperar que Monza ofereça um espetáculo tradicional de velocidade máxima, Verstappen se prepara para um fim de semana de adaptação. Um fim de semana em que será preciso aliviar o acelerador, administrar a energia e aceitar que, em determinados momentos, andar mais devagar pode ser a maneira mais rápida de completar a volta. E, para um piloto acostumado a extrair absolutamente tudo do carro, talvez seja justamente essa a parte mais “dolorosa” de todas.
Foto: (Reprodução/ Globo Esporte)



