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Automobilismo Fórmula 1

Monza vira palco de novo estilo de corrida na Fórmula 1 com efeito ‘ioiô’

O GP da Itália desse ano apresentou uma das maiores mudanças no estilo de corrida provocadas pelo novo regulamento da Fórmula 1. Em Monza, a combinação entre o forte efeito de vácuo do circuito e as características do gerenciamento de energia dos carros criou um cenário praticamente inédito na categoria.

O resultado foi uma corrida em que os pilotos passaram boa parte do tempo presos uns aos outros, formando grandes grupos e trocando posições repetidamente. Carros que tinham ritmo inferior conseguiam permanecer próximos dos adversários mais rápidos graças ao ganho de velocidade proporcionado pelo vácuo e pelo uso da energia elétrica.

Esse fenômeno já ganhou um apelido no paddock: “yo-yo racing”, ou corrida “ioiô”. A ideia é simples. Um piloto consegue ultrapassar usando a potência extra disponível na bateria, mas encontra dificuldades para abrir vantagem depois da manobra. Quando a energia começa a acabar, o adversário recupera a posição na reta seguinte. Em Monza, esse efeito atingiu provavelmente seu nível mais extremo até agora.

Vácuo transforma Monza em uma corrida de pelotões

As enormes retas do circuito italiano potencializaram o efeito do vácuo. Como os carros de trás conseguem ganhar velocidade ao seguir um adversário, o modo de ultrapassagem elétrico se torna ainda mais poderoso.

Na prática, isso significa que um carro naturalmente mais lento pode acompanhar outro que possui desempenho superior e, em determinadas situações, até ultrapassá-lo. Max Verstappen foi um dos pilotos que mais sofreu com essa característica.

A Red Bull não tinha desempenho suficiente para disputar diretamente a vitória com as Mercedes, mas o holandês conseguiu permanecer durante muito tempo próximo de George Russell. O problema é que Russell não conseguia escapar, enquanto Verstappen também encontrava dificuldades para defender sua posição depois de assumir a liderança. “Para ser sincero, eu não gostei muito quando as pessoas simplesmente passam por você como se você fosse uma tartaruga”, afirmou Verstappen.

O piloto da Red Bull explicou que o modo de ultrapassagem inicialmente parecia oferecer uma boa ferramenta de ataque, mas se tornava muito mais difícil de controlar quando ele precisava defender a posição. “Quando eu estava na liderança, era muito difícil defender. Mesmo quando tivemos o VSC, paramos, colocamos pneus melhores e eu estava ultrapassando carros, mas assim que eles conseguem ficar no modo de ultrapassagem, ele é simplesmente poderoso demais para conseguirmos nos defender.”

O resultado foi uma dinâmica curiosa. Verstappen conseguia atacar Russell, mas não conseguia se afastar. Russell, por sua vez, não conseguia construir uma vantagem suficiente para escapar do vácuo. E os dois acabaram pagando um preço importante por isso.

Russell e Verstappen se prendem em duelo e abrem caminho para Antonelli

A mesma dinâmica apareceu em outros pontos do pelotão. Oscar Piastri e Lewis Hamilton formaram um grupo depois de perderem contato com os líderes antes do Virtual Safety Car. Lando Norris e Pierre Gasly também ficaram presos em uma disputa semelhante.

A situação lembra, em certa medida, estratégias comuns em corridas de ovais, nas quais pilotos podem trabalhar juntos e até trocar posições deliberadamente para aproveitar o vácuo da maneira mais eficiente possível. Na Fórmula 1, porém, a dinâmica é muito mais difícil de controlar.

As pistas tradicionais não permitem que os pilotos simplesmente cooperem e troquem a liderança de maneira planejada. Em vez disso, cada um tenta ganhar a posição e, ao mesmo tempo, administrar sua própria energia.

Russell e Verstappen acabaram perdendo tempo um para o outro durante a batalha. E foi justamente essa disputa que ajudou a abrir espaço para a recuperação de Kimi Antonelli. Largando em 19º, o italiano foi o único piloto capaz de escapar de maneira significativa desse padrão de corrida em pelotão.

Antonelli já havia avançado para a sexta posição após a relargada na sexta volta e, com isso, ganhou uma oportunidade real de disputar a vitória. Enquanto os adversários continuavam presos em batalhas condicionadas pelo vácuo e pela energia, o piloto da Mercedes conseguiu construir sua própria trajetória através do pelotão. A recuperação acabou levando Antonelli à vitória em Monza.

Equipes admitem que as novas regras mudaram completamente a estratégia

A McLaren foi uma das equipes que mais sentiu a necessidade de adaptação ao novo cenário. Andrea Stella, chefe da equipe, explicou que completar uma ultrapassagem e simplesmente desaparecer na frente do adversário se tornou muito mais difícil. “De alguma forma, com esses regulamentos da Fórmula 1, não é fácil concluir uma ultrapassagem e seguir em frente”, afirmou Stella.

O dirigente citou a batalha de Lando Norris com Gasly como exemplo. Mesmo depois de conseguir superar o francês, Norris ainda precisou de tempo para começar a reduzir a diferença para os carros que estavam à frente.

Para Stella, isso aumenta o entretenimento, mas também cria um problema para carros mais rápidos que largam fora das primeiras posições. “Certamente houve bastante entretenimento, mas, até certo ponto, também existem problemas para um carro mais rápido conseguir competir se não largar na frente do grid.”

Fred Vasseur, chefe da Ferrari, teve uma avaliação semelhante. Para ele, o ritmo de corrida em si não foi o principal problema. A dificuldade estava na velocidade máxima e na forma como as ultrapassagens afetavam a bateria. “O ritmo de corrida provavelmente estava razoável. O principal problema era a velocidade máxima e as ultrapassagens. Era praticamente impossível atacar ou defender. Quando atacávamos alguém, drenávamos a bateria e, na reta seguinte, perdíamos a posição.”

Esse efeito tornou o gerenciamento energético o principal elemento estratégico da prova. Stella afirmou que o fim de semana foi um dos mais trabalhosos do ano para os engenheiros da McLaren, justamente pela necessidade de encontrar a combinação ideal entre configuração do carro, utilização da unidade de potência e gerenciamento da bateria.

“Muito, muito trabalho para todos, pilotos e engenheiros, gerenciando a unidade de potência e a bateria em um circuito como Monza”, explicou. Segundo Stella, a combinação do vácuo com o gerenciamento de energia pode representar uma diferença de até meio segundo por volta. Um piloto que recebe a pressão de um adversário atrás precisa utilizar energia adicional para se defender. Ao fazer isso, pode perder desempenho posteriormente e ficar vulnerável na reta seguinte.

Monza pode marcar uma nova era nas corridas da F1

Para Stella, o GP da Itália de 2026 pode acabar sendo lembrado como uma das corridas mais importantes desde a chegada do novo regulamento. “Monza 2026 será lembrado, acredito, como a corrida mais relevante com os novos regulamentos”, avaliou o chefe da McLaren.

A prova exigiu um nível elevado de execução por parte das equipes, especialmente na tomada de decisões relacionadas à energia. Ainda assim, Stella reconheceu que a McLaren não tinha velocidade suficiente para disputar a vitória, já que a Mercedes apresentava uma vantagem clara sobre os demais.

O triunfo de Antonelli acabou sendo a grande exceção ao padrão de corrida em pelotões. Enquanto praticamente todo o grid enfrentava dificuldades para escapar do efeito do vácuo e do gerenciamento energético, o italiano conseguiu construir uma recuperação espetacular a partir da 19ª posição.

Monza, portanto, apresentou uma nova realidade para a Fórmula 1. O carro mais rápido nem sempre consegue simplesmente ultrapassar e desaparecer na frente. O piloto que lidera pode ficar vulnerável na reta seguinte, enquanto quem vem atrás ganha uma vantagem enorme ao combinar vácuo e energia elétrica. É uma dinâmica que aproxima, pelo menos em alguns aspectos, as corridas da F1 de uma lógica semelhante à dos ovais: grupos compactos, posições trocadas constantemente e pilotos incapazes de escapar facilmente uns dos outros.

A grande diferença é que, na Fórmula 1, ninguém escolheu deliberadamente correr em formação. As características das novas regras simplesmente empurraram o grid para esse cenário. E, depois do que aconteceu em Monza, a discussão sobre até que ponto esse novo estilo de corrida representa uma evolução ou um problema para a categoria promete continuar nas próximas etapas.

Foto: (Reprodução/ MotorSports)