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Entenda por que o Como 1907 deixou de ser promessa e virou realidade na UEFA Champions League

A goleada por 4 a 1 sobre o RB Leipzig marcou uma noite histórica para o Como 1907. Pela primeira vez, o clube disputou uma partida de UEFA Champions League e não demonstrou nervosismo, medo ou falta de experiência. Pelo contrário, apresentou um futebol organizado, intenso e tecnicamente superior em boa parte do confronto.

O resultado chamou atenção não apenas pela diferença no placar, mas principalmente pela maneira como foi construído. O Como controlou o jogo com pressão alta, movimentação constante e uma saída de bola bem trabalhada desde a defesa. A equipe treinada por Cesc Fàbregas mostrou que seu crescimento não depende apenas do dinheiro investido pelo clube, mas também de um planejamento esportivo eficiente.

A transformação é impressionante. Há seis anos, o Como disputava a terceira divisão italiana e jogava em um estádio com estrutura muito mais modesta. Agora, recebe uma das principais competições do futebol mundial, conta com jogadores de destaque internacional e começa a ser tratado como um dos projetos mais promissores da Europa.

Cesc Fàbregas transformou o Como em uma equipe de identidade própria

Cesc Fabregas, Como 1907. Foto: EPA-EFE/Roberto Bregani
Cesc Fabregas, Como 1907. Foto: EPA-EFE/Roberto Bregani

O principal responsável pela evolução do Como é Cesc Fàbregas. O ex-jogador espanhol deixou de ser apenas uma figura conhecida do futebol mundial para se tornar um treinador capaz de desenvolver uma ideia de jogo clara e competitiva.

O Como não atua como uma equipe que depende somente de jogadas individuais. Seu futebol é baseado na participação coletiva. Todos os jogadores precisam se movimentar, oferecer opções de passe e entender os espaços deixados pelos adversários. Essa característica ficou evidente contra o Leipzig, que tentou pressionar alto, mas teve dificuldades para acompanhar a movimentação dos atletas italianos.

A pressão do Como começa no campo de ataque e envolve praticamente todo o time. Quando perde a bola, a equipe tenta recuperá-la rapidamente, impedindo que o adversário tenha tempo para organizar a saída. Quando consegue recuperar a posse, procura avançar com passes rápidos e movimentações coordenadas.

Outro ponto importante é a saída de bola desde a defesa. Em vez de simplesmente afastar a bola ou apostar em lançamentos longos, o Como procura construir as jogadas com calma. Os zagueiros, os laterais e os meio-campistas participam da circulação, fazendo o adversário se deslocar de um lado para o outro.

Esse movimento cria espaços. Quando o rival sai para pressionar, o Como tenta explorar as áreas que ficam livres às costas da marcação. Por isso, os jogadores sem a bola têm tanta importância quanto aqueles que estão conduzindo ou passando.

O primeiro gol resume bem essa ideia. Martin Baturina recebeu a bola distante do gol, superou dois adversários com uma finta de corpo e encontrou Douvikas em profundidade. Depois de uma sequência de movimentos e desvios, a bola voltou para o croata, que ainda teve tranquilidade para driblar mais dois defensores antes de finalizar.

Baturina vive um momento especial. Depois de enfrentar dificuldades para encontrar espaço na temporada passada, principalmente pela presença de Nico Paz, ele passou a atuar como falso ponta. A função permite que o jogador entre por dentro, participe da criação e troque de posição com os companheiros. Nos primeiros quatro jogos da temporada, já havia marcado três gols e dado duas assistências.

A atuação contra o Leipzig também mostrou a evolução de Douvikas. O atacante, que havia passado pelo Celta, terminou a temporada anterior com 17 gols. O Como investiu 13 milhões de euros em sua contratação e conseguiu potencializar suas características. Ele é um jogador que ataca bem os espaços, oferece profundidade e sabe finalizar quando recebe em boas condições.

O dinheiro é importante, mas o planejamento faz a diferença

O crescimento do Como está ligado ao investimento financeiro, mas a equipe não se tornou competitiva apenas porque passou a gastar mais. O grande diferencial é a forma como o clube utiliza seus recursos.

O mercado italiano possui equipes tradicionais e com histórias muito maiores, mas nem todas conseguem contratar bem ou desenvolver seus jogadores. O Como, por outro lado, vem apostando em atletas com potencial de evolução, muitas vezes antes de eles alcançarem o auge da carreira.

A contratação de Luis Milla é um exemplo. O meio-campista, formado no Getafe, chegou ao clube por aproximadamente seis milhões de euros. Aos 31 anos, estreou na Champions League e teve uma atuação de destaque. Sua trajetória mostra que o Como não procura apenas nomes famosos, mas jogadores que possam se encaixar no modelo de Cesc.

Maxi Perrone representa outro aspecto da evolução do elenco. Na temporada passada, o argentino foi considerado um dos três melhores jogadores da equipe. Mesmo assim, nesta temporada, chegou a começar uma partida no banco de reservas. Isso indica que o Como ganhou alternativas e profundidade, algo essencial para disputar várias competições.

A presença de jogadores como Nico Paz, Baturina, Douvikas, Milla, Perrone e Assane Diao também demonstra que o elenco foi montado com diferentes características. Há atletas criativos, jogadores capazes de pressionar, meio-campistas de boa leitura e atacantes que exploram a velocidade.

Assane Diao também teve uma noite importante. Depois de enfrentar problemas físicos na temporada anterior, o atacante marcou um gol com domínio e chute colocado após uma jogada coletiva. Seu talento nunca foi questionado, mas as lesões impediram que ele tivesse sequência. Se conseguir permanecer saudável, pode transformar esta temporada no momento de sua consolidação em nível internacional.

A estrutura do clube também acompanha o crescimento esportivo. O estádio Sinigaglia passou por uma transformação significativa, com a construção de uma nova arquibancada em apenas dois meses. A mudança simboliza a velocidade com que o Como vem evoluindo dentro e fora de campo.

O clube deixou de ser uma equipe desconhecida das divisões inferiores para se tornar uma atração internacional. Hoje, o estádio recebe torcedores históricos, ex-jogadores famosos e celebridades interessadas em acompanhar o novo projeto. A presença de nomes como Thierry Henry e Varane, ambos acionistas, reforça o glamour em torno da instituição.

Ainda assim, o principal legado da vitória sobre o Leipzig não está no luxo, na fama ou no dinheiro. Está na demonstração de que o Como possui uma ideia de jogo consistente. A equipe sabe como quer atacar, como pretende pressionar e de que maneira deve ocupar os espaços.
A goleada por 4 a 1 foi mais do que uma estreia positiva na Champions League. Foi uma confirmação de que o Como já não é apenas uma promessa do futebol italiano. O clube se tornou uma equipe capaz de competir em alto nível, com um treinador visionário, um elenco bem construído e uma gestão que entende como investir.

O próximo desafio será manter esse padrão ao longo da temporada. A Champions League exige regularidade, profundidade e capacidade de enfrentar adversários ainda mais fortes. Mas, depois do que apresentou contra o Leipzig, o Como mostrou que não entrou na competição apenas para participar. A equipe chegou para ser protagonista.

(Foto de capa: Getty Images)

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Kaique