Santos
Futebol Brasileirão

Santos vira um time diferente com contratações e mostra que até os erros podem dar certo em algum momento

O Santos encontrou outra maneira de jogar

O Santos que venceu o Cruzeiro por 2 a 1 na Vila Belmiro é diferente daquele que passou boa parte da temporada tentando encontrar respostas. As contratações tiveram papel importante nesse processo, mas a principal transformação aconteceu dentro de campo: Cuca encontrou uma maneira diferente de distribuir seus jogadores e ocupar os espaços.

A vitória mostrou uma equipe mais agressiva, móvel e disposta a correr riscos para atacar. Mesmo sem Neymar, o Santos conseguiu controlar boa parte da partida, criou oportunidades e apresentou um funcionamento coletivo que não dependia de uma única referência para produzir.

É aí que os reforços começam a fazer sentido. Eles não chegaram apenas para aumentar a qualidade individual do elenco, mas também deram ao treinador novas possibilidades para montar a equipe.

O Santos passou a ocupar mais o campo adversário, circular melhor a bola e colocar muito mais jogadores perto da área. E, quando isso acontece, até um erro do adversário pode deixar de ser apenas acaso e se tornar parte de um contexto criado pelo próprio time.

Cuca encontrou uma estrutura para atacar com mais gente

O aspecto mais interessante da atuação contra o Cruzeiro foi a organização santista com a bola. A equipe não permanecia presa a uma linha defensiva fixa de quatro jogadores. Em determinados momentos, a estrutura alternava entre dois e três jogadores mais atrás, enquanto os demais avançavam para ocupar o meio-campo e o setor ofensivo.

Essa movimentação permitia ao Santos preencher a faixa central com até oito jogadores. É uma concentração significativa de atletas naquela região e ajuda a explicar por que a equipe conseguia oferecer várias linhas de passe e, ao mesmo tempo, manter o Cruzeiro recuado.

Na prática, o Santos atacava com praticamente nove jogadores, deixando Willian Arão como o principal responsável pela sustentação.

É uma escolha ousada de Cuca, porque aumenta a exposição defensiva. Em compensação, oferece ao time muito mais opções para trocar passes, atacar espaços e pressionar a última linha adversária.

A ideia, portanto, não é simplesmente colocar jogadores no ataque. É ocupar diferentes zonas do campo para fazer o adversário tomar decisões o tempo inteiro.

Rodinei, Luan Peres e Igor Vinícius mudam a dinâmica

Os movimentos pelos lados ajudam a entender como essa estrutura funciona.

Com a bola, Rodinei ficava mais aberto pela direita, dando amplitude e obrigando a defesa do Cruzeiro a respeitar aquele corredor. Na esquerda, Luan Peres cumpria função semelhante, enquanto os demais jogadores tinham liberdade para circular por dentro.

Igor Vinícius era ainda mais flexível. O lateral podia avançar pela direita ou aparecer por dentro, dependendo do espaço encontrado. Essa liberdade fazia com que o Santos não apresentasse sempre a mesma referência para quem precisava defender.

Enquanto alguns jogadores davam amplitude, outros atacavam os espaços entre as linhas. O time conseguia, assim, formar superioridade em diferentes regiões sem depender de uma sequência fixa de passes ou de uma única jogada.

Rony tinha uma função um pouco diferente. O atacante procurava manter a última linha do Cruzeiro ocupada, evitando que os zagueiros pudessem simplesmente abandonar a área para encurtar os espaços entre as linhas. Ainda assim, também tinha liberdade para se movimentar naquele setor.

Essa combinação é importante porque dificulta a definição das referências de marcação. O Santos movimenta os jogadores, troca posições e tenta fazer com que o defensor esteja sempre diante de uma escolha.

Os reforços mudaram mais do que a escalação

É por isso que a chegada de Rodinei e Everton Cebolinha não pode ser analisada apenas pela qualidade individual dos dois jogadores.

Rodinei oferece experiência, força física e capacidade de ocupar diferentes espaços. Contra o Cruzeiro, sua presença pela direita permitiu que o Santos tivesse amplitude sem impedir que Igor Vinícius se movimentasse por dentro ou aparecesse em outra região.

Cebolinha, por sua vez, acrescenta velocidade e profundidade ao ataque. Em sua estreia, não precisou ser o jogador responsável por resolver tudo para fazer diferença. Sua movimentação já foi suficiente para alterar o comportamento da defesa e abrir espaços para os companheiros.

O primeiro gol é um bom exemplo. Bontempo avançou pelo lado direito, Cebolinha apareceu para finalizar e Rollheiser aproveitou a sobra para abrir o placar.

O lance não foi resultado apenas de uma individualidade. Foi consequência de uma equipe que tinha jogadores ocupando diferentes zonas e conseguia chegar com mais gente ao ataque.

Isso é o que os reforços podem representar para o Santos: não necessariamente a obrigação de decidir todos os jogos, mas a possibilidade de construir uma equipe com mais alternativas.

Sem Neymar, o coletivo ganhou protagonismo

A ausência de Neymar continua sendo uma perda enorme para qualquer equipe brasileira, mas o Santos encontrou uma resposta interessante para o problema.

Sem o camisa 10, outros jogadores passaram a assumir responsabilidades diferentes. Rollheiser e Bontempo ganharam liberdade para participar mais da construção, enquanto Cebolinha apareceu como uma nova referência de velocidade e agressividade.

Isso não significa que o Santos seja melhor sem Neymar. Significa que, sem ele, Cuca precisou encontrar outra forma de fazer a equipe funcionar.

E a atuação contra o Cruzeiro mostrou que essa alternativa pode ser competitiva.

O Santos não ficou esperando uma jogada individual para resolver a partida. Pelo contrário: pressionou, circulou, ocupou espaços e chegou várias vezes à área. No primeiro tempo, teve amplo domínio e poderia ter construído uma vantagem ainda maior.

Essa talvez seja a principal mudança do time. Antes, muitas situações ofensivas pareciam depender de alguém resolver o lance. Agora, o próprio funcionamento coletivo cria mais possibilidades para que diferentes jogadores apareçam.

Até o erro do adversário passou a ajudar

É aqui que a segunda parte do título ganha força.

O Santos construiu a vantagem com uma atuação que já justificava estar à frente no placar. O primeiro gol saiu depois de uma boa jogada pelo setor ofensivo, com Cebolinha participando e Rollheiser aproveitando a sobra.

Pouco depois, veio o segundo. Rodinei recebeu pela direita e cruzou rasteiro. Fabrício Bruno tentou afastar, mas acabou colocando a bola para dentro.

Um gol contra é, obviamente, um erro do adversário. Não faria sentido atribuir ao Santos algo que ele não executou diretamente. Mas também seria simplista tratar a jogada apenas como sorte.

O Cruzeiro estava sendo empurrado para trás. O Santos tinha jogadores atacando diferentes espaços e conseguia colocar a defesa mineira diante de decisões constantes. O erro aconteceu dentro desse contexto.

É justamente essa a diferença entre contar com a sorte e criar condições para que ela apareça.

Uma equipe que ataca pouco depende de um erro adversário como um acontecimento extraordinário. Uma equipe que pressiona, ocupa o campo ofensivo e cria repetidamente aumenta as possibilidades de que alguma coisa aconteça.

Às vezes será uma grande jogada. Em outras, uma defesa difícil do goleiro ou um erro do adversário. O importante é criar um contexto em que esses acontecimentos possam favorecer o time.

A mudança ainda precisa ser confirmada

É claro que uma boa atuação não resolve todos os problemas do Santos. O time ainda precisa provar que essa estrutura será capaz de funcionar contra adversários diferentes e, principalmente, que conseguirá manter equilíbrio quando não tiver a bola.

Atacar com nove jogadores e deixar Arão como principal proteção é uma escolha que exige coordenação. Se a bola for perdida em uma região ruim, o espaço nas costas pode se tornar um problema. O modelo, portanto, não depende apenas de coragem, mas também de intensidade para pressionar imediatamente depois da perda.

Mesmo assim, existe algo diferente no Santos atual.

Cuca parece ter encontrado uma forma de fazer as características dos jogadores conversarem entre si. Os reforços aumentaram o repertório, os jogadores que já estavam no elenco ganharam novas possibilidades e a equipe deixou de depender exclusivamente de suas principais estrelas.

O resultado é um Santos mais coletivo e, ao mesmo tempo, mais agressivo.

O Santos finalmente começa a parecer um time

A vitória sobre o Cruzeiro vale mais do que os três pontos. Ela reforça a percepção de que o Santos encontrou uma identidade que pode ser explorada daqui para frente.

Rodinei pode abrir o campo pela direita, Luan Peres fazer o mesmo pela esquerda, Igor Vinícius escolher entre atacar por fora ou entrar por dentro, enquanto os demais jogadores circulam e criam novas referências. Rony mantém os zagueiros preocupados com a profundidade, mas também se movimenta. Arão oferece a sustentação necessária para que os demais possam se lançar.

Não é um sistema perfeito. É, porém, uma ideia clara de jogo.

E talvez essa seja a principal diferença em relação ao Santos de alguns meses atrás. O time não está mais apenas tentando sobreviver às ausências ou esperando que uma individualidade resolva os problemas. Está construindo mecanismos para competir.

As contratações ajudaram Cuca a encontrar esse caminho, mas o mérito está em transformar nomes em funcionamento coletivo. Contra o Cruzeiro, isso ficou evidente.

O Santos ainda precisa confirmar a evolução, mas já pode olhar para o restante da temporada com outra perspectiva. Às vezes, uma ausência obriga uma mudança, uma contratação cria uma possibilidade nova e até um erro do adversário acaba favorecendo quem está fazendo por merecer.

No futebol, nem todo acerto nasce de uma jogada perfeita. Mas equipes que encontram uma maneira de jogar aumentam bastante as chances de até os erros darem certo em algum momento.