A saída de Luís Castro era inevitável
A demissão de Luís Castro não aconteceu apenas pela derrota por 2 a 1 para o Vasco. O resultado em casa foi o ponto final de um trabalho que já não conseguia transmitir segurança ao Grêmio e que chegou ao limite justamente em um momento em que o clube precisava de respostas.
O Tricolor ocupa a 15ª posição do Campeonato Brasileiro, com 28 pontos, empatado com equipes que estão na zona de rebaixamento. A campanha também apresenta um problema evidente: o Grêmio ainda não conseguiu vencer fora de casa no Brasileirão. É uma realidade que ajuda a explicar por que a pressão sobre Castro se tornou insustentável.

O português teve tempo para encontrar soluções, mas o time não conseguiu transformar eventuais evoluções em regularidade. Faltou estabilidade para competir durante 90 minutos, e a derrota para o Vasco voltou a expor essa dificuldade.
Nesse cenário, a troca de treinador é compreensível. A questão mais importante agora é saber se o Grêmio encontrará uma mudança de rota ou apenas trocará o personagem à frente de problemas que continuam existindo.
Renato é a escolha mais lógica?
É difícil olhar para o cenário atual e ignorar Renato Portaluppi. O Grêmio já abriu conversas com o treinador para avaliar seu retorno, e ele aparece como o nome mais forte nos bastidores. Outros profissionais também são avaliados, mas Renato parte com uma vantagem que nenhum outro candidato consegue reproduzir: conhece profundamente o clube e sabe o que significa comandar o Grêmio sob pressão.
Isso não é apenas uma questão de identificação. Renato conhece a torcida, o ambiente do vestiário, a cobrança da direção e o peso de cada resultado em Porto Alegre. Em uma temporada na qual o clube não pode desperdiçar muitas rodadas, essa capacidade de adaptação imediata tem valor.
Ele também conhece a dimensão do Grêmio em momentos de crise. Já viveu situações nas quais a equipe precisava reagir rapidamente e conseguiu recuperar confiança e competitividade. É exatamente o que o clube procura agora.
Felipão assumirá interinamente a equipe na próxima partida, contra o Botafogo, enquanto a direção trabalha para definir o próximo comandante. A tendência de procurar Renato faz sentido diante da urgência do momento.
Mas existe uma ressalva importante: conhecer o clube não significa, por si só, resolver seus problemas.
O risco de apostar apenas no passado
Renato não pode ser contratado simplesmente porque é Renato.
O passado pesa, e muito. O treinador é um dos maiores ídolos da história gremista e já comandou o clube em quatro períodos diferentes, conquistando títulos importantes, entre eles a Copa do Brasil e a Libertadores. Um novo acordo representaria sua quinta passagem pelo Tricolor.
Essa história ajuda a explicar por que seu nome ganha força justamente agora. Só que também aumenta a responsabilidade. O Grêmio não precisa apenas de alguém capaz de recuperar o ambiente. Precisa de uma equipe que volte a competir melhor.
Renato pode ajudar a reconstruir a confiança, aproximar o elenco da torcida e encontrar soluções mais rapidamente do que um treinador que chegasse sem conhecer o contexto. Mas nenhum desses fatores garante que o time deixará de apresentar os mesmos problemas que levaram à saída de Castro.
A nostalgia pode abrir a porta. O futebol apresentado daqui para frente é que precisa justificar a escolha.
O principal problema está dentro de campo
A derrota para o Vasco deixou uma pista importante sobre o tamanho do desafio. O Grêmio saiu na frente, mas não conseguiu controlar a partida e permitiu a virada no segundo tempo.
Esse tipo de comportamento já apareceu outras vezes durante a temporada: a equipe consegue competir em determinados momentos, mas tem dificuldade para sustentar o desempenho e transformar períodos de bom futebol em resultados.
O desempenho fora de casa torna o cenário ainda mais preocupante.
Se Renato assumir, esse precisa ser um dos primeiros pontos de atenção. Não basta recuperar o ambiente ou fazer o time jogar com mais confiança na Arena. O Grêmio precisa encontrar uma maneira de pontuar longe de Porto Alegre.
É justamente aí que estará o verdadeiro teste para o novo treinador.
Renato, Roger ou Zubeldía?
A direção não trabalha exclusivamente com Renato. Roger Machado e Luis Zubeldía também aparecem entre os nomes avaliados.
São alternativas com características diferentes e que poderiam conduzir o Grêmio por caminhos distintos. Roger tem conhecimento do futebol brasileiro e uma relação histórica com o clube. Zubeldía representa um perfil mais associado a uma ideia de jogo específica e também conhece a pressão de grandes clubes.
Renato, porém, oferece algo que os outros não conseguem oferecer no mesmo nível: uma relação construída ao longo de muitos anos com o Grêmio.
Em uma situação normal, talvez fosse possível colocar esse fator em segundo plano e priorizar exclusivamente o perfil tático. Em uma crise como a atual, entretanto, a capacidade de entender rapidamente o ambiente também precisa entrar na equação.
O problema é quando essa vantagem passa a ser confundida com garantia de sucesso.
Renato pode ser a melhor solução, mas não será a solução inteira
Se a pergunta é qual nome parece mais preparado para assumir o Grêmio imediatamente, Renato provavelmente é a resposta mais lógica. Não porque seja um salvador, mas porque o momento exige alguém que possa chegar, entender rapidamente o tamanho da crise e começar a trabalhar sem precisar de meses para compreender o clube e a pressão ao seu redor.
Essa familiaridade pode fazer diferença.
Só que o Grêmio precisa ter clareza sobre o que está fazendo. A contratação de Renato não pode servir para esconder os problemas do elenco, da campanha ou do próprio planejamento da temporada. Se a direção acreditar que a simples volta do ídolo será suficiente para mudar tudo, estará repetindo o erro de depositar uma responsabilidade enorme em apenas uma pessoa.
Renato pode organizar o time, recuperar jogadores, melhorar o ambiente e devolver confiança à torcida. Tudo isso é relevante. Mas será necessário também que os jogadores respondam dentro de campo e que o clube ofereça condições para que o trabalho tenha continuidade.
A volta de Renato, portanto, pode ser o melhor movimento disponível para o Grêmio neste momento. O treinador tem conhecimento do clube, identificação com a torcida e experiência suficiente para lidar com um cenário de pressão.
Mas há uma diferença fundamental entre ser a melhor opção para começar a reação e ser a solução para todos os problemas. O Grêmio precisa entender isso antes de assinar.
Se Renato voltar, não deve voltar apenas para reabrir um capítulo vitorioso da história do clube. Deve voltar para escrever uma história diferente, em um momento muito mais delicado, e provar que a experiência acumulada pode ser transformada em desempenho.
A memória pode explicar a escolha. Só o futebol poderá validá-la.


