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Grêmio sabe decidir mata-mata, mas ainda não aprendeu a jogar o Brasileirão

O Grêmio eliminou o Internacional, chegou à semifinal da Copa do Brasil e parecia ter encontrado um ponto de partida para reagir na temporada. Quatro dias depois, perdeu para o Vitória por 1 a 0 e voltou a expor o mesmo problema que o acompanha no Brasileirão: quando precisa construir o resultado por conta própria, o time ainda encontra poucas respostas.

É justamente aí que aparece a diferença entre o Grêmio dos mata-matas e o Grêmio dos pontos corridos.

A derrota no Barradão não apaga o que aconteceu no Gre-Nal, tampouco transforma aquela atuação em acaso. O problema é que uma grande noite em um clássico eliminatório não é suficiente para mudar, de uma hora para outra, uma equipe que passou meses sem encontrar estabilidade. O próprio Luís Castro reconheceu que o aspecto emocional pesa sobre um grupo que ainda não conseguiu vencer fora de casa no Brasileirão.

O Grêmio ainda depende demais do contexto

O Grêmio mostrou na Copa do Brasil que consegue competir quando o jogo oferece um roteiro mais claro. Contra o Internacional, havia uma atmosfera de decisão, um adversário que precisava atacar e espaços para explorar. O time foi intenso, eficiente e soube aproveitar as oportunidades que apareceram.

No Brasileirão, a realidade é outra.

Contra o Vitória, o Grêmio precisava assumir a responsabilidade pela partida, encontrar espaços e produzir mesmo sem ter um adversário obrigado a se expor. Não conseguiu fazer isso. Criou apenas duas chances claras e terminou o primeiro tempo sem sequer cobrar um escanteio.

Esse contraste é mais importante do que o resultado isolado, porque um time que pretende se afastar da parte de baixo da tabela precisa ser capaz de competir em diferentes cenários. Não pode depender da urgência do adversário, do ambiente de um clássico ou de uma partida que naturalmente ofereça mais espaços.

O Grêmio ainda parece precisar dessas condições para funcionar no seu melhor nível.

Uma grande noite não poderia resolver meses de problemas

Talvez a maior armadilha tenha sido imaginar que a classificação diante do maior rival automaticamente produziria uma transformação. Ela poderia devolver confiança, mostrar que as mudanças recentes no elenco começaram a funcionar e até servir como ponto de partida para uma reação, mas não poderia apagar meses de instabilidade.

Krovinovic, Wallace e outros reforços trouxeram soluções importantes, enquanto jogadores como Carlos Vinícius e Amuzu aumentaram o potencial ofensivo. O desafio, porém, é transformar essas peças em um funcionamento coletivo que apareça também quando o Grêmio não está disputando uma decisão.

Contra o Vitória, Amuzu ficou fora por dores musculares, e a equipe sentiu a ausência. Tetê e Pavón não conseguiram compensar a perda de velocidade e capacidade de desequilíbrio pelos lados. Depois do gol sofrido, as mudanças de Luís Castro também não conseguiram alterar o cenário, e o time terminou a partida cedendo oportunidades em vez de aumentar a pressão ofensiva.

Isso mostra que ainda existe uma dependência considerável de determinadas peças e, principalmente, de determinados tipos de jogo.

O Brasileirão exige uma consistência que o Grêmio ainda não tem

É possível discutir as escolhas de Luís Castro, mas colocar tudo nas costas do treinador seria simplificar demais. O técnico ainda está tentando dar uma identidade a uma equipe que passou por muitas mudanças e conviveu com indefinições durante boa parte da temporada. Um modelo não se consolida apenas porque o time conseguiu fazer uma grande partida em uma noite específica.

O Brasileirão cobra repetição.

É preciso apresentar competitividade contra o líder, contra um adversário direto e contra uma equipe que joga fechada. É necessário encontrar maneiras de vencer quando o jogo não oferece espaços e, principalmente, reagir rapidamente quando o plano inicial não funciona.

Essa é justamente a parte que ainda falta ao Grêmio.

A equipe pode ser perigosa em determinados contextos, mas continua vulnerável quando precisa controlar a partida durante longos períodos. No Barradão, depois de sofrer o gol, terminou cedendo oportunidades em vez de aumentar a pressão ofensiva.

Isso não parece apenas uma questão técnica. Existe uma dificuldade de comportamento que acompanha o time e aparece justamente quando ele precisa tomar a iniciativa.

A semifinal da Copa do Brasil não pode esconder o problema

O paradoxo do Grêmio é justamente este: o clube está entre os quatro melhores da Copa do Brasil, mas ainda precisa olhar para baixo na tabela do Brasileirão.

A classificação sobre o Internacional abriu uma porta importante na temporada. O time terá o Atlético-MG pela frente na semifinal e pode transformar uma campanha irregular em uma temporada relevante. Só que isso não elimina a obrigação de resolver o campeonato.

Com 28 pontos e apenas três de vantagem para o Vasco, primeiro clube dentro do Z-4, o Grêmio não tem margem para escolher qual competição merece atenção. O próximo compromisso contra o próprio Vasco, na Arena, será um confronto direto e uma oportunidade imediata de responder à derrota em Salvador.

E talvez esse seja o teste mais importante para Luís Castro: não repetir o Gre-Nal, mas mostrar que o Gre-Nal ensinou alguma coisa.

O Grêmio precisa aprender a ganhar jogos que não parecem finais

É possível que o Grêmio continue sendo perigoso na Copa do Brasil. O formato favorece equipes capazes de competir em jogos específicos, e o Tricolor já mostrou que consegue elevar seu nível quando a pressão aumenta.

O desafio é fazer o contrário também: aprender a competir quando a partida não tem cara de decisão, mas vale exatamente os mesmos três pontos.

Foi isso que faltou contra o Vitória.

Se o Grêmio conseguir transformar a energia dos mata-matas em consistência no Brasileirão, a vitória sobre o Internacional poderá, retrospectivamente, ser vista como o início de uma mudança. Se não conseguir, ela terá sido apenas uma grande noite isolada no meio de uma campanha marcada pela irregularidade.

O Grêmio já provou que sabe sobreviver a decisões. Agora precisa provar que sabe construir uma temporada.

Porque chegar à semifinal da Copa do Brasil é uma conquista importante. Mas, para quem ainda olha para o Z-4, aprender a ganhar no Brasileirão deixou de ser uma questão de evolução: virou uma necessidade.

Foto: Celo Gil / Grêmio FBPA / Divulgação