A eliminação do São Paulo para o Boca Juniors, pelas quartas de final da Copa Sul-Americana, deixou uma sensação difícil de ignorar no Morumbis. Além de perder a classificação, o time apresentou uma atuação muito pobre no setor ofensivo e mostrou pouca capacidade para reagir diante de um adversário que também não precisou fazer uma grande partida para controlar o confronto.
O São Paulo precisava reverter a desvantagem no placar agregado, mas não conseguiu construir uma atuação compatível com a necessidade do jogo. Faltaram criatividade, posse de bola, troca de passes e presença ofensiva. O sistema defensivo também falhou, mesmo com a equipe utilizando três zagueiros. No lance do gol do Boca Juniors, Lozano apareceu livre na área após uma desatenção coletiva e ampliou a vantagem dos argentinos.
A eliminação abre uma discussão maior do que a simples análise de uma partida. O São Paulo precisa reformular o elenco? Jogadores que há anos representam a equipe, como Rafael, Arboleda, Luciano e Calleri, ainda devem ser tratados como peças intocáveis? E, antes de pensar em mudanças no grupo, não seria necessário discutir também o trabalho de Dorival?
Dorival também precisa entrar na discussão

A atuação contra o Boca Juniors colocou Dorival no centro dos questionamentos. O treinador reconheceu depois da partida que o São Paulo não conseguiu apresentar praticamente nada em termos de criação, posse e troca de passes. A declaração é importante porque não se tratou apenas de uma avaliação externa. O próprio comandante admitiu que o time não conseguiu executar aquilo que precisava para buscar a classificação.
O sistema com três zagueiros também merece análise. A formação pode oferecer mais segurança defensiva quando existe organização, mas, em uma partida na qual o São Paulo precisava vencer, a equipe ficou pouco criativa e não conseguiu ocupar os espaços no ataque. O problema não foi somente a escolha tática, mas a falta de alternativas durante o jogo.
A situação fica ainda mais delicada quando o aproveitamento de Dorival é comparado ao de Roger Machado, treinador demitido depois de sofrer forte rejeição da torcida. Em 16 partidas, Dorival soma quatro vitórias, seis empates e seis derrotas, além da eliminação na Copa Sul-Americana. O aproveitamento é de 37,50%, abaixo dos 41,18% registrados por Roger Machado antes de sua saída.
Os números não explicam tudo, mas ajudam a dimensionar o momento. Dorival ainda pode ter argumentos relacionados a lesões, escolhas de elenco e contexto financeiro. Porém, se o time não apresenta evolução ofensiva e também não consegue ser sólido defensivamente, a comissão técnica precisa fazer parte da discussão sobre o futuro.
A escolha de Calleri como titular no jogo de ida também será lembrada. Naquele momento, Gustavo Santana atravessava uma fase melhor e vinha correspondendo quando recebia oportunidades. Calleri, por sua vez, ficou marcado por perder chances importantes e receber um cartão amarelo evitável, que o tirou da partida de volta. A decisão de escalar o argentino não pode ser analisada apenas pelo resultado, mas ela reforça a necessidade de Dorival avaliar o momento de cada jogador.
As referências do elenco já não entregam como antes

Reformular o São Paulo não significa simplesmente afastar todos os jogadores experientes. Rafael, Arboleda, Luciano e Calleri possuem história, liderança e importância no grupo. O problema é que o peso dessas referências precisa ser acompanhado por desempenho dentro de campo.
Rafael, por exemplo, já não conta com a mesma confiança de parte da torcida. O goleiro ainda tem experiência e pode realizar boas defesas, mas algumas atuações recentes aumentaram a cobrança. A questão é que o São Paulo não possui uma alternativa plenamente testada para assumir a posição. Coronel foi contratado para ser reserva, mas teve apenas três oportunidades como titular na temporada.
Sem uma sequência de jogos, Coronel ainda não conseguiu provar se pode ser uma solução. Dessa forma, a discussão sobre Rafael não pode ser resolvida apenas com uma troca imediata. O clube precisa avaliar o desempenho do titular, oferecer mais oportunidades ao reserva e decidir se será necessário buscar outro goleiro.
Na defesa, o cenário é parecido. Arboleda segue sendo uma das principais referências do setor, mas os substitutos não atravessam um momento melhor. Rafael Toloi estava no banco no confronto contra o Boca Juniors, porém seu retorno ao São Paulo tem sido marcado por falhas e atuações abaixo do esperado.
Isso cria um problema para o planejamento. O clube pode entender que Arboleda precisa de concorrência ou até de uma renovação no setor, mas não basta tirá-lo da equipe sem ter alguém preparado para assumir sua função. A defesa precisa de jogadores confiáveis, e não apenas de mudanças por causa da frustração com um resultado.
O ataque também não apresenta alternativas prontas
A situação de Luciano e Calleri é ainda mais complexa porque o banco de reservas não tem oferecido soluções consistentes. André Silva, que poderia ser considerado uma alternativa para o ataque, está há mais de um ano sem marcar. Seu último gol aconteceu contra o Atlético Nacional, em 20 de agosto de 2025.
Com esse cenário, fica difícil imaginar uma reformulação imediata baseada em André Silva. O jogador pode recuperar a confiança, mas atualmente não apresenta números que indiquem estar pronto para assumir o protagonismo ofensivo.
Calleri também vive um momento de cobrança. O argentino continua sendo um jogador de presença física, capacidade de disputa e liderança, mas sua produção ofensiva caiu nos últimos anos. Contra o Boca Juniors, a ausência dele no jogo de volta foi consequência direta do cartão recebido na primeira partida.
Luciano, por sua vez, segue como uma referência técnica e emocional, mas também precisa ser avaliado pelo rendimento atual. O São Paulo não pode manter jogadores apenas pelo que fizeram em temporadas anteriores. Ao mesmo tempo, não seria prudente afastá-los sem que existam substitutos capazes de entregar mais.
Esse é o ponto central do problema. A torcida pode desejar mudanças, mas o elenco não apresenta uma fila de jogadores experientes em grande fase esperando por uma oportunidade. O São Paulo precisa reformular, mas não pode fazer isso de maneira improvisada.
A base pode ser o início da mudança

Se as alternativas experientes não estão prontas e o clube enfrenta dificuldades financeiras para contratar, a base surge como uma possibilidade real. O São Paulo tem jovens capazes de participar de uma renovação, mas precisa tomar cuidado para não transformar todos eles em soluções imediatas.
Na defesa, Osório já apresentou bons jogos com a camisa profissional. O clássico contra o Palmeiras ficou marcado pela expulsão em um lance juvenil, que prejudicou os planos da equipe. Apesar disso, o zagueiro vinha de atuações positivas e demonstrava personalidade para assumir responsabilidades.
Osório ainda precisa amadurecer, principalmente na tomada de decisões. Porém, sua presença pode ser importante em um processo de renovação gradual da defesa. Ele precisa receber oportunidades, orientação e proteção para não ser responsabilizado por todos os problemas do setor.
No meio-campo, Djhordney também aparece como uma alternativa interessante. O garoto mostrou qualidades defensivas, boa saída de bola e capacidade para participar da construção ofensiva. Ainda precisa evoluir nos passes decisivos e na chegada à área, mas já apresenta características que podem ajudar o time.
A utilização de Djhordney também permitiria que o São Paulo avaliasse internamente uma solução antes de buscar reforços no mercado. Em um clube com dificuldades financeiras, dar minutos aos jovens pode ser uma decisão esportiva e econômica.
Gustavo Santana e Ryan Francisco representam o futuro

No ataque, Gustavo Santana é um dos nomes que mais pedem espaço. O atacante correspondeu quando foi acionado e apresentou características que lembram o estilo de Calleri, como a presença constante dentro da área, a disposição para brigar com os zagueiros e a capacidade de finalizar.
A diferença é que Gustavo também mostrou uma qualidade na conclusão das jogadas que Calleri não tem apresentado com a mesma frequência nos últimos anos. Isso não significa que o garoto deva ser colocado imediatamente como titular absoluto, mas indica que ele merece uma sequência maior.
Ryan Francisco é outro jogador que desperta expectativa. O atacante brilhou nas categorias de base e tem sido tratado como uma das grandes promessas do São Paulo. Contra o Boca Juniors, precisou de poucos minutos para marcar, mas o gol acabou anulado por um impedimento duvidoso de Luciano, que havia dado o passe.
Mesmo sem o gol validado, Ryan mostrou bom posicionamento dentro da área e capacidade para aparecer em zonas perigosas. São características que o São Paulo precisa desenvolver com cuidado, sem acelerar sua formação apenas por causa da pressão da torcida.
O dilema é evidente. A base pode ajudar a iniciar uma reformulação, mas também é vista pelo clube como uma fonte de receita. Nos últimos anos, muitos jovens foram tratados como a saída para equilibrar as finanças. Quando um jogador começa a se destacar, a tendência é que seja negociado antes de conseguir se consolidar no time principal.
Reformular exige planejamento, não apenas nomes novos

O São Paulo vive uma situação financeira que limita qualquer grande mudança. Atrasos salariais, transfer ban e dificuldades para contratar tornam improvável uma reformulação baseada em vários reforços de alto nível. Por isso, o clube precisa definir prioridades.
A primeira delas é avaliar o trabalho de Dorival. Se a equipe não apresenta criação, organização e evolução, a comissão técnica precisa responder por isso. Depois, é necessário analisar individualmente os jogadores experientes, sem decisões tomadas apenas pela emoção da eliminação.
Rafael, Arboleda, Luciano e Calleri podem continuar sendo importantes, mas não devem ter seus lugares garantidos apenas pela história. Ao mesmo tempo, os jovens precisam receber oportunidades reais, e não serem utilizados somente quando o elenco está desfalcado.
O São Paulo pode iniciar uma renovação com Osório, Djhordney, Gustavo Santana e Ryan Francisco. Porém, isso só funcionará se o clube tiver coragem de desenvolver os garotos e não vendê-los na primeira oportunidade para pagar dívidas.
A eliminação para o Boca Juniors expôs problemas antigos. O time foi pouco criativo, falhou defensivamente e não conseguiu reagir mesmo precisando buscar o resultado. A reformulação parece necessária, mas ela não deve ser feita de forma apressada. O São Paulo precisa decidir se continuará apostando nas referências que já não vivem o melhor momento ou se começará a abrir espaço para uma nova geração. O maior risco é permanecer no meio do caminho, sem renovar o elenco e sem dar aos jovens a oportunidade de mudar a equipe.
(Foto de capa: Rubens Chiri e Paulo Pinto/Saopaulofc.net)



