Luciano São Paulo
Futebol Copa Sul-Americana

São Paulo desperdiça chances de ouro para vencer em La Bombonera; displicência ou falta de qualidade?

O São Paulo teve o jogo nas mãos, mas não soube aproveitá-lo

O São Paulo deixou a La Bombonera derrotado por 1 a 0 para o Boca Juniors, mas o resultado não conta sozinho a história do que aconteceu em Buenos Aires. O Tricolor teve momentos de superioridade, especialmente no primeiro tempo, conseguiu dificultar a saída de bola argentina e criou oportunidades suficientes para voltar ao Brasil com uma situação muito mais confortável nas quartas de final da Copa Sul-Americana.

É justamente por isso que a derrota incomoda mais.

Não se trata de dizer que o São Paulo foi muito superior ao Boca ou que merecia necessariamente vencer. O confronto foi equilibrado e teve momentos distintos. O ponto é que a equipe de Dorival Júnior conseguiu construir um cenário favorável na primeira etapa e não conseguiu transformá-lo em vantagem.

A pressão alta foi uma das principais armas do Tricolor. A equipe recuperou bolas em regiões perigosas e impediu que o Boca saísse com tranquilidade. Em uma dessas situações, Iago recebeu pela esquerda após um erro provocado pela marcação, levantou a cabeça e encontrou Luciano livre na área. O atacante cabeceou bem, mas parou em uma grande defesa de Montero.

Pouco depois, Calleri teve uma oportunidade ainda mais promissora. Recebeu dentro da área, de frente para o gol e com espaço para finalizar, mas bateu mal e desperdiçou uma chance que, em uma partida desse tamanho, pode fazer muita diferença.

Então, afinal, foi displicência ou falta de qualidade? A resposta passa mais pela execução do que pela capacidade de criação.

O São Paulo teve qualidade para encontrar os espaços e construir as jogadas. O que faltou foi precisão no momento decisivo. Luciano poderia ter colocado a bola fora do alcance do goleiro, enquanto Calleri tinha uma situação em que poderia ter finalizado com muito mais perigo. Não são lances impossíveis, mas são exatamente aqueles em que um time que pretende avançar em uma competição continental precisa ser mais eficiente.

Quando o Boca cresceu, o São Paulo não conseguiu responder

O problema ficou ainda mais evidente na segunda etapa. O Boca voltou mais agressivo e conseguiu diminuir o impacto da pressão tricolor. O São Paulo já não recuperava tantas bolas no campo ofensivo e passou a encontrar dificuldades para manter o adversário longe de sua área.

A mudança de comportamento das duas equipes foi determinante.

O Boca percebeu que poderia atacar mais e passou a explorar os espaços pelos lados, enquanto o São Paulo perdeu parte da intensidade que havia apresentado antes do intervalo. Não foi apenas uma questão física. A equipe também deixou de pressionar de maneira coordenada e passou a depender mais de jogadas individuais para criar algum perigo.

O gol argentino nasceu justamente nesse contexto.

Merentiel recebeu na área, conseguiu se livrar da marcação e finalizou. Rafael fez a defesa, mas o rebote voltou para o atacante, que completou para as redes. O lance teve participação de Lucas Ramon, que sofreu defensivamente durante a jogada, mas seria injusto resumir o gol a um erro individual.

O que permitiu ao Boca chegar naquela situação foi uma queda coletiva do São Paulo.

Depois de sofrer o gol, a equipe também não conseguiu reagir como precisava. Calleri teve pouca participação, Marcos Antônio não conseguiu assumir o protagonismo na construção e Artur perdeu a influência que costuma ter quando encontra espaço. Luciano ainda sentiu e precisou deixar o campo, obrigando Dorival a mexer em um setor que já vinha apresentando dificuldades.

A entrada de Gustavo Santana aumentou a movimentação ofensiva, mas não resolveu o principal problema: o São Paulo precisava voltar a criar chances claras e não conseguiu.

Essa é uma diferença importante. Uma equipe pode perder porque o adversário foi melhor, mas também pode perder porque não soube aproveitar o momento em que tinha o controle da partida. O São Paulo esteve mais próximo da segunda situação.

O desfalque de Calleri aumenta a responsabilidade no Morumbis

Para piorar o cenário, o Tricolor terá uma baixa importante na partida de volta. Calleri recebeu o terceiro cartão amarelo e está suspenso. Luciano, que deixou o campo sentindo dores, ainda aparece como dúvida.

A ausência do argentino pesa principalmente porque o São Paulo precisará marcar gols. Não basta administrar a partida no Morumbis: a equipe precisa vencer por dois gols de diferença para avançar diretamente. Uma vitória por apenas um gol leva a decisão para os pênaltis.

Nesse contexto, Gustavo Santana pode ganhar uma oportunidade ainda maior. O jovem mostrou disposição e movimentação quando entrou na Bombonera, mas seria exagerado colocar sobre ele a responsabilidade de solucionar sozinho um problema que é coletivo.

O São Paulo precisa encontrar uma forma de produzir ofensivamente sem Calleri e, principalmente, não pode depender de uma única alternativa para buscar a classificação.

A classificação está aberta, mas o São Paulo deixou uma oportunidade escapar

A vantagem do Boca é mínima e, portanto, o confronto está completamente aberto. Jogando no Morumbis, diante de sua torcida, o São Paulo tem condições de buscar a virada e continuar vivo na Sul-Americana.

Mas a atuação em Buenos Aires deixou um alerta que não pode ser ignorado.

O Tricolor mostrou que consegue competir com o Boca mesmo na Bombonera. Conseguiu pressionar, dificultou a saída de bola, criou boas oportunidades e teve um primeiro tempo em que poderia ter saído na frente. Isso é um aspecto positivo e mostra que a desvantagem não deve ser interpretada como sinal de que o adversário foi muito superior.

Por outro lado, também ficou evidente que o São Paulo ainda precisa amadurecer a maneira como administra os diferentes momentos de uma partida.

Quando teve o controle, não matou o jogo. Quando o Boca cresceu, não conseguiu recuperar o domínio. E, quando sofreu o gol, faltou repertório para transformar a pressão em oportunidades reais.

Por isso, falar apenas em “falta de qualidade” seria injusto. O time teve qualidade para criar. Também seria simplista tratar tudo como “displicência”, porque as dificuldades apareceram em um contexto de queda de intensidade, desorganização ofensiva e mérito do adversário para mudar o jogo.

O que houve foi uma combinação de fatores, com a falta de eficiência aparecendo como o principal deles.

O São Paulo teve nas mãos a chance de fazer história na Bombonera com um resultado que poderia encaminhar a classificação. Não aproveitou. Agora terá que fazer no Morumbis aquilo que não conseguiu em Buenos Aires: transformar as oportunidades em gols e sustentar o nível de atuação durante os 90 minutos.

A vaga continua ao alcance.

Mas, depois do que aconteceu na Argentina, o São Paulo sabe que não pode desperdiçar uma segunda oportunidade.

Foto: Rubens Chiri / São Paulo FC / Divulgação