O Botafogo venceu, mas Tite viu exatamente por onde começar
Tite poderia ter encontrado um cenário pior em sua primeira observação como técnico do Botafogo. A equipe venceu o Grêmio por 3 a 2, encerrou uma sequência de seis jogos sem vitória no Brasileirão e ganhou algum respiro na tabela.
Mas também poderia ter encontrado um cenário muito melhor.
Do camarote do Nilton Santos, o novo treinador viu uma equipe capaz de produzir jogadas de alto nível, mas que ainda oscila demais entre momentos de qualidade e longos períodos de desorganização. Danilo marcou duas vezes, Montoro fez outro e os dois foram os principais responsáveis pela vitória.
Isso diz muito sobre o Botafogo atual. Existe talento. Existe capacidade para decidir partidas. Existem jogadores capazes de criar algo diferente quando o jogo parece travado.
O que ainda não existe é uma identidade suficientemente forte para fazer esse talento aparecer com regularidade.
E é justamente aí que começa o trabalho de Tite.
Danilo e Montoro mostram que o talento está ali
O melhor argumento a favor do Botafogo é justamente a qualidade individual. Danilo teve uma noite de protagonista. Participou da construção do primeiro gol e depois apareceu novamente para marcar. Montoro também foi decisivo, não apenas pelo gol, mas pela capacidade de encontrar espaços e participar das principais ações ofensivas.
O problema é que os dois precisaram fazer muito para que o time funcionasse.
O Botafogo começou bem, criou oportunidades e conseguiu pressionar o Grêmio, mas não sustentou o mesmo nível ao longo da partida. O meio-campo teve dificuldades para associar passes e, em diversos momentos, a equipe recorreu às bolas longas para Arthur Cabral.
É uma diferença importante.
Um time competitivo pode vencer graças a um grande lance individual. Um time consistente precisa criar condições para que seus melhores jogadores estejam frequentemente perto das zonas em que podem decidir.
Montoro, por exemplo, mostrou capacidade para render mais por dentro. Danilo também parece mais perigoso quando consegue participar das ações ofensivas e chegar perto da área. Tite terá de encontrar a maneira de potencializar essas características sem transformar o time em uma dependência de dois jogadores.
O Botafogo ainda alterna organização e improviso
A vitória sobre o Grêmio também mostrou um problema que o novo treinador terá de atacar rapidamente: o Botafogo ainda não consegue controlar o jogo durante 90 minutos. A equipe teve momentos em que se aproximou, trocou passes e encontrou caminhos para chegar ao gol. Em outros, perdeu conexão entre os setores e permitiu que o adversário crescesse.
O Grêmio marcou duas vezes e chegou a pressionar pelo empate nos minutos finais. Um gol de Carlos Vinícius chegou a ser anulado por impedimento semiautomático, o que aumentou ainda mais a tensão do fim da partida.
Esse tipo de oscilação não pode ser tratado apenas como detalhe.
O Botafogo está em uma situação na qual cada ponto tem peso. A equipe chegou aos 35 pontos com a vitória e abriu uma distância de sete pontos para a zona de rebaixamento, segundo a análise publicada após a partida.
Isso permite que Tite comece o trabalho sem uma urgência absoluta, mas não significa que possa passar semanas apenas observando. O Botafogo precisa rapidamente deixar de ser um time que reage ao que acontece no jogo para se tornar uma equipe capaz de ditar o que acontece.
A defesa também precisa acompanhar o talento do ataque
Outro ponto importante está no equilíbrio. Não adianta encontrar maneiras de colocar Danilo e Montoro em condições de decidir se, ao mesmo tempo, o sistema defensivo continua oferecendo espaços e permitindo que adversários permaneçam vivos até os minutos finais.
Contra o Grêmio, o Botafogo chegou a abrir vantagem e depois sofreu para administrar.
A comissão interina chegou a utilizar uma linha de cinco defensores durante determinado momento da partida, mas a estratégia acabou chamando o Grêmio para o campo ofensivo e facilitando a sequência de cruzamentos. O próprio Rodrigo Bellão explicou que precisou reajustar a estrutura para tentar controlar esse tipo de situação.
Tite terá de encontrar uma solução mais estável. Não necessariamente uma equipe defensiva, mas uma equipe que saiba defender sem abrir mão de jogar.
Essa talvez seja uma das principais diferenças entre simplesmente ter bons jogadores e construir um bom time.
Tite não precisa apagar o que funciona, precisa organizar
A chegada de Tite não significa que tudo o que foi feito anteriormente precise ser descartado. Pelo contrário.
O Botafogo acabou de vencer uma partida importante, Danilo e Montoro mostraram que podem ser protagonistas e algumas soluções encontradas pela comissão interina merecem ser observadas pelo novo treinador.
O desafio será organizar essas peças dentro de uma ideia mais consistente. Tite foi anunciado com contrato até dezembro de 2028 e iniciou oficialmente o trabalho nesta quinta-feira. O treinador estreia no sábado, contra o Mirassol, fora de casa.
Ele próprio já deixou claro na apresentação que não acredita em “varinha mágica” e que enxerga o trabalho como um projeto de médio e longo prazo. Isso combina com o que o Botafogo precisa.
O clube não precisa apenas de uma sequência de vitórias para respirar. Precisa aproveitar o momento de reconstrução para estabelecer uma identidade que não dependa de um lampejo de Danilo, de uma arrancada de Montoro ou de uma defesa salvadora.
A vitória dá confiança, mas a identidade será responsabilidade de Tite
O Botafogo ganhou do Grêmio e, depois de seis partidas sem vencer, finalmente teve um motivo para respirar. Isso importa. Mas a vitória também deixou evidente por que a contratação de Tite fazia sentido para o clube.
O talento está no elenco. Danilo mostrou isso. Montoro mostrou isso. O problema é fazer essas qualidades aparecerem com frequência suficiente para que o Botafogo deixe de depender do acaso e dos momentos individuais.
O novo treinador terá de construir conexões, melhorar o controle dos jogos e dar ao time uma estrutura capaz de sobreviver quando o adversário aumentar a pressão. Porque talento pode ganhar uma partida. Um lampejo pode decidir um jogo.
Mas, para construir uma temporada mais segura, o Botafogo precisará de algo que ainda não tem de forma consistente: uma identidade. E transformar esses lampejos em identidade será o primeiro grande trabalho de Tite.
Foto: Vitor Silva/Botafogo/Divulgação



