Conor Benn e Jai Opetaia chegaram à Zuffa Boxing como duas das principais peças da nova promotora de boxe comandada por Dana White. São campeões, estrelas internacionais e nomes capazes de sustentar grandes eventos. Mas, olhando para o movimento mais amplo da empresa, existe uma interpretação ainda mais interessante: talvez Benn e Opetaia nunca tenham sido apenas o destino final da estratégia da Zuffa. Eles também podem ser as pontes para dois dos nomes mais valiosos do boxe americano.
Ryan Garcia e David Benavidez estão a uma luta de entrarem em uma situação contratual completamente diferente. Garcia tem apenas mais um combate previsto com a Golden Boy, enquanto Benavidez possui uma luta restante com a PBC e o empresário Sampson Lewkowicz. Ao mesmo tempo, a Zuffa já construiu relações com os dois por caminhos diferentes.
Com Garcia, a porta foi aberta por Conor Benn. Com Benavidez, a oportunidade apareceu por meio de Opetaia. É uma estratégia que mostra como a entrada da Zuffa no boxe pode ser muito maior do que simplesmente contratar lutadores famosos. A empresa parece estar tentando construir um ecossistema capaz de disputar atletas, eventos, mercados e, principalmente, o espaço deixado pela próxima transformação do boxe mundial.
Conor Benn foi mais do que uma contratação para a Zuffa Boxing
A chegada de Conor Benn à Zuffa teve um significado que ultrapassou o ringue. O britânico era um dos principais nomes da Matchroom, empresa de Eddie Hearn, ao lado de figuras como Anthony Joshua e Katie Taylor. Sua saída representou uma perda esportiva e comercial importante para Hearn, mas também enviou uma mensagem para todo o mercado: a Zuffa estava disposta a pagar caro para tirar estrelas estabelecidas de promotoras tradicionais.
Segundo informações, Zuffa Boxing e TKO desembolsaram mais de US$ 30 milhões por dois combates de Benn, em parte com a perspectiva de viabilizar uma luta contra Ryan Garcia.
Essa última parte é fundamental. A contratação de Benn não precisava ser avaliada apenas pela quantidade de público que ele poderia gerar. O britânico também funcionava como uma espécie de ativo estratégico. Se Garcia aceitasse enfrentá-lo, a Zuffa teria a oportunidade de participar diretamente da construção de um dos maiores eventos da carreira do americano.
E foi exatamente isso que aconteceu. Garcia x Benn se transformou em uma grande vitrine para a Zuffa. Embora o evento tenha sido financiado pela Ring Magazine, a construção da luta colocou Dana White e a estrutura da TKO no centro da narrativa. A presença de Oscar De La Hoya, promotor de Garcia pela Golden Boy, foi praticamente inexistente durante a promoção e na noite do combate.
Para o público, a associação era outra: Garcia estava sendo apresentado dentro do universo Zuffa. Esse detalhe pode parecer apenas uma escolha de marketing. Mas, em uma relação contratual que está próxima do fim, a percepção do lutador também possui valor.
Ryan Garcia já experimentou aquilo que procura
O interesse da Zuffa em Garcia não surgiu do nada. O americano teve uma das experiências comerciais mais importantes de sua carreira quando enfrentou Gervonta “Tank” Davis em 2023. O evento, promovido pela PBC e pela Showtime, alcançou 1,2 milhão de compras de pay-per-view e uma bilheteria de US$ 22,8 milhões.
Depois daquela luta, Garcia entrou em conflito jurídico com a Golden Boy buscando romper seu contrato. A experiência parece ter criado uma referência para o lutador: Garcia descobriu como era participar de uma grande operação promocional na qual a construção do evento também fazia parte do espetáculo.
Anos depois, ele voltou a experimentar algo semelhante contra Benn. E essa é talvez a maior vantagem da Zuffa neste momento. A empresa não precisa necessariamente convencer Garcia de que consegue promover uma grande luta. O lutador acabou de participar de uma.
Ao falar sobre a experiência com a Zuffa, Garcia voltou a demonstrar satisfação com o trabalho realizado pela equipe de Dana White. Para uma empresa que pretende contratá-lo quando ele estiver livre, isso vale quase tanto quanto uma negociação financeira.
A Zuffa está apresentando o produto antes de vender o contrato.
Benavidez é uma operação diferente
David Benavidez representa outro tipo de oportunidade. Enquanto Garcia é uma das grandes estrelas comerciais do boxe americano, Benavidez construiu sua reputação principalmente pela busca incessante dos maiores desafios disponíveis.
O mexicano-americano passou anos tentando enfrentar Canelo Álvarez nos supermédios. Sem conseguir concretizar o confronto, subiu para os meio-pesados. Depois, tentou chegar aos principais nomes da categoria, como Dmitry Bivol e Artur Beterbiev.
Agora, no peso cruzador, o cenário é novamente diferente. Benavidez está procurando uma luta capaz de elevar definitivamente seu legado, e Jai Opetaia apareceu exatamente no momento certo.
Pouco depois de derrotar Noel Mikaelian em setembro, o australiano chamou Benavidez para o ringue. O americano estava presente no T-Mobile Arena e aceitou o confronto visual. É uma cena aparentemente comum no boxe. Mas, no contexto da estratégia da Zuffa, ela tem outro significado.
A empresa já possui o adversário potencial de Benavidez. E possui também o dinheiro para transformar o confronto em um grande evento.
Opetaia pode ser a ponte para Benavidez
A contratação de Jai Opetaia tem uma importância própria. O australiano é considerado um dos principais nomes da divisão dos cruzadores e pretende conquistar todos os cinturões da categoria.
Mas sua situação também colocou a Zuffa em outro conflito importante: a relação com as entidades sancionadoras. Opetaia foi destituído do cinturão da IBF em março e entrou com uma ação judicial contra a organização, alegando que a perda do título estava relacionada à sua decisão de assinar com a Zuffa. Depois da vitória sobre Mikaelian, o cinturão do WBC também acabou declarado vago.
Independentemente das diferentes versões e das disputas jurídicas, a situação transformou Opetaia em um símbolo de uma discussão maior sobre a relação entre promotoras e organismos reguladores.
Para Dana White, isso possui valor estratégico. A Zuffa não está apenas tentando conquistar lutadores. Está tentando estabelecer uma posição dentro de um esporte cuja estrutura tradicional é fragmentada entre diferentes promotoras, canais de televisão, organismos sancionadores e interesses comerciais.
Opetaia está no centro dessa disputa. Mas também pode estar no centro da construção de uma superluta. Se Benavidez assinar com a Zuffa, uma das primeiras grandes possibilidades estará praticamente desenhada: o mexicano-americano contra Opetaia.
E a própria existência desse confronto pode ser utilizada como argumento para convencer Benavidez a fazer a mudança.
O xadrez da Zuffa está apenas começando
Ainda não existe contrato assinado com Ryan Garcia ou David Benavidez. Qualquer conclusão sobre o futuro dos dois seria prematura.
Mas os movimentos já realizados são claros. Conor Benn não serviu apenas para fortalecer o elenco. Ele criou uma conexão com Garcia e enfraqueceu diretamente uma das principais promotoras tradicionais do mercado britânico.
Jai Opetaia não serve apenas para oferecer à Zuffa um dos melhores cruzadores do mundo. Ele também pode representar o adversário necessário para atrair Benavidez e, simultaneamente, colocar a empresa em posição de confronto com a estrutura tradicional das entidades sancionadoras.
É uma estratégia que transforma cada contratação em uma peça de uma operação maior. Garcia e Benavidez podem ainda escolher caminhos diferentes. Podem permanecer com suas atuais equipes, negociar com outras empresas ou seguir modelos diferentes de carreira.
Mas uma coisa já mudou. Quando os dois contratos chegarem ao fim, a Zuffa não será apenas uma promotora nova tentando convencê-los a mudar de lado. Será uma empresa que já terá mostrado o que consegue fazer com grandes eventos, construído adversários para eles, conquistado espaço no mercado internacional e colocado dinheiro para sustentar suas ambições.
A guerra pelo futuro do boxe americano não começa no dia em que Ryan Garcia ou David Benavidez assinarem um contrato.
Ela já começou. E, até agora, Conor Benn e Jai Opetaia parecem menos os destinos finais dessa estratégia do que as peças que permitiram à Zuffa chegar perto de seus verdadeiros alvos.
(Foto: Zuffa Boxing)



