O futebol brasileiro chega às semifinais das duas principais competições sul-americanas com cinco representantes entre os oito clubes restantes. É um cenário que ajuda a dimensionar o tamanho do domínio construído pelo país no continente e que, em 2026, pode atingir um novo patamar: o Brasil tem a possibilidade de colocar representantes nas duas decisões.
O cenário atual não surgiu de uma hora para outra. O número de brasileiros nas fases decisivas aumentou de maneira consistente ao longo da última década, e a comparação com os dez anos anteriores deixa essa transformação ainda mais evidente.
Na Libertadores, Fluminense, Palmeiras e Flamengo formam três dos quatro semifinalistas. Na Sul-Americana, Atlético-MG e Vasco completam a lista. O Flamengo confirmou sua classificação na quinta-feira (17), ao empatar por 1 a 1 com o Independiente del Valle, no Maracanã, depois de vencer a ida por 2 a 0. Na outra competição, o Montevideo City Torque goleou o Cienciano por 3 a 0 e avançou para enfrentar o Atlético-MG.
São cinco brasileiros entre oito semifinalistas. E, olhando para trás, fica claro que isso deixou de ser exceção.
De 23 para 39: o salto brasileiro
Entre 2007 e 2016, os clubes brasileiros somaram 23 presenças nas semifinais de Libertadores e Sul-Americana. No período seguinte, de 2017 a 2026, o número sobe para 39.
A diferença é de 16 presenças em apenas uma década.
Mais importante do que o número absoluto é a frequência com que o Brasil passou a ocupar as últimas fases. No primeiro período, o país teve no máximo quatro semifinalistas em uma mesma temporada, marca alcançada em 2010. No segundo, chegou a cinco brasileiros nas semifinais em 2021, 2022 e 2023, repetindo o número agora em 2026.
O que antes aparecia como uma temporada acima da média passou a se tornar uma possibilidade recorrente.
O Brasil passou a ocupar mais espaço
A Libertadores de 2026 resume bem essa mudança. Fluminense, Palmeiras e Flamengo representam 75% dos semifinalistas da competição.
Na Sul-Americana, Atlético-MG e Vasco correspondem à metade dos clubes ainda vivos.
Somadas as duas competições, são cinco brasileiros em oito vagas. Não é apenas uma questão de quantidade: quanto mais clubes chegam às fases decisivas, maior é a presença brasileira nos confrontos que definem os títulos continentais.
E esse movimento se repete há anos.
Dinheiro explica parte do domínio
A transformação do futebol brasileiro também passa pela diferença econômica em relação aos demais mercados da América do Sul.
Os principais clubes do país conseguem arrecadar mais, investir em elencos mais caros e manter jogadores que, em outros mercados do continente, têm maior tendência de serem negociados para a Europa ou para o próprio Brasil.
Essa vantagem financeira se transforma em profundidade de elenco. Em competições longas, nas quais lesões, suspensões e calendário pesam, ter mais opções aumenta a capacidade de atravessar diferentes fases sem uma queda tão acentuada de rendimento.
A estrutura também entra nessa conta. Centros de treinamento, categorias de base, departamentos de futebol e profissionalização da gestão elevaram o nível de competitividade de uma parcela maior dos clubes brasileiros.
O domínio deixou de depender de poucos clubes
Outro aspecto importante é a distribuição dessas campanhas.
Flamengo e Palmeiras foram protagonistas em diferentes momentos da última década, mas não são os únicos brasileiros que chegaram às fases decisivas. Fluminense, Atlético-MG, Vasco e outros clubes também passaram a aparecer com maior frequência no cenário continental.
Isso torna o fenômeno mais amplo. O Brasil não depende de um único representante para manter sua presença entre os quatro melhores. Em 2026, por exemplo, três clubes diferentes representam o país na semifinal da Libertadores, enquanto outros dois estão na mesma fase da Sul-Americana.
2026 pode levar esse domínio ao limite
O desenho das semifinais também ajuda a explicar por que esta temporada ganhou um peso especial.
Na Libertadores, Fluminense e Palmeiras fazem um confronto brasileiro, enquanto o Flamengo enfrenta o Estudiantes. Na Sul-Americana, o Vasco encara o Boca Juniors, e o Atlético-MG terá o Montevideo City Torque pela frente.
Isso significa que uma das vagas da final da Libertadores já será necessariamente brasileira. Se o Flamengo avançar diante do Estudiantes, a decisão também terá dois clubes do país.
Na Sul-Americana, Vasco e Atlético-MG precisam superar seus adversários para transformar o domínio das semifinais em uma final brasileira.
É daí que surge a possibilidade de o Brasil ocupar as duas decisões continentais no mesmo ano.
O ápice de um processo de 10 anos
Mesmo que 2026 não seja, isoladamente, uma temporada inédita em número de semifinalistas brasileiros, o contexto dá outro peso ao momento.
Cinco representantes já apareceram nas semifinais em outras três temporadas da década. A diferença agora está na possibilidade de esse número se transformar em presença nas duas decisões.
O mais relevante, portanto, não é tratar 2026 como o começo de uma hegemonia, mas como consequência de um processo que vem sendo construído há anos.
Entre 2007 e 2016, foram 23 presenças brasileiras nas semifinais das duas principais competições sul-americanas. Entre 2017 e 2026, são 39.
O salto ajuda a explicar por que o continente chegou a este ponto.
Uma nova realidade no futebol sul-americano
A América do Sul continua produzindo grandes campanhas de clubes argentinos, equatorianos, uruguaios e de outros países. Mas a presença brasileira nas fases decisivas mudou de escala.
O Brasil passou a colocar mais clubes nas semifinais, repetiu esse desempenho em diferentes temporadas e ampliou o número de equipes capazes de competir até as últimas fases.
Agora, 2026 apresenta a fotografia mais contundente desse processo: cinco brasileiros entre os oito semifinalistas e a possibilidade de o país transformar essa presença massiva em domínio também nas decisões.
O “monopólio” ainda é uma possibilidade, não uma realidade. Mas o caminho até ele ajuda a contar uma história que começou muito antes desta temporada.
Foto: Divulgação/Conmebol



