Coritiba
Futebol Brasileirão

Coritiba sofre com intensidade e elenco curto, mas má fase de times abaixo na tabela pode ajudar a manter posição confortável no campeonato

A goleada para o Vasco expôs um problema que já vinha aparecendo

O Coritiba não perdeu apenas por 5 a 0 para o Vasco. Em São Januário, o time perdeu a capacidade de competir.

A diferença entre as equipes foi tão grande que o placar acabou sendo apenas a consequência mais evidente de uma noite em que praticamente nada funcionou para o Coxa. Foram 60% de posse para o Vasco, 30 finalizações contra apenas quatro do Coritiba e uma partida em que Léo Jardim praticamente não precisou trabalhar.

O resultado foi a pior derrota do Alviverde na temporada e confirmou uma queda de rendimento que já vinha dando sinais nas últimas rodadas. São três partidas sem vencer no Brasileirão e 12 gols sofridos nos últimos quatro jogos.

Só que existe um detalhe importante nessa história: o Coritiba não chegou a esse momento em uma situação desesperadora.

A campanha construída anteriormente criou uma gordura que agora impede que uma sequência ruim transforme imediatamente o time em candidato ao rebaixamento.

E essa talvez seja a principal razão para o resultado de São Januário ser tratado como alerta, e não como uma sentença.

O elenco curto começa a cobrar seu preço

Fernando Seabra teve de montar o time diante de uma série de ausências importantes. Jacy e JP Chermont estavam no departamento médico, enquanto Breno Lopes cumpria suspensão. As baixas atingiram principalmente uma equipe que depende de organização, intensidade e execução coletiva para competir.

Quando algumas dessas peças deixam de estar disponíveis, o problema não é simplesmente substituir um jogador por outro. É manter o funcionamento.

O Coritiba encontrou dificuldades justamente porque as alternativas não conseguiram reproduzir o comportamento dos titulares. A defesa perdeu consistência, o meio-campo não conseguiu proteger os espaços e o ataque praticamente não ameaçou.

Fabricio Bustos e Nicolás Fonseca fizeram suas estreias justamente nesse cenário. Recém-chegados, com pouco tempo de treinamento com os companheiros, entraram em uma partida em que o Vasco já impunha um ritmo muito alto.

Seria injusto transformar os estreantes em culpados pela goleada.

O que a partida mostrou foi algo maior: o Coritiba precisa de mais profundidade para atravessar uma competição tão longa sem que algumas ausências alterem completamente sua capacidade de competir.

O desgaste físico também começa a aparecer

Existe outro componente que ajuda a explicar a queda: intensidade.

O Coritiba construiu boa parte de sua campanha justamente através de uma equipe compacta, disciplinada e capaz de competir sem precisar dominar os adversários. Esse modelo exige concentração e, principalmente, capacidade física para repetir movimentos durante os 90 minutos.

Quando o desgaste aparece, a estrutura começa a ruir. Contra o Vasco, isso ficou evidente desde os primeiros minutos. O time não conseguiu pressionar, perdeu disputas, recuou demais e permitiu que o adversário acumulasse ataques.

Depois do primeiro gol, a partida ficou ainda mais difícil. O segundo saiu antes do intervalo, e o Coritiba voltou para a etapa final precisando reagir. Mas, em vez de encontrar forças, sofreu mais três gols rapidamente.

Aos 10 minutos do segundo tempo, já estava 3 a 0. A partir daí, a partida deixou de ser uma disputa equilibrada e virou uma contagem regressiva para o apito final.

Esse tipo de atuação não pode ser repetido, mas também precisa ser analisado dentro do contexto de um elenco que parece ter chegado a um momento de desgaste.

A gordura na tabela dá ao Coritiba o direito de respirar

É aqui que a campanha anterior faz diferença.

O Coritiba ocupa a oitava posição, com 38 pontos. A marca estabelecida internamente como referência de segurança é de 45 pontos. Ou seja, faltam apenas sete para atingir um patamar que pode representar uma margem muito maior na reta final.

Mais importante: os resultados dos times que estão abaixo na tabela também ajudam a manter o Coxa em uma situação relativamente confortável. Isso não significa que o clube possa se acomodar.

Significa apenas que uma sequência ruim não apaga imediatamente tudo o que foi construído nas rodadas anteriores. O Coritiba ainda tem margem para atravessar esse momento, corrigir problemas e recuperar jogadores.

A vantagem é que essa correção pode ser feita sem a mesma urgência de quem está brigando diretamente para sair do Z-4.

O perigo seria interpretar essa gordura como permissão para continuar oscilando.

A Data Fifa chega em uma hora importante

O intervalo no calendário pode ser justamente a oportunidade que Seabra precisava. O treinador terá tempo para reorganizar o sistema defensivo, recuperar fisicamente o elenco e integrar os reforços que chegaram recentemente.

A prioridade precisa ser recuperar a identidade que levou o Coritiba a fazer uma campanha acima das expectativas durante boa parte do campeonato. Isso passa por voltar a ser um time difícil de enfrentar. Não necessariamente dominante, mas organizado.

O Coritiba não precisa mudar completamente sua maneira de jogar. Precisa recuperar a intensidade que permitia ao sistema funcionar.

Também será importante entender quais jogadores conseguem suportar melhor a sequência de partidas e quais alternativas podem ser utilizadas sem derrubar tanto o nível coletivo.

A chegada de Bustos e Fonseca pode ajudar nesse processo, mas eles precisam de tempo para entender o funcionamento da equipe.

O Coritiba ainda está em posição confortável, mas não pode depender da queda dos outros

Esse talvez seja o ponto mais importante depois da goleada. A má fase dos concorrentes diretos ajuda o Coritiba, mas não pode virar parte do planejamento. Nenhum time consegue construir uma reta final segura esperando que os adversários continuem tropeçando.

A vantagem atual existe porque o Coxa somou pontos suficientes antes de entrar nessa sequência de queda. Agora, precisa voltar a pontuar para não transformar essa gordura em uma lembrança do que já foi.

A sequência também será exigente. O Coritiba terá o Fluminense fora de casa e depois enfrentará o Botafogo em Curitiba, dois compromissos que exigirão uma resposta diferente da apresentada em São Januário.

A equipe terá de recuperar principalmente a competitividade.

Porque o 5 a 0 não foi apenas um resultado ruim. Foi uma demonstração de que, quando o desgaste aumenta e as alternativas diminuem, o Coritiba pode perder completamente a capacidade de controlar uma partida.

Ainda assim, o cenário não é de terra arrasada.

O Coxa tem 38 pontos, está em oitavo e acumulou uma gordura que lhe permite corrigir a rota. A questão agora é saber se essa margem será usada para respirar e reconstruir ou apenas para adiar um problema que já começou a aparecer.

O Coritiba não precisa entrar em pânico por causa de uma goleada, mas precisa entender o recado. A campanha que construiu o colocou em uma posição confortável. Para continuar nela, porém, terá de recuperar a intensidade, ampliar as soluções do elenco e voltar a competir como o time que foi durante boa parte do Brasileirão.

Porque a tabela ainda protege o Coxa. Mas não vai protegê-lo para sempre.

Foto: JP Pacheco | Coritiba | Divulgação