A relação entre Vinícius Júnior e Kylian Mbappé segue sendo um dos principais assuntos envolvendo o Real Madrid, mas José Mourinho parece ter um problema ainda maior para resolver no time. Mais do que a convivência entre suas estrelas, a dificuldade está na própria construção coletiva da equipe.
A derrota por 2 a 1 para o Atlético de Madrid voltou a colocar o Real em uma situação delicada. Depois do clássico, o clube apontou a arbitragem como um dos fatores decisivos para o resultado, mas o cenário na tabela também chama atenção.
O Real Madrid está seis pontos atrás do Barcelona e já precisa correr atrás de uma diferença importante neste início de temporada. O grande desafio para Mourinho, porém, vai além dos resultados: o treinador ainda busca transformar um elenco cheio de nomes fortes em um time realmente equilibrado.
Real Madrid ainda sofre para jogar de forma coletiva
Um dos sinais mais claros desse problema apareceu em uma análise publicada pelo jornal francês L’Équipe. O gráfico com as posições médias de Vinícius Júnior e Kylian Mbappé mostrou que os dois atacantes ocuparam praticamente os mesmos espaços em campo.
Isso ajuda a explicar parte da falta de equilíbrio ofensivo do Real Madrid. Os dois jogadores gostam de receber a bola em regiões semelhantes, principalmente pelo lado esquerdo, o que pode reduzir as opções de movimentação e deixar a equipe previsível.
Ao mesmo tempo, Yan Diomande, contratação recorde do clube, começou o clássico no banco de reservas e, pelo menos neste momento, parece ocupar uma função secundária nos planos de Mourinho.
Para o jornalista Paco González, da COPE, o treinador português enfrenta um problema ainda mais profundo relacionado às características dos jogadores disponíveis.
Segundo ele, o Real Madrid possui muita força física e qualidade individual, mas poucos atletas capazes de organizar o jogo de maneira coletiva.
Arda Güler aparece como exceção no meio-campo
Na avaliação de Paco González, Arda Güler é praticamente o único jogador do elenco com capacidade para dar sequência às jogadas ofensivas de forma organizada.
O jornalista questionou quem, além do turco, consegue construir ataques coletivos dentro do atual Real Madrid. Tchouaméni e Bellingham foram mencionados, mas a conclusão foi de que boa parte das jogadas do time depende de ações individuais.
Fisicamente, o Real Madrid é considerado uma equipe muito forte. O elenco possui jogadores intensos, rápidos e capazes de competir em jogos de grande exigência.
O problema aparece quando o time precisa controlar a posse de bola, ditar o ritmo e criar jogadas com paciência. Nesse aspecto, Güler acaba se destacando justamente por oferecer uma característica diferente.
Também existem dúvidas sobre a qualidade da saída de bola. Konaté e Dumfries, por exemplo, foram citados como jogadores que não apresentam grande capacidade para iniciar as jogadas desde o setor defensivo.

Problema de Mourinho vai além de Vini Jr e Mbappé
Mourinho já começou a tomar algumas decisões mais fortes. Contra o Atlético de Madrid, Vinícius Júnior foi substituído aos 53 minutos, algo que rapidamente chamou atenção.
Depois de assinar um novo contrato importante durante o verão europeu, Vini ainda não conseguiu apresentar números expressivos. Até aqui, Vinícius marcou apenas um gol.
Mbappé, por outro lado, começou a temporada em ritmo muito superior. O francês soma oito gols em oito partidas, enquanto Carlos Espí também já marcou duas vezes mesmo tendo atuado apenas 30 minutos.
A diferença de rendimento entre os atacantes aumenta ainda mais o debate sobre como Mourinho deve organizar seu setor ofensivo.
O Real Madrid continua apostando fortemente em suas grandes estrelas, mas essa dependência dos chamados “Galácticos” também pode provocar desequilíbrio. Muitos jogadores gostam de ocupar zonas semelhantes do campo e nem sempre existe alguém responsável por organizar o jogo por trás deles.

Ausência de um organizador continua pesando
Mesmo que Mourinho consiga encontrar uma maneira de fazer Vinícius Jr e Mbappé funcionarem melhor juntos, existe outra questão antiga que continua sem solução: a ausência de um verdadeiro organizador no meio-campo.
Durante a última janela de transferências, o Real Madrid tentou contratar Rodri. O meio-campista, porém, rejeitou a possibilidade de vestir a camisa dos Blancos e acabou se transferindo para o Barcelona.
Na época, Mourinho minimizou a situação. Em meados de agosto, o treinador afirmou que não sentia falta de Rodri e garantiu que o elenco possuía alternativas suficientes.
O início da temporada, no entanto, ainda não mostrou claramente quais seriam essas soluções.
Não existe no elenco um jogador com perfil evidente para assumir o papel de maestro. Bellingham apresenta muita intensidade e gosta de aparecer próximo da área, características que dificultam sua utilização como um meio-campista mais disciplinado na organização.
Arda Güler pode ganhar nova função
Nesse cenário, Arda Güler surge novamente como uma possível alternativa.
O turco poderia atuar mais recuado, assumindo uma função de construção no meio-campo. Sua qualidade técnica e visão de jogo poderiam ajudar o Real Madrid a controlar melhor a posse e criar conexões mais claras entre defesa, meio e ataque.
Uma mudança dessa forma também poderia abrir espaço pelo lado direito para Yan Diomande, atualmente com dificuldades para conquistar uma vaga entre os titulares.
A solução, porém, exigiria adaptações. Güler precisaria atuar de maneira mais disciplinada e participar mais da organização desde zonas mais profundas do campo.
Mesmo assim, entre as opções disponíveis, ele parece ser o jogador com características mais próximas daquilo que o Real Madrid perdeu nos últimos anos.
A sombra de Toni Kroos ainda aparece no Real Madrid
O mais curioso é que essa não é uma dificuldade recente.
Desde a aposentadoria de Toni Kroos, em 2024, o Real Madrid convive com a ausência de um jogador capaz de controlar o ritmo da equipe de maneira constante.
Durante anos, o alemão funcionou como o principal organizador do time. Kroos ajudava na saída de bola, encontrava espaços com passes longos e curtos e sabia exatamente quando acelerar ou diminuir a velocidade da partida.
Depois de sua saída, o Real Madrid contratou diferentes jogadores e realizou mudanças importantes no elenco, mas nunca trouxe alguém com características realmente semelhantes.
O problema continua aparecendo justamente nos jogos mais difíceis, quando o time não consegue depender apenas da qualidade individual de seus atacantes.
Para Mourinho, portanto, encontrar equilíbrio entre Vinícius Júnior e Mbappé é importante, mas talvez não seja o maior desafio.
A questão principal está no centro do campo. Sem alguém capaz de organizar o jogo, conectar os setores e controlar a posse de bola, o Real Madrid tende a continuar dependendo de jogadas individuais.
E enquanto essa solução não aparece, a ausência de Toni Kroos continuará sendo sentida. É um problema antigo, mas que pode acabar sendo ainda mais complicado para Mourinho resolver do que qualquer conflito de posicionamento entre Vinícius Jr e Mbappé.
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