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Automobilismo Fórmula 1

Fórmula 1 enfrenta impasse para cancelar GPs do Catar e Abu Dhabi em meio à tensão no Oriente Médio

A Fórmula 1 está diante de uma decisão cada vez mais complicada envolvendo as duas últimas etapas da temporada, no Catar e em Abu Dhabi. Durante meses, a expectativa era de que os GPs fossem cancelados devido à situação de segurança no Oriente Médio, mas as duas provas continuam oficialmente no calendário e os promotores resistem à possibilidade de uma mudança.

O problema vai muito além da organização logística. A eventual retirada das etapas envolve contratos milionários, taxas pagas pelos promotores, patrocinadores, hospitalidade e, principalmente, a definição de quem assumiria o prejuízo caso as corridas fossem canceladas. Enquanto isso, o relógio corre para a F1, que precisa tomar uma decisão em breve para conseguir organizar uma eventual alternativa.

Catar e Abu Dhabi resistem ao cancelamento

Diante do conflito em andamento no Oriente Médio, há meses se trabalha com a possibilidade de que as etapas finais no Catar e em Abu Dhabi não sejam realizadas.

A própria detentora dos direitos comerciais da F1 vem preparando planos de contingência, embora publicamente continue tratando as duas corridas como confirmadas. No paddock, entretanto, os sinais são diferentes: hotéis na região de Imola, por exemplo, estão praticamente lotados para o fim de semana originalmente reservado ao GP de Abu Dhabi.

Os promotores do Catar e de Abu Dhabi, porém, continuam afirmando que suas respectivas provas acontecerão normalmente. Abu Dhabi chegou a anunciar atrações musicais para o evento, incluindo Zara Larsson, The Script, Imagine Dragons e Lewis Capaldi. Posteriormente, Larsson afirmou nas redes sociais que não participaria. A resistência dos organizadores está diretamente ligada às consequências financeiras de um eventual cancelamento.

Quem pagaria a conta?

Quando um promotor cancela uma corrida, normalmente é ele quem assume parte significativa do prejuízo, já que os contratos com a Fórmula 1 podem exigir o pagamento da chamada taxa de promoção mesmo quando o evento não acontece.

Se, por outro lado, a própria F1 decidir cancelar uma etapa, a categoria pode deixar de receber essas taxas. Valores de US$ 55 milhões para o Catar e US$ 40 milhões para Abu Dhabi são frequentemente citados como as taxas anuais das duas provas, embora esses números sejam considerados altamente especulativos.

Independentemente dos valores exatos, trata-se de quantias significativas. Além disso, o impacto financeiro não se limita às taxas pagas à Fórmula 1. Hospedagem, hospitalidade, publicidade nas pistas, patrocínios e outros contratos comerciais também entram na equação. Por isso, quando um evento é cancelado por circunstâncias externas, costuma surgir uma disputa sobre quem deve assumir a responsabilidade financeira.

Um exemplo dessa complexidade é o GP do Bahrein, que será realizado na Malásia. Na prática, o Bahrein está utilizando o circuito malaio para cumprir suas obrigações contratuais, permitindo que tanto o promotor quanto a F1 mantenham o compromisso previsto.

F1 já havia estabelecido prazo para decidir

O CEO da Fórmula 1, Stefano Domenicali, afirmou no fim de julho que a categoria tomaria uma decisão no momento adequado. “Tomaremos a decisão no momento certo.” Na ocasião, Domenicali indicou que isso não aconteceria antes da metade de setembro e afirmou que, naquele momento, os GPs do Catar e de Abu Dhabi estavam confirmados.

O prazo mencionado, porém, já passou sem uma definição pública sobre o futuro das duas etapas. Domenicali também confirmou que, caso as corridas fossem retiradas do calendário, a temporada não terminaria com uma rodada dupla em Las Vegas.

Apesar de relatos apontarem essa possibilidade, a realização de duas corridas consecutivas em Las Vegas não é considerada uma alternativa viável. A categoria já precisa administrar cuidadosamente sua relação com os diferentes setores envolvidos no evento americano, e uma segunda corrida no mesmo local no fim de semana seguinte não seria bem recebida pela comunidade empresarial local. Além disso, uma rodada dupla em Las Vegas entraria em conflito com o feriado de Ação de Graças nos Estados Unidos.

Imola aparece como alternativa, mas há resistência

Caso Catar e Abu Dhabi sejam retirados do calendário, a F1 precisará encontrar uma alternativa para a última etapa.

A necessidade de substituir pelo menos uma das corridas também está relacionada a compromissos contratuais. Com a saída das duas provas, o campeonato ficaria com 21 etapas, número suficiente para atender à maioria dos contratos de transmissão, mas não a todos. Pelo menos um deles exigiria 22 corridas.

Imola chegou a ser considerada a principal candidata para receber a final da temporada. Durante o fim de semana do GP da Itália, entretanto, ficou claro que a F1 encontrou uma resistência significativa dos promotores do Catar e de Abu Dhabi. A posição dos organizadores é, essencialmente, de que os eventos devem seguir normalmente, especialmente porque os dois países não foram alvos de ataques do Irã durante vários meses.

Isso deixa a Fórmula 1 diante de uma negociação delicada, justamente quando precisa começar a tomar decisões logísticas.

Transporte de equipamentos aumenta a pressão

Outro fator importante é o tempo necessário para transportar toda a estrutura da Fórmula 1. Como parte do objetivo de atingir emissões líquidas zero até 2030, a categoria passou a utilizar cada vez mais o transporte marítimo de equipamentos. Isso reduz emissões em comparação com o transporte aéreo, mas aumenta consideravelmente o tempo necessário para que a infraestrutura chegue aos circuitos.

No caso de uma etapa no Golfo, existe ainda um obstáculo adicional: o Estreito de Ormuz, um ponto estratégico cuja utilização pode ser afetada pela situação militar entre Irã e Estados Unidos. Se as corridas permanecerem no calendário, parte maior do equipamento poderia precisar ser transportada por via aérea. Isso aumentaria tanto os custos quanto as emissões da operação.

A Fórmula 1, portanto, precisa decidir não apenas se as corridas serão realizadas, mas também como transportar equipes e equipamentos caso a situação continue instável.

Equipes também enfrentam riscos

As equipes têm outro motivo para acompanhar atentamente a situação. Caso os governos dos países de origem dos times recomendem oficialmente que seus cidadãos não viajem para o Oriente Médio, as equipes podem ficar sem cobertura de seguro para participar das etapas.

Até o momento, entretanto, os alertas internacionais não chegaram a esse nível. O governo britânico orienta seus cidadãos que já estão no Oriente Médio a estarem preparados para possíveis cancelamentos de voos, fechamentos temporários de espaço aéreo e interrupções nas viagens. Já o Departamento de Estado dos Estados Unidos recomenda que potenciais viajantes para a região reconsiderem seus planos.

Nenhuma das duas recomendações equivale, porém, a uma orientação oficial para não viajar. Com isso, a possibilidade de cancelamento dos GPs do Catar e de Abu Dhabi parece estar diminuindo, embora a situação ainda dependa da evolução do cenário no Oriente Médio e das negociações entre a Fórmula 1 e os promotores das duas etapas.

A pressão agora está sobre a categoria: quanto mais o tempo passa, mais difícil fica organizar uma alternativa logística, mas qualquer decisão de cancelamento também envolve consequências comerciais e contratuais de grande proporção.

Foto: (Reprodução/ Motor Show)