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Futebol Premier League

Manchester City foi considerado culpado. Agora, até onde pode ir a crise?

O veredito respondeu uma pergunta e criou várias outras

Durante anos, a principal dúvida em torno do Manchester City era se o clube seria considerado culpado pelas acusações apresentadas pela Premier League. Essa resposta finalmente chegou: uma comissão independente considerou o clube culpado em 114 das 115 acusações analisadas.

O problema é que, no futebol, um veredito como esse não necessariamente encerra uma história. Neste caso, ele parece ter aberto uma nova fase.

O Manchester City continua negando qualquer irregularidade e tem direito de recorrer. Enquanto isso, nenhuma punição esportiva foi aplicada, o clube segue disputando normalmente a Premier League e começou a temporada com cinco vitórias nas cinco primeiras rodadas.

É justamente essa combinação que torna o cenário tão complexo.

Existe um clube considerado culpado por uma comissão independente, mas ainda não existe uma consequência esportiva definitiva. Há uma decisão, mas não há uma tabela alterada. Há acusações consideradas comprovadas no âmbito esportivo, mas ainda existe um longo caminho jurídico pela frente.

A pergunta agora deixou de ser apenas o que aconteceu.

Passou a ser o que a Premier League fará com isso.

O recurso pode prolongar ainda mais uma história que já dura anos

O primeiro passo será o recurso do Manchester City.

O prazo termina nesta sexta-feira, e a expectativa é de que o clube conteste a decisão. O processo será analisado por uma nova comissão de três pessoas, e a própria dimensão do caso torna difícil imaginar uma solução simples.

As regras da Premier League estabelecem que uma apelação deve ser concluída em até 12 semanas após seu protocolo, com uma decisão prevista até 30 dias depois do encerramento da audiência. Na prática, porém, a complexidade do processo pode transformar esses prazos em um enorme desafio.

São centenas de documentos, acusações que atravessam quase uma década e uma disputa jurídica que já consumiu anos.

O Manchester City não pode levar o caso ao Tribunal Arbitral do Esporte, como aconteceu no processo contra a Uefa em 2020. Uma eventual contestação posterior poderia ocorrer na Justiça comum inglesa, caso o clube entenda que houve problemas de imparcialidade ou de procedimento.

Isso significa que a decisão de culpabilidade ainda pode ser apenas mais um capítulo.

E quanto mais tempo o processo durar, maior será o problema para a própria Premier League.

E se a punição mudar a tabela do campeonato?

Essa talvez seja a questão esportiva mais delicada.

Ainda não existe uma punição definida, mas as possibilidades incluem multa, perda de pontos e até rebaixamento. Em um cenário extremo, uma dedução suficientemente grande poderia colocar o Manchester City entre os três últimos da classificação.

O problema é que a temporada já está em andamento.

O clube liderava o campeonato com 15 pontos em cinco partidas quando o veredito foi divulgado. Se continuar vencendo enquanto o processo se arrasta, a Premier League poderá chegar a um momento em que não saberá qual é a verdadeira dimensão esportiva daquela campanha.

Imagine, por exemplo, uma equipe que termine o campeonato atrás do City por poucos pontos e perca uma vaga europeia. Ou um clube que seja rebaixado por uma diferença mínima. Ou ainda um adversário eliminado pelo City em uma competição nacional.

Se uma punição posterior alterar a posição do Manchester City, essas equipes poderão questionar os efeitos esportivos e financeiros do que aconteceu.

É por isso que o calendário jurídico começa a ser tão importante quanto o calendário do futebol.

A expulsão seria algo completamente diferente do rebaixamento

Existe ainda uma possibilidade muito mais radical: a expulsão da Premier League.

Nesse cenário, não seria simplesmente uma queda para o Championship. A saída da elite exigiria uma votação dos outros clubes, com 15 dos 19 rivais do City precisando apoiar a medida.

E, mesmo assim, a história não terminaria ali.

O Manchester City precisaria solicitar sua entrada novamente no sistema do futebol inglês. Como Premier League, EFL e National League são estruturas diferentes, não haveria uma obrigação automática de aceitar o clube.

Uma eventual entrada na EFL também dependeria de votação dos 72 clubes que compõem a entidade. É nesse ponto que aparece o cenário mais extremo: o City poderia ter de reconstruir sua trajetória muito mais abaixo na pirâmide.

A diferença para um simples rebaixamento seria gigantesca. Cair para o Championship poderia significar uma temporada fora da elite. Começar novamente em uma divisão inferior poderia representar uma reconstrução esportiva e financeira completamente diferente.

O caso da Juventus, rebaixada para a Serie B em 2006 após o escândalo Calciopoli, mostra que um gigante pode sobreviver a uma queda. Mas também mostra que a dimensão da punição determina o tamanho da reconstrução.

Uma investigação criminal é possível, mas não existe neste momento

Outro ponto levantado após o veredito é ainda mais grave: a possibilidade de o caso ultrapassar as fronteiras do futebol.

A legislação inglesa prevê punições criminais para determinadas formas de fraude, incluindo prisão e multas em situações específicas. Mas isso não significa que o veredito esportivo tenha automaticamente se transformado em um caso policial.

Até o momento, não há indicação pública de que uma investigação criminal tenha sido aberta.

A polícia de Greater Manchester afirmou que não recebeu encaminhamento das autoridades competentes sobre possíveis crimes relacionados ao caso. Outras instituições, como a National Crime Agency, a HMRC e o Serious Fraud Office, também não confirmaram uma investigação.

Essa distinção é fundamental.

Uma comissão esportiva considerar que regras da Premier League foram violadas não significa, por si só, que alguém tenha cometido um crime segundo a legislação britânica. Para isso, seria necessária uma investigação própria, com outro padrão de prova e outras autoridades envolvidas.

Por enquanto, portanto, a discussão criminal permanece como uma possibilidade levantada por especialistas e figuras ligadas ao futebol, não como uma consequência já em andamento.

E os donos do Manchester City podem ser afetados?

Essa é outra pergunta que ganhou força depois do veredito.

Se o processo concluir definitivamente que houve violações graves durante um longo período, surge naturalmente a discussão sobre a responsabilidade de quem comandava o clube.

O novo regulador independente do futebol inglês, o IFR, possui poderes para avaliar a adequação de proprietários, diretores e executivos. Em situações consideradas graves, pode inclusive suspender ou revogar a licença de operação de um clube.

Mas o próprio órgão deixou claro que aguardará o desenvolvimento do processo entre Manchester City e Premier League antes de tomar qualquer medida.

Existe ainda o precedente de intervenção governamental no futebol inglês. Em 2022, Roman Abramovich foi obrigado a vender o Chelsea após o governo britânico congelar seus ativos depois da invasão russa da Ucrânia.

O contexto é completamente diferente.

Os proprietários do Manchester City não estão sujeitos a uma medida semelhante e não existe, neste momento, qualquer processo governamental para retirá-los do clube. Ainda assim, o precedente mostra que a relação entre futebol, propriedade e Estado pode deixar de ser exclusivamente esportiva em determinadas circunstâncias.

O problema já não é apenas do Manchester City

Talvez essa seja a consequência mais importante de todas.

O Manchester City precisa lidar com o recurso, com uma possível punição e com as consequências esportivas e financeiras do processo. Mas a Premier League também ganhou um problema institucional.

Durante anos, outros clubes foram punidos por violações financeiras. Everton e Nottingham Forest, por exemplo, sofreram perdas de pontos por infrações às regras de sustentabilidade financeira.

O caso do City é muito maior em escala e envolve acusações que atravessam quase uma década. Por isso, a maneira como a Premier League conduzirá os próximos passos será observada por todos os clubes.

Uma punição muito branda pode gerar questionamentos sobre a força das regras. Uma punição extremamente severa, por outro lado, precisará sobreviver a um processo de recurso igualmente complexo.

E, enquanto isso, o campeonato continua.

O Manchester City pode seguir vencendo, somando pontos e disputando títulos enquanto a decisão definitiva permanece distante. Outros clubes podem terminar a temporada sem saber se seus resultados terão valor diferente após a conclusão do processo.

É esse limbo que transforma o caso em algo maior do que uma disputa entre um clube e uma liga.

O veredito foi apenas o começo da parte mais difícil

A condenação em 114 das 115 acusações encerrou uma espera de anos, mas não resolveu a questão central: quais serão as consequências?

O Manchester City ainda pode recorrer. A punição ainda não foi definida. Uma eventual perda de pontos pode afetar a tabela. Um rebaixamento mudaria completamente o cenário. Uma expulsão poderia obrigar o clube a reconstruir sua trajetória dentro do futebol inglês.

Uma investigação criminal, por enquanto, não existe. E qualquer discussão sobre os proprietários ainda depende de novos acontecimentos. São possibilidades diferentes, com graus de probabilidade e caminhos jurídicos igualmente diferentes.

O que já é concreto é que a Premier League entrou em uma situação inédita: precisa aplicar suas próprias regras a um dos clubes mais poderosos e bem-sucedidos da era moderna sem permitir que o processo se arraste indefinidamente.

O Manchester City ganhou uma batalha jurídica que ainda está longe de terminar. Mas, a partir de agora, o problema também pertence à Premier League. Porque não basta dizer quem violou as regras.

Será preciso mostrar que o futebol inglês sabe o que fazer depois que uma violação desse tamanho é confirmada.

Foto: Divulgação/Manchester City