Automobilismo Fórmula 1

De “carro de papel” à pole: Verstappen encontra uma Red Bull capaz de voltar a incomodar, mas o que explica essa transformação?

Pouco mais de três semanas foram suficientes para mudar consideravelmente a percepção sobre a Red Bull na temporada da Fórmula 1. Em Monza, Max Verstappen classificou o carro apenas em sexto e deixou o circuito frustrado com um equipamento que, segundo sua própria definição, parecia ser “feito de papel” por causa dos problemas de degradação. Em Sepang, porém, a realidade foi completamente diferente. O holandês dominou a classificação, conquistou a primeira pole position do ano e colocou a Red Bull novamente no centro da disputa pela vitória.

A mudança não pode ser explicada apenas pela volta perfeita de Verstappen. Desde o fim de semana em Zandvoort, quando sofreu um acidente, o tetracampeão mundial subiu ao pódio em todas as etapas seguintes, mas a equipe austríaca ainda não havia sido efetivamente a referência de velocidade em nenhum desses circuitos. Monza, Madri e Baku mostraram uma Red Bull competitiva o suficiente para aproveitar oportunidades, mas não necessariamente capaz de ditar o ritmo.

A situação em Sepang foi diferente. Verstappen já havia apresentado um ritmo forte nos long runs da sexta-feira e, no sábado, liderou todas as três partes da classificação antes de conquistar a pole com 1min35s130, 0s298 à frente de Lewis Hamilton. Isack Hadjar colocou a segunda Red Bull na terceira posição, reforçando a impressão de que a equipe finalmente encontrou uma janela de funcionamento mais ampla para o RB22.

O que mudou na Red Bull?

A principal diferença em relação às primeiras etapas da temporada parece estar na capacidade de Verstappen trabalhar com um carro mais previsível. Durante boa parte do ano, o problema da Red Bull não era simplesmente a falta de velocidade máxima. O equipamento apresentava dificuldades para entregar desempenho consistente em diferentes tipos de curva e, principalmente, nem sempre permitia que o piloto soubesse exatamente como o carro reagiria quando chegasse ao limite.

Esse é um problema particularmente grave para Verstappen. Seu estilo de pilotagem depende de conseguir explorar pequenas margens de aderência e adaptar o comportamento do carro durante uma volta. Quando o carro reage de maneira inesperada, a capacidade do piloto de compensar as limitações diminui consideravelmente.

O próprio Verstappen reconheceu que essa característica mudou. Segundo o holandês, o carro está novamente dentro de uma janela de funcionamento mais adequada e as alterações feitas nas últimas semanas ajudaram a extrair mais desempenho. A sensação de previsibilidade também aumentou, algo que pode ser tão importante quanto algumas décimas de segundo encontradas em uma atualização aerodinâmica.

A evolução também aparece quando se observa o comportamento do RB22 em diferentes trechos do circuito. Análises do desempenho em Sepang indicam que a Red Bull reduziu uma deficiência que havia aparecido durante a primeira metade da temporada nas curvas de média e alta velocidade. Ao mesmo tempo, a equipe conseguiu manter um desempenho forte nas retas, criando um pacote muito mais equilibrado.

Esse equilíbrio ajuda a explicar por que a pole de Verstappen tem um peso diferente das boas classificações que a Red Bull havia conseguido anteriormente.

A atualização de Baku finalmente mostrou seu valor

O desenvolvimento do RB22 foi construído aos poucos durante a temporada. A Red Bull não encontrou uma solução única capaz de transformar o carro de uma corrida para outra. O trabalho envolveu uma sequência de atualizações, ajustes de acerto e melhorias na forma como a equipe consegue extrair desempenho do conjunto.

A atualização introduzida em Baku aparece como um dos principais pontos dessa evolução. Na época, seus efeitos não pareciam suficientes para indicar uma mudança radical de patamar. Em Sepang, no entanto, o pacote passou a fazer mais sentido dentro de um circuito que exige uma combinação de características diferentes.

A pista malaia possui longas retas, curvas de alta velocidade e setores de média velocidade. É justamente o tipo de traçado que pode revelar se uma equipe resolveu problemas estruturais ou apenas encontrou um acerto particularmente favorável para determinado circuito.

E a resposta da Red Bull foi positiva. Verstappen afirmou que as mudanças tornaram o carro mais fácil de pilotar e permitiram que ele fizesse mais com aquilo que tinha nas mãos. Essa segunda parte é especialmente relevante porque não significa que o piloto tenha deixado de ser importante. Pelo contrário. Quando o equipamento oferece maior previsibilidade, Verstappen consegue voltar a explorar uma de suas maiores virtudes: a capacidade de encontrar desempenho nos limites do carro.

A diferença pode parecer pequena, mas é fundamental. Existe uma distância enorme entre um piloto tentando sobreviver às limitações de um carro e um piloto podendo utilizar suas próprias características para buscar o último décimo.

Verstappen voltou a ter espaço para fazer a diferença

Durante o começo da temporada, Verstappen teve momentos em que parecia estar lutando contra o próprio carro. Não necessariamente por falta de capacidade da Red Bull, mas porque o comportamento do carro impunha limites difíceis de superar.

Na Fórmula 1, existe um ponto a partir do qual o talento individual não consegue compensar completamente uma deficiência técnica. Verstappen pode ganhar algumas posições, administrar melhor os pneus ou encontrar uma linha diferente em determinada curva, mas não consegue simplesmente apagar uma diferença estrutural de desempenho.

A melhora do RB22 muda justamente esse cenário. Com um carro mais equilibrado, o holandês volta a ter condições de atacar as curvas com maior confiança. Ele também consegue utilizar melhor as características do circuito e trabalhar de maneira mais agressiva com os pneus sem precisar se preocupar constantemente com reações inesperadas.

A pole em Sepang é, portanto, também uma demonstração de que Verstappen voltou a ter uma ferramenta capaz de acompanhar sua capacidade de pilotagem.

O resultado da classificação reforça essa leitura. Verstappen foi o mais rápido em todas as fases da sessão e terminou quase três décimos à frente de Hamilton. Hadjar colocou a segunda Red Bull em terceiro, enquanto Kimi Antonelli ficou em quarto e George Russell em oitavo.

Isso não significa que a Red Bull tenha automaticamente se tornado a equipe dominante do campeonato. Mas significa que, pela primeira vez em muito tempo, existe evidência concreta de que a equipe encontrou uma combinação competitiva de acerto e desenvolvimento.

Mercedes ainda é a referência no campeonato

Existe, porém, uma diferença importante entre dominar um fim de semana e transformar essa performance em uma tendência.

Verstappen foi cauteloso ao avaliar a situação da Mercedes. Na visão do holandês, a equipe alemã ainda vinha sendo a referência em termos gerais ao longo da temporada e o desempenho abaixo do esperado em Sepang pode estar relacionado às condições específicas do circuito.

O calor extremo da Malásia é um fator particularmente relevante. A Mercedes teve dificuldades maiores para encontrar o mesmo nível de desempenho nas condições de Sepang, enquanto a Red Bull pareceu trabalhar melhor dentro daquela janela de temperatura.

Isso significa que a classificação não necessariamente invalida as atualizações da Mercedes. A própria evolução da equipe ao longo do fim de semana mostra que ela conseguiu responder depois de um início mais complicado, enquanto Kimi Antonelli liderou o terceiro treino livre.

Verstappen prefere não transformar uma pole em uma conclusão definitiva sobre a hierarquia da temporada. E essa cautela é importante.

Uma equipe pode parecer dominante em um circuito específico porque suas características se encaixam perfeitamente às exigências da pista. Outra pode sofrer com temperatura, degradação ou equilíbrio aerodinâmico e voltar a apresentar desempenho superior na corrida seguinte.

A questão para a Red Bull é descobrir se Sepang representa apenas uma combinação particularmente favorável ou se o RB22 realmente atingiu um novo patamar.

Red Bull finalmente encontra um caminho

Talvez o maior significado da pole em Sepang esteja justamente naquilo que ela representa para o futuro da equipe.

A Red Bull passou boa parte de 2026 tentando entender como extrair o desempenho esperado do RB22. O carro possuía velocidade em determinadas situações, mas apresentava limitações que impediam a equipe de transformar esse potencial em consistência.

Agora, existe uma direção mais clara. O pacote de Baku parece ter contribuído para liberar parte do potencial do carro, enquanto os ajustes de configuração permitiram que Verstappen encontrasse uma janela de funcionamento mais confortável. A combinação desses fatores transformou a Red Bull em uma equipe capaz de liderar uma classificação de maneira convincente.

Isso também pode ter consequências para 2027. O próprio Verstappen destacou que as melhorias feitas agora são importantes para o desenvolvimento do próximo carro. Algumas limitações não poderão mais ser corrigidas completamente durante esta temporada, mas a experiência acumulada com o RB22 pode ajudar a equipe a evitar que determinados problemas sejam repetidos no próximo projeto.

É uma perspectiva especialmente importante em uma temporada marcada por mudanças técnicas e por uma disputa muito mais equilibrada entre as principais equipes. A Red Bull não precisa apenas vencer em Sepang para provar que voltou a ser competitiva. Precisa mostrar que entendeu por que estava atrás e quais mudanças permitiram reduzir essa distância.

A pole de Verstappen é a primeira evidência realmente contundente de que esse processo está funcionando.

(Foto: Motorsport Images)