Messi deixa a Argentina de uma maneira que parecia impossível
Durante boa parte de sua carreira internacional, Lionel Messi carregou uma espécie de contradição. Era o melhor jogador de uma geração, acumulava recordes, decidia partidas pelo Barcelona e já havia conquistado praticamente tudo no futebol de clubes. Pela Argentina, porém, a história parecia destinada a terminar de outra maneira.
As finais perdidas se acumulavam, a cobrança aumentava e cada novo fracasso alimentava uma comparação inevitável com Diego Maradona e outros grandes nomes da história argentina. Agora, Messi está prestes a vestir a camisa da seleção pela última vez, encerrando uma trajetória de 21 anos que terminou muito diferente de como poderia ter terminado.
A despedida contra Benin, nesta terça-feira (6), no Monumental, representa o encerramento de uma passagem na qual Messi se tornou campeão mundial, campeão da Copa América e dono de praticamente todos os principais recordes individuais da seleção. Mais importante do que isso, deixa a camisa que durante tantos anos representou uma das maiores fontes de frustração de sua carreira depois de transformar aquilo que parecia ser uma história de talento sem recompensa em uma era de ouro.
Houve um momento em que Messi desistiu
Para entender o tamanho dessa transformação, é preciso voltar a 2016. Depois da derrota para o Chile na final da Copa América Centenário, Messi anunciou que estava deixando a seleção argentina. Era a quarta grande decisão que terminava em frustração para ele, depois de as finais da Copa América de 2007, 2015 e 2016 e a Copa do Mundo de 2014 terem terminado sem o título que tanto procurava.
Messi estava cansado daquela sequência e chegou a afirmar que a seleção havia terminado para ele. Naquele momento, sua decisão parecia definitiva, mas pouco mais de um mês depois ele mudou de ideia. A pressão popular, os pedidos dos companheiros e a própria vontade de continuar fizeram o craque retornar.
Foi uma decisão que alterou completamente o destino de sua carreira. Se tivesse mantido a aposentadoria anunciada em 2016, sua passagem pela Argentina provavelmente seria lembrada como a de um jogador extraordinário que nunca conseguiu levar a seleção ao título mais esperado. Ao decidir tentar novamente, Messi abriu espaço para que a história ganhasse um capítulo que, até então, parecia improvável.
A mudança começou antes dos grandes títulos
A transformação da Argentina não aconteceu de um dia para o outro. A Copa do Mundo de 2018 ainda mostrou uma seleção perdida, que sofreu nas eliminatórias, conviveu com problemas internos e acabou eliminada pela França nas oitavas de final. Messi novamente se afastou temporariamente da equipe, enquanto a Argentina tentava encontrar uma direção depois de mais uma campanha frustrante.
Foi nesse cenário que apareceu Lionel Scaloni. Sua contratação inicialmente não parecia representar o início de uma revolução, já que o treinador chegou em meio a dúvidas e sem o status de grande nome da comissão técnica argentina. Aos poucos, porém, encontrou uma maneira de construir uma equipe ao redor de Messi sem exigir que o camisa 10 participasse de todas as fases do jogo.
Esse talvez tenha sido seu maior mérito.
Scaloni percebeu que os demais jogadores poderiam assumir uma parcela maior do trabalho defensivo enquanto Messi preservava energia para fazer aquilo que ninguém fazia como ele. A Argentina passou a correr mais, pressionar melhor e dividir responsabilidades, criando um ambiente no qual o craque poderia permanecer próximo das zonas em que era mais perigoso.
A seleção passou a trabalhar para potencializar Messi sem depender exclusivamente dele, e essa combinação se tornou a base de uma das eras mais vitoriosas da história recente do país.
A Copa América de 2021 abriu a porta para uma nova era
O primeiro grande sinal de que aquela Argentina poderia ser diferente veio no Brasil. Em 2021, a seleção venceu a Copa América no Maracanã e encerrou um longo jejum de títulos, justamente diante de uma pressão que havia acompanhado Messi durante praticamente toda a sua carreira.
Para o craque, aquela conquista teve um peso enorme. Era o primeiro grande título pela seleção principal e representava a ruptura com uma sequência de finais perdidas que havia se transformado em um dos principais argumentos utilizados contra seu legado.
A imagem de Messi comemorando com os companheiros depois de tantos anos de frustração representava muito mais do que um troféu. A Argentina finalmente havia encontrado uma geração capaz de transformar o talento do camisa 10 em conquistas, mas ainda existia um último capítulo para completar essa transformação.
A Copa do Mundo continuava sendo a grande fronteira.
O Catar transformou definitivamente o legado de Messi
Em 2022, Messi chegou ao Mundial sabendo que provavelmente aquela seria sua última grande oportunidade. A Argentina perdeu para a Arábia Saudita na estreia, mas se recuperou e avançou até a final, onde encontrou a França em uma das decisões mais dramáticas da história da competição.
Messi marcou duas vezes, participou de praticamente todos os momentos decisivos e viu a Argentina abrir vantagem, sofrer o empate, marcar novamente na prorrogação e ser alcançada outra vez. Nos pênaltis, finalmente veio o desfecho que durante tantos anos havia escapado.
Messi era campeão mundial, mas não como coadjuvante. Ele foi um dos principais responsáveis pela conquista e terminou o torneio como símbolo de uma Argentina que encontrou equilíbrio entre o talento individual e a força coletiva.
Aquele título também encerrou a última grande discussão que seus críticos ainda utilizavam contra ele. Pelé e Maradona haviam sido campeões mundiais, e Messi também havia conseguido chegar ao topo do futebol de seleções.
A conquista não apagou as frustrações anteriores, mas mudou completamente o significado delas. O jogador que havia passado anos sendo cobrado por não conquistar títulos com a Argentina agora tinha justamente a principal taça que faltava em sua carreira.
Depois do Mundial, Messi continuou sendo decisivo
Ser campeão do mundo poderia ter representado o ponto final perfeito, mas Messi decidiu continuar. A Argentina venceu novamente a Copa América em 2024 e chegou à final da Copa do Mundo de 2026. Mesmo aos 39 anos, o camisa 10 continuou exercendo papel central em uma equipe que havia se acostumado a contar com sua capacidade de criação e decisão.
Os números nas Copas ajudam a explicar o tamanho dessa longevidade. Messi disputou seis Mundiais e chegou a 34 partidas, recorde entre jogadores do futebol masculino. Também se tornou o primeiro jogador a começar três finais de Copa do Mundo.
Dos 33 envolvimentos em gols que acumulou em Mundiais, 22 aconteceram nas campanhas de 2022 e 2026. Na Copa de 2026, chegou a 21 gols na história da competição e marcou em nove partidas consecutivas de Copa, considerando a sequência iniciada em 2022.
Não se trata, portanto, da trajetória de um jogador que simplesmente permaneceu na seleção para receber homenagens. Messi continuou sendo decisivo até o fim e mostrou que sua importância para a Argentina não desapareceu depois da conquista do Catar.
O próximo desafio será descobrir a Argentina sem ele
A despedida de Messi também encerra uma era para a própria seleção. A Argentina construiu, durante o ciclo de Scaloni, uma identidade que vai muito além do camisa 10. O grupo aprendeu a competir, pressionar, defender e assumir responsabilidades coletivas, mas existe algo impossível de substituir.
Messi oferece uma capacidade de criação e decisão que nenhum sistema tático consegue reproduzir completamente. A seleção terá de descobrir se consegue manter a competitividade sem o jogador que foi o centro de seu projeto durante tantos anos, e esse será um dos maiores desafios da próxima geração.
Ao mesmo tempo, os novos jogadores terão uma vantagem que seus antecessores não tiveram: não precisarão carregar a missão de conquistar um título para Messi. Essa obrigação acabou porque o maior capítulo de sua história internacional já foi escrito.
A história que poderia ter terminado em 2016 ganhou o final que parecia impossível
Talvez essa seja a melhor maneira de compreender a despedida. Messi não deixa a Argentina porque finalmente cansou de tentar ganhar; deixa porque já conquistou aquilo que durante tantos anos parecia escapar.
A Copa América de 2021, a Copa do Mundo de 2022 e a Copa América de 2024 transformaram a relação entre Messi e a seleção, enquanto a campanha de 2026 acrescentou mais um capítulo a uma trajetória que já estava consolidada. Ao mesmo tempo, os recordes individuais tornaram sua passagem pela Argentina ainda mais difícil de repetir.
Messi deixa a seleção como maior artilheiro e jogador com mais partidas pela equipe, mas seu legado não será medido apenas pelos 125 gols ou pelas mais de 200 aparições. Será lembrado também pela decisão de voltar quando poderia ter desistido e pela capacidade de transformar uma relação marcada durante anos pela frustração em uma das histórias mais vitoriosas do futebol internacional.
Em 2016, Messi acreditou que sua história com a Argentina havia terminado sem o final que desejava. Dez anos depois, pode finalmente se despedir sabendo que aquela história teve tempo para mudar.
O jogador que durante tanto tempo parecia perseguido pelas finais perdidas terminou como protagonista da geração mais vitoriosa da Argentina em décadas. A era de Messi chega ao fim, e o desafio agora será descobrir como continuar depois de ter vivido algo que talvez demore muito tempo para acontecer novamente.
Foto: Getty Images



