A primeira grande experiência com a nova Super Data Fifa terminou com uma pergunta que parece difícil de responder: afinal, o futebol ganhou ou perdeu com a criação de uma janela internacional mais longa? A ideia de reduzir o número de interrupções durante a temporada e concentrar mais partidas em um único período nasceu de uma preocupação legítima com o calendário, especialmente depois de uma Copa do Mundo disputada até julho. O problema é que, ao concentrar mais compromissos em uma única janela, a Fifa também criou um período no qual jogadores precisam lidar com viagens internacionais, mudanças de rotina e sequência de partidas em um espaço muito curto.
A intenção era proteger os atletas. A prática, pelo menos neste primeiro teste, mostrou que a equação não é tão simples. A Inglaterra, por exemplo, passou três semanas sem Premier League e Championship, algo diferente das tradicionais janelas de duas semanas. A mudança faz parte de um novo calendário internacional que reduziu o número de Datas Fifa durante a temporada, mas ampliou uma delas. A justificativa envolve principalmente a redução das viagens internacionais ao longo do ano, algo especialmente relevante para jogadores sul-americanos e africanos que atuam na Europa e precisam atravessar continentes para defender suas seleções.
O Brasil oferece um retrato interessante dessa nova realidade. A Seleção de Carlo Ancelotti disputou três partidas na mesma janela, duas contra a Austrália e uma contra a Índia. Foram viagens longas, mudanças de país e três compromissos internacionais concentrados em pouco mais de uma semana. O resultado esportivo foi positivo no sentido mais básico, com um empate e duas vitórias, mas a comissão técnica também precisou administrar minutos, desgaste e recuperação dos jogadores.
A pergunta, portanto, não é simplesmente se uma Data Fifa de três semanas é boa ou ruim. O verdadeiro debate é se concentrar o calendário internacional realmente melhora a vida do jogador ou apenas transforma um problema distribuído ao longo da temporada em um problema mais intenso durante algumas semanas.
A teoria fazia sentido, mas o futebol não acontece no papel
Existe uma lógica bastante razoável por trás da mudança. Durante anos, jogadores que atuam na Europa precisaram atravessar o mundo diversas vezes para defender suas seleções. Um brasileiro que joga na Inglaterra, por exemplo, pode deixar seu clube, viajar para a América do Sul, disputar partidas em sequência e retornar à Europa poucos dias depois para voltar ao calendário doméstico.
Ao reduzir cinco Datas Fifa para quatro e ampliar uma delas, a Fifa pretende diminuir a quantidade de deslocamentos ao longo da temporada. Em teoria, isso representa menos viagens continentais, menos interrupções do calendário dos clubes e mais períodos de continuidade para os jogadores.
O problema aparece quando se observa o que acontece dentro de cada janela. Em vez de cinco interrupções menores, o futebol passa a ter as Data Fifa potencialmente mais intensos. O jogador pode viajar menos vezes durante a temporada, mas permanecer mais tempo concentrado com sua seleção e disputar mais partidas em sequência. O benefício de reduzir deslocamentos precisa, portanto, ser comparado com o custo de concentrar partidas e treinos.
A primeira experiência já mostrou que esse equilíbrio será difícil. Na Inglaterra, Thomas Tuchel reconheceu que a janela ampliada trouxe desafios diferentes. O treinador destacou justamente a combinação entre viagens, pouco tempo de recuperação e mudanças nos métodos de treinamento. Ao mesmo tempo, também admitiu que existe um benefício evidente: permanecer mais tempo com o elenco permite trabalhar conceitos, realizar mais treinamentos e criar automatismos.
Essa talvez seja a melhor síntese do problema. Para as seleções, três semanas juntas podem ser excelentes. Para os clubes, que pagam os salários dos jogadores e dependem deles durante uma temporada de quase dez meses, a perspectiva é muito diferente.
O Brasil mostrou os dois lados da nova janela
A Seleção Brasileira talvez seja um dos melhores exemplos de como a nova estrutura pode ser positiva e problemática ao mesmo tempo.
Carlo Ancelotti recebeu 26 jogadores para a primeira convocação depois da Copa do Mundo, incluindo oito estreantes e dez atletas que atuavam no futebol brasileiro. O treinador aproveitou a janela para observar uma quantidade grande de jogadores, testar formações e começar a desenhar a equipe que pretende levar até a Copa do Mundo de 2030.
Em termos de trabalho de seleção, o formato oferece uma vantagem evidente. Ancelotti teve mais tempo para conviver com o grupo e conseguiu observar os jogadores em diferentes contextos. O Brasil enfrentou a Austrália duas vezes e depois viajou para a Índia, permitindo que a comissão técnica testasse nomes e combinações diferentes.
O primeiro resultado foi um empate por 1 a 1 em Townsville, em uma partida na qual a Austrália chegou a controlar boa parte das ações e o Brasil precisou de um gol de Rayan nos acréscimos para evitar a derrota. Quatro dias depois, a Seleção venceu por 4 a 2 em Brisbane, mostrando uma produção ofensiva mais convincente. O último compromisso terminou com uma goleada por 4 a 0 sobre a Índia, em Calcutá.
O próprio formato ajudou Ancelotti a experimentar. Contra a Índia, por exemplo, o treinador fez oito mudanças em relação à partida anterior e deu espaço para Pedro Morisco, que estreou no gol. Samuel Lino marcou seus dois primeiros gols pela Seleção, enquanto Estêvão e Pedro também balançaram as redes.
Para um treinador que acaba de começar um ciclo, isso é valioso. A questão é que o ganho de tempo para trabalhar com a seleção acontece às custas de um período enorme sem futebol de clubes em alguns mercados e de uma concentração maior de jogos internacionais.
A Seleção Brasileira terminou a janela com mais informações sobre seus jogadores, mas não necessariamente com todas as respostas. O empate contra a Austrália mostrou problemas, a vitória seguinte apresentou evolução e a goleada contra a Índia trouxe algumas boas atuações individuais, mas o conjunto ainda está em construção. A própria análise do período indica que Ancelotti ainda precisa descobrir quais jogadores realmente conseguirão se estabelecer no novo ciclo.
Isso não é necessariamente um problema. O Brasil está começando um ciclo de quatro anos. O problema é que a quantidade de trabalho que Ancelotti conseguiu realizar é justamente um dos argumentos a favor da nova Data Fifa, enquanto a carga física necessária para executar esse trabalho é um dos argumentos contra.
O problema aparece quando os jogadores começam a voltar lesionados
A maior contradição da experiência está nas lesões. A ideia de proteger o jogador perde força quando atletas retornam aos clubes machucados depois de defender suas seleções. É verdade que ainda não existe uma amostra suficiente para afirmar que a janela de três semanas provoca mais lesões do que as antigas Datas Fifa. A comparação seria injusta porque o número de jogos também mudou e seria necessário observar toda a temporada.
Mesmo assim, o volume de casos registrados durante a primeira experiência chama atenção. Na Inglaterra, Alex Scott deixou a seleção com uma lesão muscular e o Bournemouth demonstrou insatisfação com a maneira como o caso foi conduzido. Erling Haaland também deixou a seleção norueguesa depois de sentir problemas físicos durante o jogo contra Portugal, enquanto Nico O’Reilly retornou ao Manchester City para avaliação.
Liverpool perdeu Cody Gakpo e Alexander Isak para compromissos internacionais por problemas físicos, enquanto outros jogadores também apresentaram lesões ou chegaram às seleções já carregando algum tipo de desconforto.
O caso de Haaland é particularmente simbólico porque envolve um jogador que está no centro da discussão sobre carga de trabalho no futebol europeu. A entidade representativa dos jogadores noruegueses chegou a defender regras mais claras sobre carga, recuperação, intervalo entre partidas e viagens.
É exatamente esse o ponto que a Fifa precisa observar. Não basta perguntar quantos jogos existem. É preciso perguntar quando eles acontecem, quanto tempo o jogador tem para se recuperar, quantas horas passa viajando e qual é o intervalo entre o último jogo pelo clube e o primeiro compromisso pela seleção.
Uma sequência de três partidas em duas semanas pode ser suportável para determinado atleta e extremamente desgastante para outro. O problema do calendário moderno é que os jogadores de elite estão sendo tratados como se fossem capazes de suportar uma carga uniforme, quando cada corpo responde de maneira diferente.
Existe ainda uma perspectiva que costuma ser esquecida no debate: os clubes. Para torcedores de Premier League e Championship, ficar três semanas sem acompanhar seus times no começo da temporada parece uma eternidade. A competição doméstica mal começou, as primeiras disputas pela liderança começam a ganhar forma e os torcedores querem saber se seus times realmente serão candidatos a alguma coisa.
Interromper tudo nesse momento cria uma sensação estranha. No caso inglês, o impacto vai além do torcedor. Os clubes investem centenas de milhões de libras em seus elencos e precisam administrar jogadores que passam parte significativa da temporada defendendo outras equipes. Quando um atleta retorna lesionado, é o clube que assume as consequências esportivas e financeiras.
O argumento da Fifa é que a redução do número total de janelas pode beneficiar justamente esses clubes a longo prazo. Menos interrupções significam mais períodos de continuidade para treinadores, menos deslocamentos internacionais ao longo da temporada e maior estabilidade no calendário doméstico.
É uma vantagem real. O problema é que ela não aparece necessariamente durante a própria Super Data Fifa. Durante essas três semanas, o clube fica sem seus principais jogadores, perde ritmo competitivo e ainda precisa torcer para que eles retornem em condições de jogar.
A mudança, portanto, parece funcionar melhor quando observada no calendário inteiro. Se, ao final da temporada, os atletas realmente tiverem viajado menos e acumulado períodos maiores de continuidade nos clubes, a experiência terá produzido um benefício. Se as lesões e a concentração de jogos mostrarem que o custo físico foi maior, a Fifa terá de rever o modelo.
O futebol precisa escolher o que pretende proteger
No fundo, a discussão sobre a Super Data Fifa é uma discussão sobre prioridades.
A Fifa quer proteger os jogadores reduzindo a quantidade de viagens internacionais ao longo do ano. As seleções querem mais tempo de treinamento. Os clubes querem seus atletas disponíveis. Os treinadores querem mais tempo para trabalhar. Os jogadores precisam de recuperação. Os torcedores querem futebol de clubes com a maior frequência possível.
Todos esses interesses são legítimos, mas não cabem perfeitamente no mesmo calendário. O primeiro teste mostrou que a nova janela possui vantagens claras. Ancelotti, por exemplo, pôde iniciar a reconstrução do Brasil com uma convivência maior entre jogadores e comissão técnica. A Seleção utilizou três partidas para testar nomes e ideias, enquanto o treinador ganhou informações que seriam mais difíceis de obter em duas semanas.
Ao mesmo tempo, a concentração de jogos e viagens mostrou que ampliar a janela não significa automaticamente melhorar a proteção aos atletas. Se a quantidade de partidas aumenta, a recuperação continua sendo um problema. Se o calendário internacional fica mais longo, os clubes ficam mais tempo sem seus jogadores. E se os atletas retornam lesionados, a justificativa de bem-estar perde força.
Por isso, talvez seja cedo demais para chamar a Super Data Fifa de sucesso ou fracasso. O que já parece possível afirmar é que ela mudou o problema de lugar. Antes, o futebol tinha muitas interrupções curtas espalhadas pela temporada. Agora, existe a possibilidade de menos interrupções, mas com uma concentração maior de partidas e viagens em determinados períodos.
A resposta definitiva virá quando os números de lesões, minutos jogados, viagens e períodos de recuperação forem analisados ao longo de toda a temporada. Só então será possível descobrir se os jogadores realmente passaram a ser mais protegidos ou se simplesmente passaram a suportar uma carga diferente.
A Super Data Fifa pode ser uma boa ideia. O problema é que, para provar isso, ela terá de demonstrar que consegue fazer aquilo que prometeu desde o início: dar aos jogadores mais proteção sem transformar as semanas internacionais em maratonas ainda mais pesadas.
Se conseguir, terá encontrado uma solução para um dos maiores problemas do futebol atual. Se não conseguir, a discussão sobre o calendário apenas terá começado.
(Foto: Getty Images)



