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Futebol

Messi e Argentina: da desconfiança ao mito, a trajetória de uma relação que terminou em glória

Poucas histórias do futebol tiveram uma transformação tão profunda quanto a relação entre Lionel Messi e a seleção argentina. Durante anos, o jogador que parecia destinado a dominar o mundo precisou conviver com uma cobrança que ultrapassava os limites do campo. Para uma parte da torcida, Messi era brilhante no Barcelona, mas ainda precisava provar que poderia carregar a camisa da Albiceleste. Para outra, cada derrota da Argentina era também uma falha pessoal do camisa 10.

Hoje, essa discussão pertence a outra época. Messi encerrou sua trajetória pela seleção aos 39 anos, depois de disputar seis Copas do Mundo, conquistar a Copa América de 2021, a Copa América de 2024 e o Mundial de 2022, além de levar a Argentina novamente à final da Copa do Mundo em 2026. Na decisão contra a Espanha, perdeu por 1 a 0 na prorrogação, mas deixou o torneio com oito gols e quatro assistências e ampliou para 34 o recorde de partidas em Mundiais.

O curioso é que a despedida também devolveu Messi ao ponto de onde tudo parecia ter desmoronado. Dez anos depois do traumático anúncio de aposentadoria internacional em 2016, o argentino encerrou definitivamente sua história com a Albiceleste justamente no mesmo palco da final de 2026, depois de uma nova derrota. A diferença é que, dessa vez, não havia mais nada a provar.

A trajetória que começou com uma expulsão precoce em 2005 e passou por eliminações dolorosas, finais perdidas e críticas sobre sua personalidade terminou com Messi transformado em um dos maiores símbolos da história da seleção argentina.

O garoto que começou sendo cobrado como se já fosse um líder

A estreia de Messi pela Argentina, em 2005, poderia ter sido o primeiro capítulo de uma história perfeita. Em vez disso, terminou em uma expulsão apenas alguns segundos depois de entrar em campo contra a Hungria. O jovem deixou o gramado chorando, em uma imagem que antecipava, de maneira involuntária, a quantidade de emoções que ainda viveria com a camisa argentina.

No ano seguinte, já estava em uma Copa do Mundo. Contra a Sérvia e Montenegro, participou da goleada por 6 a 0 e mostrou imediatamente que aquele adolescente tinha capacidade para disputar o maior palco do futebol. O problema apareceu nas quartas de final, quando José Pekerman decidiu não utilizá-lo na prorrogação contra a Alemanha. A Argentina acabou eliminada nos pênaltis.

A partir daí, Messi passou a ser tratado não apenas como uma promessa, mas como alguém que precisava conduzir uma geração.

A Copa América de 2007 foi a primeira grande frustração. A Argentina chegou à final, mas perdeu por 3 a 0 para o Brasil, e Messi começou a ser colocado no centro das discussões sobre a capacidade da equipe de transformar seu talento em títulos.

Três anos depois, a pressão aumentou. Diego Maradona entregou a Messi um papel central na Copa do Mundo de 2010, mas a Argentina caiu novamente diante da Alemanha, dessa vez com uma goleada por 4 a 0 nas quartas de final. Messi terminou a competição sem marcar e passou a ouvir críticas que se tornariam recorrentes durante boa parte de sua carreira internacional.

O problema já não era saber se ele era um dos melhores jogadores do mundo. Isso ninguém discutia. A questão era por que o mesmo jogador que acumulava títulos e atuações históricas pelo Barcelona não conseguia levar a Argentina ao topo.

A geração das finais perdidas transformou Messi em alvo

A Copa América de 2011, disputada na Argentina, deveria representar uma oportunidade de redenção. Terminou em outra frustração, com eliminação para o Uruguai nos pênaltis. Messi novamente saiu do torneio cercado por críticas.

O cenário começou a mudar em 2014. A Argentina alcançou a final da Copa do Mundo no Brasil e Messi teve uma participação decisiva durante a campanha. A equipe, entretanto, perdeu por 1 a 0 para a Alemanha na prorrogação.

Foi a primeira vez em que Messi esteve realmente perto de alcançar aquilo que os argentinos mais desejavam. E justamente por isso a derrota aumentou a sensação de que o título poderia nunca chegar.

O que veio depois foi ainda mais cruel.

Em 2015, a Argentina perdeu a final da Copa América para o Chile nos pênaltis. Um ano depois, na Copa América Centenário, a história se repetiu. Novamente contra o Chile. Novamente nos pênaltis. Messi desperdiçou sua cobrança e, emocionalmente esgotado, anunciou sua aposentadoria da seleção.

Aquela noite marcou o ponto mais baixo da relação entre jogador e país. Messi havia perdido quatro finais pela Argentina entre Copa América e Copa do Mundo, e a sensação era de que nenhuma quantidade de talento seria suficiente para quebrar aquela barreira.

O anúncio, porém, durou pouco. Messi voltou à seleção 66 dias depois e continuou tentando.

Essa decisão talvez tenha sido mais importante para a história do que parece. O jogador poderia ter encerrado sua trajetória naquele momento e deixado para trás uma relação marcada pela frustração. Em vez disso, aceitou novamente a responsabilidade.

Foi essa insistência que permitiu que a história tivesse um segundo ato.

A mudança não aconteceu apenas com Messi, mas também ao redor dele

A transformação definitiva começou quando Lionel Scaloni assumiu a seleção e construiu um ambiente diferente daquele que Messi havia encontrado durante seus primeiros anos.

A Argentina passou a entender que não precisava exigir que o camisa 10 resolvesse absolutamente tudo. Em vez disso, deveria construir uma equipe capaz de potencializar suas características.

Jogadores criativos passaram a cercá-lo. O sistema ficou mais equilibrado. A pressão deixou de estar concentrada exclusivamente no craque. Messi continuava sendo o principal jogador, mas já não precisava ser o único responsável pela solução.

A Copa América de 2021 foi o primeiro grande resultado dessa mudança. No Maracanã, contra o Brasil, a Argentina conquistou seu primeiro título com Messi como protagonista.

A importância daquele troféu ultrapassava a própria competição. Pela primeira vez, Messi tinha um título relevante pela seleção principal. A narrativa começava a mudar.

Poucos meses depois, a Argentina venceu a Itália na Finalíssima. O time de Scaloni passou a transmitir uma confiança que não existia nas gerações anteriores, e Messi deixou de carregar apenas o peso das derrotas.

Ele começou, finalmente, a desfrutar da seleção.

Qatar transformou a relação entre Messi e Argentina para sempre

A Copa do Mundo de 2022 foi o momento em que a discussão sobre Messi na Argentina deixou de ser uma comparação permanente com suas conquistas pelo Barcelona.

O título mundial encerrou a principal dúvida que acompanhava sua carreira internacional. Messi não apenas conquistou a Copa, como foi decisivo durante todo o torneio e terminou a competição como protagonista de uma das finais mais marcantes da história.

A vitória sobre a França nos pênaltis, depois de uma partida em que a Argentina chegou a abrir vantagem, sofreu a reação francesa e precisou novamente de Messi para encontrar soluções, completou uma transformação que parecia impossível alguns anos antes.

O jogador que havia sido chamado de frio passou a ser tratado como símbolo nacional. Aquele que precisava provar que era capaz de liderar a Argentina passou a ser colocado ao lado das maiores figuras da história do país.

A comparação com Diego Maradona, que durante anos funcionara como uma espécie de sentença sobre Messi, deixou de ser uma cobrança e passou a ser uma discussão histórica sobre dois gigantes.

Messi havia finalmente conquistado aquilo que a Argentina exigia dele.

E, depois disso, continuou ganhando.

A Copa América de 2024 mostrou que o título mundial não foi um ponto final

Se 2022 parecia o encerramento perfeito, Messi ainda tinha algo a acrescentar.

Na Copa América de 2024, a Argentina conquistou novamente o título continental, dessa vez diante da Colômbia. Messi precisou deixar a final lesionado e chorou no banco, mas seus companheiros terminaram o trabalho.

Essa cena também simbolizava a transformação da seleção. Durante muito tempo, Messi havia sido cobrado por não conseguir carregar a equipe sozinho. Em 2024, a Argentina demonstrou que já era capaz de vencer mesmo quando seu principal jogador não conseguia permanecer em campo.

Isso não diminuía sua importância. Pelo contrário, mostrava o sucesso do processo construído por Scaloni.

Messi havia deixado de ser a seleção inteira.

Passara a ser o maior jogador de uma equipe que sabia competir sem depender exclusivamente dele.

2026 encerrou o ciclo de maneira diferente da esperada

A Copa do Mundo de 2026 parecia oferecer a possibilidade de um último capítulo perfeito. Aos 39 anos, Messi disputou sua sexta Copa, ampliou o recorde de jogos em Mundiais para 34 e conduziu a Argentina até a final novamente. Durante o torneio, marcou oito gols e distribuiu quatro assistências, mostrando que ainda conseguia decidir partidas mesmo com uma capacidade física naturalmente menor.

A decisão, entretanto, terminou com derrota. A Espanha venceu por 1 a 0 na prorrogação, impedindo o bicampeonato consecutivo argentino. Messi saiu novamente de uma final de Copa do Mundo sem levantar a taça.

Mas a derrota não tinha mais o mesmo significado de 2014.

Em 2014, Messi ainda precisava provar que conseguiria ser campeão mundial. Em 2026, já havia feito isso quatro anos antes. Em 2016, uma nova derrota parecia capaz de encerrar sua relação com a Argentina em fracasso. Em 2026, a derrota simplesmente fazia parte de uma carreira que já havia alcançado praticamente tudo.

Pouco mais de um mês depois da final, Messi confirmou sua aposentadoria da seleção. A decisão foi anunciada no fim de agosto, quando afirmou que já não tinha mais para oferecer e que uma nova geração merecia ocupar seu espaço.

A AFA ainda preparou uma despedida oficial para o camisa 10, com o amistoso contra Benin em Buenos Aires marcado para 6 de outubro.