Erin Blanchfield acredita que já fez o suficiente para disputar o cinturão peso-mosca feminino do UFC. Aos 27 anos, a norte-americana soma nove vitórias em dez lutas na organização, derrotou ex-campeãs como Rose Namajunas e Jéssica Andrade e voltou a vencer Tracy Cortez em sua apresentação mais recente. Mesmo assim, viu Wang Cong receber a oportunidade de disputar o título vago contra Natália Silva no UFC 332. Agora, Blanchfield precisa voltar ao octógono contra Jasmine Jasudavicius, em Edmonton, para tentar se aproximar novamente de uma disputa que considera merecer.
A decisão provocou frustração, mas também colocou a lutadora diante de uma situação que pode definir o rumo de sua carreira. A canadense Jasudavicius terá o apoio da torcida na Rogers Place, enquanto Blanchfield precisará competir em um ambiente potencialmente hostil. Além disso, a norte-americana chega ao confronto depois de uma derrota marcante para Manon Fiorot, em 2024, resultado que interrompeu sua ascensão rumo ao topo da divisão.
O cenário reúne três desafios distintos: superar uma adversária perigosa fora de casa, transformar a experiência de uma derrota em evolução e convencer o UFC de que sua trajetória justifica uma nova oportunidade pelo título. Blanchfield já demonstrou que consegue se recuperar de reveses. Agora, precisa fazer isso em uma divisão que começa a construir uma nova hierarquia após a saída de Valentina Shevchenko do posto de campeã.
O UFC deixou Blanchfield para trás na disputa pelo título
A insatisfação de Blanchfield tem uma justificativa esportiva. Quando o UFC precisou escolher as participantes da disputa pelo cinturão vago, a norte-americana apresentava um histórico expressivo na organização. Eram nove vitórias em dez combates, incluindo triunfos sobre Namajunas e Andrade, duas ex-campeãs com experiência no mais alto nível do MMA.
Wang Cong, por sua vez, havia acumulado cinco vitórias em seis lutas no UFC desde sua chegada por meio do programa Road to the UFC. A chinesa também vinha de um resultado positivo contra Cortez, adversária que Blanchfield havia derrotado anteriormente. O confronto com uma oponente em comum oferecia uma referência para comparar as duas trajetórias, mas havia diferenças importantes nos currículos.
Blanchfield já havia enfrentado e vencido nomes que passaram pelo topo da divisão. Sua vitória sobre Namajunas, por exemplo, reforçou sua capacidade de lidar com uma adversária tecnicamente experiente, enquanto o triunfo sobre Andrade demonstrou que ela podia competir contra diferentes estilos. Esses resultados, somados à regularidade no UFC, sustentavam o argumento de que estava pronta para disputar o título.
Ainda assim, a oportunidade foi para Wang, que acabou enfrentando Natália Silva pelo cinturão vago. A brasileira venceu por decisão unânime e se tornou campeã peso-mosca, abrindo uma nova etapa na categoria.
Blanchfield reconheceu que ficou chateada com a decisão. Ela sentiu que o trabalho acumulado ao longo dos anos não havia recebido o reconhecimento esperado, especialmente porque permaneceu entre as principais competidoras da divisão por um período considerável. A lutadora, porém, procurou limitar a frustração a alguns dias, em vez de permitir que ela comprometesse a preparação para seu próximo combate.
Essa reação é importante porque revela a diferença entre considerar uma decisão injusta e deixar que ela determine o restante da carreira. Blanchfield pode questionar a escolha do UFC, mas não controla quem recebe a próxima oportunidade. O que está ao seu alcance é continuar vencendo até tornar sua candidatura ainda mais difícil de ignorar.
O combate em Edmonton pode recolocá-la na rota do título
O confronto com Jasmine Jasudavicius representa uma etapa decisiva nessa tentativa de recuperação. Blanchfield originalmente enfrentaria a canadense no UFC 330, na Filadélfia, mas uma lesão obrigou o adiamento da luta. O duelo foi remarcado para Edmonton, mudando não apenas a data, mas também o ambiente em que as duas se encontrarão.
Na Filadélfia, Blanchfield teria a vantagem de lutar relativamente perto de Elwood Park, em Nova Jersey, onde cresceu. A expectativa era de encontrar uma torcida favorável, capaz de transformar a luta em uma oportunidade para reforçar sua posição na divisão. Em Edmonton, o cenário será diferente: Jasudavicius competirá diante de seu público, com o apoio de torcedores canadenses que naturalmente estarão inclinados a incentivar a representante local.
Para Blanchfield, será uma experiência inédita lutar em outro país diante de uma adversária com esse tipo de apoio. A norte-americana, entretanto, não considera a situação completamente estranha. Ela já enfrentou vaias e ambientes nos quais a torcida estava claramente contra ela. A diferença, agora, é que precisará administrar essa pressão em uma luta que pode ter consequências importantes para seu futuro.
A preparação também foi pensada para reduzir o impacto da mudança. Blanchfield chegou ao Canadá com antecedência e passou uma semana treinando no local, buscando se adaptar ao ambiente antes de entrar no octógono.
O aspecto psicológico será relevante, mas o resultado dependerá principalmente do desempenho esportivo. Uma vitória pode recolocá-la na discussão pelo cinturão, especialmente porque ela já possui um histórico de triunfos sobre adversárias importantes. Uma derrota, por outro lado, tornaria mais difícil sustentar o argumento de que deveria estar imediatamente à frente de outras candidatas.
Por isso, o combate não é apenas mais uma defesa de posição no ranking. É uma oportunidade para Blanchfield demonstrar que a frustração com a escolha do UFC não alterou sua capacidade de competir em alto nível.
A derrota para Manon Fiorot mudou sua maneira de encarar o MMA
A trajetória de Blanchfield também mostra que a ascensão de uma lutadora não acontece sem obstáculos. Em março de 2024, quando tinha apenas 24 anos, ela enfrentou Manon Fiorot em Atlantic City, em uma luta que poderia aproximá-la de uma disputa pelo cinturão. Com a torcida ao seu lado, Blanchfield entrou no confronto diante de uma oportunidade importante para confirmar sua posição entre as principais candidatas ao título.
O resultado, porém, foi bastante diferente do esperado. Fiorot controlou a luta durante os cinco rounds e venceu por decisão unânime, sem deixar muitas dúvidas sobre sua superioridade naquela noite. A derrota representou um golpe significativo para Blanchfield, que precisou voltar ao trabalho depois de perder uma oportunidade de avançar na divisão.
Fiorot recebeu posteriormente a chance de enfrentar Valentina Shevchenko pelo cinturão. Blanchfield, por sua vez, precisou reconstruir sua candidatura, começando por um novo período de preparação e pela necessidade de corrigir as limitações expostas naquele combate.
A norte-americana acredita que a experiência foi importante para seu desenvolvimento. Ela reconhece que pode ser teimosa em determinados momentos e que uma derrota ajuda a identificar problemas que nem sempre ficam evidentes nas vitórias. O resultado contra Fiorot, portanto, não foi apenas uma interrupção de sua trajetória. Tornou-se uma referência para compreender o que precisava melhorar.
A resposta veio com duas vitórias consecutivas, contra Namajunas e Cortez. Esses resultados devolveram Blanchfield à disputa entre as principais lutadoras da categoria e mostraram que ela conseguiu transformar a derrota em uma oportunidade de evolução.
Existe uma diferença importante entre aprender com um resultado negativo e simplesmente superá-lo emocionalmente. Blanchfield precisou fazer as duas coisas. A derrota exigiu uma avaliação do próprio desempenho, enquanto as vitórias seguintes demonstraram que ela conseguia aplicar as lições em situações reais de competição.
Essa capacidade será novamente testada contra Jasudavicius. A experiência acumulada desde a luta com Fiorot pode ajudá-la a lidar com momentos difíceis, mas não garante que o próximo combate será simples. A evolução precisa aparecer dentro do octógono, especialmente quando a adversária conseguir impor seu próprio ritmo.
Natália Silva é a nova campeã, mas Valentina continua no horizonte
A conquista do cinturão por Natália Silva também alterou o cenário que Blanchfield precisa enfrentar. Durante anos, Valentina Shevchenko foi a principal referência do peso-mosca feminino, acumulando dois reinados e nove defesas de título. Sua saída temporária abriu espaço para uma nova campeã, mas não encerrou necessariamente sua história na divisão.
Blanchfield reconhece que seria estranho encerrar a carreira sem enfrentar Shevchenko. A norte-americana considera a quirguiz uma figura fundamental para a construção da categoria e entende que seu legado continua influenciando a maneira como as demais lutadoras são avaliadas.
Essa possibilidade acrescenta uma dimensão interessante ao futuro da divisão. Natália já conquistou o cinturão, mas ainda precisará consolidar seu reinado diante das principais desafiantes. Shevchenko, se retornar, poderá tentar recuperar o título. Blanchfield, por sua vez, busca uma posição que lhe permita disputar a coroa e enfrentar as duas principais referências da categoria.
A situação também mostra por que a norte-americana precisa manter o foco em sua próxima luta. Não adianta projetar um confronto com Natália ou Shevchenko sem antes superar Jasudavicius. A divisão tem outras competidoras capazes de conquistar vitórias importantes, e qualquer tropeço pode alterar a ordem das candidatas.
Blanchfield já esteve perto de uma disputa pelo título e sabe que uma oportunidade pode desaparecer rapidamente. A derrota para Fiorot mostrou isso em 2024. A escolha de Wang para enfrentar Natália reforçou a mesma lição por outro caminho: resultados anteriores não garantem que a próxima oportunidade será sua.
Blanchfield precisa transformar a frustração em resultado
O momento atual exige uma combinação de paciência e urgência. Blanchfield tem experiência suficiente para saber que sua carreira não será definida por uma única decisão do UFC, mas também entende que oportunidades pelo cinturão não aparecem indefinidamente. Aos 27 anos, ela continua em uma fase importante da trajetória, com tempo para evoluir e construir novas sequências de vitórias.
Sua candidatura ao título possui argumentos concretos. O cartel na organização, as vitórias sobre ex-campeãs e a recuperação depois da derrota para Fiorot mostram que ela tem capacidade para permanecer entre as principais competidoras. Mas a posição de número 3 no Meta Rankings não lhe garante prioridade automática, especialmente em uma divisão que está passando por uma transição de campeãs.
O combate em Edmonton pode ser o primeiro passo para mudar essa percepção. Vencer Jasudavicius em território canadense reforçaria a consistência de Blanchfield e daria à organização um argumento esportivo para colocá-la novamente diante de uma adversária de alto nível. Mais do que isso, mostraria que ela consegue lidar com um contexto desfavorável sem permitir que a pressão externa determine seu desempenho.
A frustração por ter ficado fora da disputa pelo cinturão é compreensível, mas não precisa se transformar em um obstáculo permanente. Blanchfield já mostrou que consegue aprender com derrotas e voltar mais forte. Agora, precisa fazer o mesmo diante de uma adversária que terá o apoio da torcida e a oportunidade de mudar a própria posição na categoria.
O cinturão de Natália Silva representa uma nova fase para o peso-mosca feminino. Blanchfield quer fazer parte dela, mas sabe que o caminho passa por uma vitória imediata. Se conseguir transformar a experiência acumulada em Edmonton em uma atuação convincente, poderá voltar à discussão pelo título com argumentos ainda mais fortes.
A oportunidade que não recebeu contra Wang Cong não precisa definir sua carreira. O que fará diferença é a maneira como responderá quando finalmente tiver a chance de lutar novamente por ela.
(Foto: Getty Images)



