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Wirtz brilha, mas expõe o dilema que Iraola ainda precisa resolver no Liverpool

Wirtz responde às críticas, mas não encerra a discussão

Florian Wirtz teve uma atuação capaz de mudar a percepção sobre seu momento no Liverpool. Na vitória por 2 a 1 sobre o Brentford, o alemão mostrou a criatividade que levou o clube a investir pesado em sua contratação e foi decisivo para a reação da equipe. Ainda assim, a partida também expôs uma questão que Andoni Iraola precisa resolver: como aproveitar o talento do camisa 10 sem comprometer o equilíbrio do meio-campo?

A resposta não é simples. Wirtz oferece qualidade técnica, visão de jogo e capacidade para encontrar passes que poucos jogadores enxergam. Ao mesmo tempo, sua utilização em uma estrutura com dois pontas e apenas dois meio-campistas pode deixar espaços importantes quando o Liverpool perde a bola.

A vitória em Brentford foi importante, mas não apagou essa preocupação. Pelo contrário: mostrou que o alemão pode ser uma das principais armas ofensivas da equipe e, ao mesmo tempo, obrigar o treinador a encontrar uma estrutura mais segura para o conjunto.

O desafio de Iraola não é escolher entre Wirtz e o equilíbrio. É construir um time capaz de aproveitar os dois.

Nove chances criadas colocam o alemão na história recente da liga

Os números ajudam a explicar por que a atuação de Wirtz chamou tanta atenção. O meia criou nove oportunidades em jogadas de bola rolando, a maior marca de um jogador em uma partida da Premier League nas últimas seis temporadas, segundo os dados citados pela imprensa inglesa.

A última vez que alguém havia alcançado um número semelhante foi em janeiro de 2021, quando Sadio Mané criou nove chances pelo Liverpool contra o Burnley. Considerando apenas partidas fora de casa, a marca de Wirtz também chama atenção: o último jogador a superar esse número havia sido Samir Nasri, pelo Manchester City, contra o Tottenham, em agosto de 2011.

Além das chances criadas, o alemão registrou 12 entradas no terço final e 37 passes nessa região do campo. Sua participação também foi importante na construção da reação do Liverpool, que saiu atrás no placar e conseguiu buscar a vitória.

Wirtz voltou a demonstrar que tem capacidade para organizar o ataque, acelerar a circulação da bola e encontrar companheiros em posições perigosas. Depois de um início de temporada com cobranças sobre seu rendimento, a atuação oferece uma resposta concreta a quem questionava sua influência no time.

Mas os números ofensivos não contam a história inteira. Para entender o dilema de Iraola, é necessário observar também o que acontece quando o Liverpool perde a posse.

O problema não está apenas no camisa 10

A discussão sobre o equilíbrio do Liverpool não deve ser transformada em uma crítica individual a Wirtz. O alemão é contratado justamente para criar, arriscar passes e atuar em zonas nas quais a perda da bola faz parte do risco.

O problema aparece quando a estrutura ao redor dele não oferece proteção suficiente.

Com Wirtz centralizado como camisa 10 e dois pontas posicionados mais adiante, o Liverpool pode acabar dependendo de apenas dois jogadores para controlar o meio-campo. Se esses atletas forem superados ou estiverem distantes da jogada, os adversários encontram espaço para progredir e atacar uma defesa que nem sempre está protegida.

Foi essa preocupação que Danny Murphy levantou ao analisar o time. Na avaliação do ex-meio-campista, a configuração deixa uma carga excessiva sobre os dois jogadores centrais e facilita a progressão dos rivais pelo corredor central.

A questão é tática, não uma acusação de falta de esforço. Wirtz pode pressionar, tentar recuperar a bola e participar da recomposição, mas não é razoável esperar que sua principal função criativa seja acompanhada pela responsabilidade de corrigir sozinho os espaços deixados por toda a equipe.

Se o Liverpool quer extrair o máximo do alemão, precisa garantir que os demais setores estejam preparados para sustentar a liberdade que ele recebe no ataque.

Um terceiro meio-campista pode oferecer a resposta

Uma das alternativas seria utilizar três jogadores no meio-campo, aumentando a capacidade de proteção e reduzindo a distância entre os setores. Isso não obrigaria Iraola a retirar Wirtz da equipe nem a limitar sua liberdade criativa.

A mudança poderia, na verdade, ajudá-lo.

Com um meio-campista adicional, o Liverpool teria mais condições de controlar as segundas bolas, proteger a defesa após perdas de posse e manter pressão sobre o adversário sem abrir espaços tão grandes. Wirtz continuaria responsável por criar, mas encontraria uma estrutura mais preparada para compensar os riscos naturais de seu posicionamento.

O custo seria reduzir uma das opções ofensivas ou alterar a função de algum jogador. É uma escolha que exige equilíbrio: colocar mais gente no meio pode melhorar a proteção, mas também diminuir a presença em profundidade e a capacidade de atacar pelos lados.

Por isso, não existe uma solução automática. Iraola precisa avaliar quais jogadores oferecem a melhor combinação entre criatividade, intensidade e disciplina tática, além de considerar o adversário e o contexto de cada partida.

O importante é que a discussão não termine na ideia de que Wirtz precisa mudar. O Liverpool também precisa mudar ao redor dele.

Os números também mostram os limites da atuação

Mesmo com uma produção criativa excepcional, Wirtz perdeu a posse 19 vezes, número superado entre os jogadores do Liverpool apenas por Milos Kerkez. O alemão também venceu somente um de nove duelos disputados.

Esses dados precisam ser interpretados com cuidado. Um jogador que tenta passes de risco e procura acelerar o ataque naturalmente pode perder mais bolas do que alguém que prioriza a circulação segura. O número de duelos vencidos, por sua vez, não mede sozinho a contribuição de um atleta para a equipe.

Ainda assim, as estatísticas ajudam a entender por que uma atuação brilhante não elimina todas as dúvidas. Wirtz produziu muito com a bola, mas o Liverpool precisa organizar melhor o que acontece depois que a perde.

O objetivo não deve ser retirar do alemão a liberdade que tornou sua atuação tão produtiva. Deve ser criar mecanismos para que suas tentativas de desequilíbrio não deixem o time exposto com tanta frequência.

Uma equipe bem estruturada permite que seus jogadores criativos assumam riscos porque sabe como reagir quando a jogada não funciona. É esse tipo de segurança coletiva que o Liverpool ainda precisa consolidar.

A vitória trouxe alívio, mas o calendário aumenta a pressão

O resultado em Brentford teve valor também pelo contexto. O Liverpool conseguiu reagir depois de sofrer o primeiro gol, venceu fora de casa e encerrou uma sequência de 19 partidas como visitante sem vitória depois de sair atrás no placar. A equipe não conquistava uma vitória nessa situação desde dezembro de 2023.

Com o triunfo, o time chegou à quinta colocação e somou sua terceira vitória nas primeiras sete rodadas do campeonato sob o comando de Iraola, contratado no verão para substituir Arne Slot.

A recuperação é importante, mas o calendário não oferece muito tempo para comemorar. O Liverpool tem compromisso pela Champions League contra o Villarreal na terça-feira, e a comissão técnica precisará administrar o desgaste e as ausências, entre elas as de Dominik Szoboszlai e Jeremie Frimpong, que se lesionaram diante do Brentford. Alexander Isak também retornou recentemente de lesão.

Esse cenário reforça a necessidade de encontrar uma estrutura que funcione sem depender de uma escalação ideal em todas as partidas. A profundidade do elenco e a flexibilidade tática podem ser decisivas para sustentar uma campanha consistente em duas competições.

Wirtz precisa ser uma solução, não um problema permanente

A atuação contra o Brentford mostrou por que o Liverpool apostou tanto em Wirtz. O alemão tem capacidade para criar oportunidades em sequência, acelerar o jogo e encontrar soluções quando a equipe precisa reagir. Sua produção ofensiva não deve ser diminuída apenas porque o time ainda apresenta problemas de equilíbrio.

Mas também seria um erro ignorar as dificuldades coletivas que aparecem ao redor de sua função.

Iraola precisa decidir como quer proteger o meio-campo, quais jogadores devem dividir essa responsabilidade e até que ponto a equipe pode manter dois pontas à frente de uma dupla central sem perder controle. A resposta pode variar conforme o adversário, mas o princípio precisa ser o mesmo: dar liberdade ao talento sem abrir mão da organização.

O Liverpool venceu o Brentford porque encontrou qualidade para reagir. Wirtz teve participação decisiva e mostrou que pode ser um dos motores da equipe. Agora, o passo seguinte é transformar esse brilho individual em uma estrutura que funcione com maior regularidade.

O dilema de Iraola não é se Wirtz deve jogar. É como montar um Liverpool que aproveite tudo o que o alemão oferece sem pagar um preço tão alto quando perde a bola.

Se encontrar esse equilíbrio, o treinador não estará apenas resolvendo um problema tático. Estará criando as condições para que o investimento em Wirtz se transforme em uma vantagem real para o Liverpool ao longo da temporada.

Foto: Imago