George Russell chegou a 2026 com a expectativa de disputar o título mundial. A Mercedes havia demonstrado força na preparação para o novo regulamento, e o britânico parecia reunir todas as condições para liderar a equipe em uma temporada que poderia marcar sua carreira. O cenário, entretanto, tomou um rumo inesperado.
Em vez de assumir o protagonismo, Russell viu Kimi Antonelli crescer dentro da equipe e conquistar resultados que o colocaram à frente do companheiro. A diferença entre as expectativas iniciais e o desfecho da temporada ficou evidente no GP da Cidade do México.
Enquanto Antonelli celebrava uma conquista histórica diante de milhares de torcedores, Russell observava a festa de longe. A imagem do britânico caminhando até o estádio, pouco depois da bandeirada, simbolizou a frustração de quem acreditava estar diante de sua grande oportunidade na Fórmula 1.
Toto Wolff, chefe da Mercedes, descreveu Russell como “devastado” após a corrida e chegou a pagar uma multa para dispensá-lo dos compromissos com a imprensa. A equipe agora precisa entender por que um piloto considerado favorito ao campeonato terminou superado por um companheiro muito mais jovem e com menos experiência.
De promessa dominante a protagonista da Mercedes
A trajetória de Russell ajuda a explicar por que seu desempenho em 2026 surpreendeu tanto. O britânico chamou atenção ainda nas categorias de base pela velocidade e pela capacidade de identificar problemas no carro. Em 2017, conquistou o campeonato da GP3 com uma campanha consistente pela ART, superando adversários como Jack Aitken, Nirei Fukuzumi e Anthoine Hubert.
No ano seguinte, chegou à Fórmula 2 com a pressão de transformar seu talento em uma oportunidade na categoria principal. O campeonato reunia uma geração excepcional, incluindo Alex Albon e Lando Norris.
Russell enfrentou dificuldades no início da temporada, especialmente para encontrar o acerto ideal e aproveitar os pneus. Sua capacidade de análise, porém, foi fundamental para reverter a situação. Depois de algumas etapas, conseguiu solucionar os problemas e passou a dominar a disputa. O título da Fórmula 2 em 2018 garantiu sua chegada à Fórmula 1 pela Williams. Posteriormente, sua transferência para a Mercedes abriu caminho para uma disputa direta com Lewis Hamilton.
Entre 2022 e 2024, Russell conquistou três vitórias e apresentou números expressivos nas classificações. Em 2023, terminou empatado com Hamilton no confronto direto. Nas temporadas seguintes, superou o heptacampeão por 13 a 9 e 19 a 5.
Esses resultados reforçaram a imagem de Russell como um piloto capaz de liderar a Mercedes. Entretanto, existe um detalhe que pode ter influenciado essa avaliação: Hamilton atravessava uma fase particularmente complicada, com apenas duas vitórias em três temporadas.
As dificuldades dos carros do efeito solo prejudicaram o estilo de pilotagem do britânico, que já não conseguia atacar as curvas como gostaria. A temporada de 2026 deixou ainda mais evidente o impacto daquele período sobre seu desempenho.
O maior problema foi não conseguir entender o carro
Apesar de conquistar três vitórias em 2026, Russell apresentou dificuldades para encontrar regularidade. Sempre que o desempenho ficava abaixo do esperado, o piloto demonstrava não ter uma explicação clara para os problemas. A expressão “eu não sei” passou a aparecer frequentemente em suas entrevistas. Inicialmente, isso não era necessariamente preocupante, já que o novo regulamento técnico trouxe desafios para todas as equipes.
O problema foi a duração dessa dificuldade. Mesmo depois de meses de trabalho, Russell continuava sem encontrar respostas consistentes sobre o comportamento do W17. Após o GP da Grã-Bretanha, em Silverstone, por exemplo, o britânico admitiu não saber se os problemas de velocidade em linha reta identificados na classificação também haviam afetado seu desempenho na corrida. A situação se repetiu no GP dos Estados Unidos, em Austin. Antonelli dominou a prova, enquanto Russell terminou frustrado e novamente sem conseguir explicar o próprio rendimento. “Foi um dia muito ruim. Não sei realmente o motivo”, declarou.
A falta de respostas chama atenção porque Russell sempre foi reconhecido pela capacidade de comunicação com os engenheiros. Nas categorias de base, demonstrou habilidade para identificar problemas de acerto e encontrar soluções, como aconteceu durante sua campanha vitoriosa na Fórmula 2.
Na Mercedes, entretanto, essa característica não se traduziu em uma evolução semelhante. Enquanto Antonelli encontrava maneiras de extrair cada vez mais desempenho do carro, Russell continuava enfrentando dificuldades para compreender suas limitações.
A parceria com Bonnington poderia ter mudado alguma coisa?
Outro ponto que merece atenção envolve a estrutura de engenharia da Mercedes. Quando Hamilton deixou a equipe, Russell teve a oportunidade de tentar estabelecer uma parceria com Pete Bonnington, conhecido no paddock como Bono. O engenheiro trabalhou com Michael Schumacher e acompanhou Hamilton durante seis de seus títulos mundiais.
Sua importância dentro da equipe era tão grande que a possibilidade de acompanhar o heptacampeão na Ferrari chegou a ser amplamente discutida. Bonnington, porém, permaneceu na Mercedes e assumiu uma função ampliada. Posteriormente, passou a trabalhar com Antonelli, que frequentemente destacou a importância do engenheiro em seu desenvolvimento.
O italiano conseguiu evoluir de um estreante com lampejos de velocidade para um piloto mais consistente e capaz de encontrar desempenho ao longo dos fins de semana. Diante disso, fica a dúvida sobre se Russell poderia ter se beneficiado de uma parceria semelhante. Não é possível afirmar que a presença de Bonnington ao seu lado teria mudado o resultado da temporada, mas a evolução de Antonelli mostra o valor de uma relação sólida entre piloto e engenheiro.
Problemas técnicos também atrapalharam a campanha
A temporada de Russell não pode ser explicada apenas pelas dificuldades de pilotagem. O britânico enfrentou uma sequência bastante extensa de problemas mecânicos, falhas operacionais e decisões que comprometeram seus resultados.
Em Xangai, uma falha na bateria prejudicou sua classificação. No Japão, o momento de entrada do Safety Car custou a liderança, enquanto um problema na troca de marchas provocou a seleção de um modo incorreto de potência durante a relargada.
Em Montreal, Russell abandonou por uma falha na unidade de potência quando estava na liderança. Em Mônaco, foi prejudicado por uma punição equivocada, cumprida de maneira incorreta. Silverstone também foi uma etapa complicada, com problemas na utilização da potência em linha reta e um furo de pneu durante a corrida. Em Spa, além de enfrentar dificuldades semelhantes, acabou envolvido em uma colisão ainda na primeira volta.
Na Hungria, o britânico sofreu com a falta de controle das rotações do motor e com o acionamento do sistema antistall na largada. Mais tarde, no Bahrein, na Malásia, uma falha na unidade de potência o tirou da disputa quando ocupava a terceira posição.
O problema também teve consequências em Singapura, onde Russell recebeu uma punição no grid pela substituição do motor danificado na etapa anterior. No México, uma falha na entrega de potência em linha reta prejudicou sua largada, mesmo partindo da segunda posição.
A quantidade de contratempos ajuda a dimensionar o tamanho do desafio enfrentado pelo piloto. Ainda assim, a sequência de problemas não explica completamente a diferença de desempenho para Antonelli. Um exemplo de como reagir a uma adversidade foi dado por Lando Norris em 2025. Depois de uma falha no motor em Zandvoort que ameaçou suas chances de título, o britânico respondeu com uma grande atuação em Monza, superando Oscar Piastri em ritmo durante o fim de semana.
Aquele resultado ajudou Norris a construir uma sequência de seis corridas como principal piloto da McLaren. Russell, por outro lado, conseguiu superar Antonelli em apenas duas provas consecutivas durante toda a temporada de 2026.
2027 será decisivo para recuperar a confiança
A temporada deixa uma questão importante para o futuro de Russell: ele conseguirá recuperar o nível que o colocou entre os principais pilotos da Fórmula 1? O britânico esperava há anos por uma oportunidade de disputar o campeonato com um carro competitivo. A Mercedes voltou a interpretar muito bem uma mudança de regulamento, mas foi Antonelli quem conseguiu aproveitar melhor o potencial da equipe.
Também é difícil medir quanto a pressão psicológica influenciou Russell. Ver uma oportunidade tão importante escapar enquanto seu companheiro conquistava resultados expressivos certamente tornou a situação ainda mais complicada.
A prioridade agora deve ser compreender o W17 e encontrar soluções que possam ser aproveitadas no desenvolvimento do próximo carro. Mais do que conquistar pontos nas últimas etapas de 2026, Russell precisa terminar o ano com respostas técnicas e confiança para a próxima temporada.
A preparação para 2027 já começou. As 18 semanas anteriores à primeira corrida serão fundamentais para definir se o britânico conseguirá voltar a disputar o protagonismo dentro da Mercedes.
Russell ainda tem talento, experiência e uma estrutura competitiva ao seu redor. Mas precisará transformar essas qualidades em desempenho consistente. Caso contrário, Antonelli poderá consolidar ainda mais sua posição de liderança, deixando o companheiro novamente diante de uma temporada de frustrações.



