Futebol Brasileirão

Caso Abel Ferreira demonstra rigor excessivo, mas previsível

A punição de oito jogos imposta a Abel Ferreira pelo STJD escancarou um debate inevitável no futebol brasileiro: até que ponto há rigor excessivo da Justiça Desportiva e em que momento esse rigor passa a ser consequência direta do comportamento reiterado de um profissional? No caso do técnico do Palmeiras, a resposta parece estar justamente no meio desse caminho.

É inegável que a pena aplicada chama atenção. Somando duas expulsões, contra Fluminense e São Paulo, o treinador recebeu oito jogos de suspensão, sendo dois já cumpridos automaticamente, restando ainda seis partidas a cumprir.

Além disso, o clube tentou um efeito suspensivo para que ele pudesse comandar a equipe no clássico contra o Corinthians, mas o pedido foi negado, o que aumentou ainda mais a sensação de inflexibilidade no processo.

A reação do Palmeiras foi imediata, classificando a punição como “descabida” e exagerada. E, olhando apenas para a quantidade de jogos, o argumento faz sentido. O futebol brasileiro historicamente convive com decisões inconsistentes do STJD, muitas vezes mais brandas em situações igualmente graves.

Nesse contexto, oito partidas de suspensão para um treinador, ainda que por dois episódios distintos, soa como uma tentativa de dar exemplo, talvez até dura demais. No entanto, ignorar o histórico de Abel Ferreira seria analisar o caso de forma incompleta.

A reincidência que pesa e explica o rigor

O técnico português não está vivendo um caso isolado ou pontual dentro dos tribunais esportivos. Desde que chegou ao Brasil, em 2020, ele já foi alvo de cerca de 20 processos no STJD. Esse dado, por si só, muda completamente o enquadramento da punição atual.

As expulsões que culminaram na suspensão não foram apenas por reclamações comuns. Em um dos episódios, Abel Ferreira foi acusado de ofender a arbitragem com palavras duras, incluindo xingamentos diretos ao árbitro, além de gestos considerados desrespeitosos. Em outro, novamente houve protestos exagerados, com comportamento considerado contrário à ética esportiva, enquadrado no artigo 258 do CBJD.

E esse padrão não é novo. Ao longo de sua carreira, inclusive antes de chegar ao Brasil, Abel já demonstrava um perfil explosivo à beira do campo, acumulando expulsões por reclamações e confrontos com arbitragem. No Palmeiras, esse traço se intensificou, muitas vezes extrapolando o limite do aceitável.

Há uma diferença clara entre contestar decisões, algo natural no futebol, e transformar a reclamação em espetáculo constante. Abel frequentemente ultrapassa essa linha. Seja por gestos, ironias, invasões de espaço ou declarações públicas, o treinador cria um ambiente de tensão recorrente com a arbitragem e com o próprio sistema disciplinar. E é justamente aí que o rigor do STJD encontra justificativa.

A reincidência é um dos principais agravantes previstos no Código Brasileiro de Justiça Desportiva. Quando um profissional repete comportamentos considerados inadequados, a tendência natural é o aumento progressivo das punições. Ou seja, a suspensão pesada não surge apenas dos fatos recentes, mas de um acúmulo de episódios ao longo dos anos.

Nesse sentido, a decisão do tribunal pode até parecer dura e, de fato, é, mas dificilmente pode ser considerada surpreendente. Afinal, trata-se de um treinador midiático e esclarecido, que sabe bem o que está fazendo quando comete um ato de indisciplina.

Abel Ferreira: Entre o personagem e o prejuízo esportivo

Abel Ferreira vem sofrendo com expulsões em sequência
Abel Ferreira vem sofrendo com expulsões em sequência (Imagem: Jota Erre/AGIF)

O grande dilema envolvendo Abel Ferreira está na dualidade entre o treinador brilhante e o personagem indisciplinado. Dentro de campo, ele é o técnico mais vitorioso da história do Palmeiras, acumulando títulos e mantendo o clube competitivo em alto nível. Fora dele, no entanto, sua postura frequentemente prejudica o próprio time.

Suspensões como essa têm impacto direto no rendimento esportivo. A ausência do treinador em jogos importantes, como um clássico contra o Corinthians, afeta a condução da equipe, o ambiente emocional e até decisões estratégicas durante a partida.

Mais do que isso, há um desgaste institucional. O Palmeiras se vê constantemente obrigado a recorrer, emitir notas oficiais e lidar com julgamentos, um cenário que desvia o foco do futebol, algo danoso para o clube.

Por isso, embora seja legítimo questionar o peso da punição, também é necessário reconhecer que Abel Ferreira contribui ativamente para esse tipo de situação. Seu comportamento à beira do campo e nas entrevistas coletivas, frequentemente carregado de críticas contundentes e até exageradas, alimenta um ciclo de conflito que inevitavelmente desemboca em sanções mais severas.

No fim das contas, o caso expõe uma verdade incômoda: o rigor aplicado ao treinador português pode ser excessivo em termos isolados, mas é, ao mesmo tempo, consequência direta de uma postura que se repete há anos.

Se quiser evitar novas punições desse calibre, Abel Ferreira precisará ajustar não seu conhecimento tático, que é indiscutível, mas sua relação com o ambiente ao redor do jogo. Porque, no futebol brasileiro, talento nunca esteve em julgamento. Disciplina, sim.

(Imagem de capa: Rodrigo Valle/Getty Images)