Automobilismo Fórmula 1

O abismo entre Verstappen e seus companheiros é culpa da Red Bull

A Fórmula 1 sempre viveu de rivalidades internas. Grandes duplas fazem parte da mitologia do esporte: Senna e Prost na McLaren, Hamilton e Rosberg na Mercedes, Alonso e Hamilton na McLaren de 2007. Duas forças dentro da mesma garagem, puxando os limites uma da outra. A Red Bull, no entanto, parece ter optado por um caminho diferente: um piloto dominante e um eterno escudeiro. Ou pior, um figurante. E esse piloto dominante, claro, é Max Verstappen.

Não há dúvidas de que Verstappen é um talento histórico. Desde sua estreia precoce, o holandês mostrou que estava no patamar dos grandes. Nos últimos anos, ele elevou o sarrafo absurdamente: veloz, preciso, constante e, acima de tudo, mentalmente quase imbatível.

Em 2024, levou o título de pilotos com folga enquanto seu companheiro, Sergio Pérez, naufragava corrida após corrida. Em 2025, a Red Bull buscou alternativas e passou por Liam Lawson e Yuki Tsunoda e, incrivelmente, a situação conseguiu piorar.

Mas a pergunta inevitável é: será que todos esses pilotos que falharam ao lado de Max são realmente tão ruins assim? Ou existe algo mais profundo na forma como a Red Bull estrutura sua equipe que impede que qualquer outro piloto floresça?

Um carro feito só para Verstappen

Max Verstappen comemorando a vitória em Ímola
Max Verstappen comemorando a vitória em Ímola (Imagem: Jakub Porzycki / Reuters)

Uma das maiores críticas que se faz à Red Bull, e com razão, é a tendência de moldar o carro inteiramente ao estilo de Verstappen. O holandês gosta de um carro extremamente responsivo na frente e nervoso na traseira, algo que poucos pilotos conseguem domar. Pierre Gasly, por exemplo, sofreu com isso em 2019. Alex Albon não conseguiu se adaptar. Pérez teve lampejos, mas nunca foi consistente. Agora é a vez de Tsunoda encarar esse desafio e, mais uma vez, o padrão se repete.

É claro que uma equipe deve ouvir seu piloto principal, especialmente quando ele entrega títulos com tanta frequência. Mas isso não pode significar ignorar completamente o outro lado da garagem. Se o carro é tão voltado para um estilo de pilotagem específico, fica quase impossível para qualquer piloto “normal” competir em pé de igualdade. A equipe praticamente condena o segundo piloto ao fracasso desde o início.

Além do aspecto técnico, existe o ambiente interno. Ser companheiro de Verstappen significa, na prática, estar em constante comparação com um dos maiores talentos da história. A Red Bull não ajuda nesse sentido. A cobrança pública (alô Helmut Marko!), a falta de proteção institucional e a cultura de pressão constante transformam o cockpit do segundo carro em uma panela de pressão.

Há uma diferença entre exigir desempenho e destruir a confiança de um piloto. O histórico recente da Red Bull mostra uma tendência preocupante: pilotos jovens sendo promovidos rapidamente, não entregando o esperado, sendo expostos publicamente e, em seguida, descartados.

Se Tsunoda ou Lawson não são Verstappen e, sejamos francos, ninguém mais é, isso não deveria ser motivo para desespero. A Red Bull precisa aprender a lidar com diferentes perfis, diferentes ritmos de crescimento. A paciência que tiveram com Max, desde seus erros no início da carreira até a maturação completa, nunca foi estendida a mais ninguém.

Um futuro nebuloso pela frente

Em 2024, a Red Bull perdeu o título de Construtores. Não por causa de Verstappen, mas porque o outro carro simplesmente não pontuava o suficiente. Em 2025, a coisa piorou e a tendência futura com um motor completamente novo para o ano que vem é ainda pior. Se o segundo carro da Red Bull continuar sendo irrelevante, títulos e campeonatos começarão a escapar com mais frequência.

Verstappen é um fenômeno. Talvez o piloto mais completo desde Schumacher. Mas é ingênuo (ou conivente) achar que todos os seus companheiros de equipe foram, coincidentemente, incapazes. A Red Bull criou um sistema técnico e psicológico que gira exclusivamente ao redor de um piloto e isso tem consequências claras.

Yuki Tsunoda e Liam Lawson, os últimos "péssimos companheiros" de Verstappen na Red Bull
Yuki Tsunoda e Liam Lawson, os últimos “péssimos companheiros” de Verstappen na Red Bull (Imagem: Mark Thompson / Getty Images file)

Para o bem da equipe, para a saúde da competição interna e para a própria longevidade de seus projetos, a Red Bull precisa repensar sua abordagem. Um segundo piloto competitivo não é uma ameaça ao status de Verstappen, é uma proteção contra quedas de rendimento, uma arma estratégica, e, quem sabe, a chave para retomar a hegemonia que começa a escapar.

Enquanto isso não acontecer, da forma que as coisas estão, o “segundo assento” da Red Bull continuará sendo o pior lugar para se estar na Fórmula 1.

(Imagem de capa: AP Photo/Andre Penner)