Israel Adesanya é um dos nomes mais emblemáticos da história do UFC, mas vive hoje um dilema que acompanha quase todos os grandes campeões do esporte: continuar lutando ou se aposentar? Dono de um estilo único, títulos expressivos e enorme apelo junto ao público, o nigeriano naturalizado neozelandês atravessa o momento mais delicado de sua carreira. Nas últimas três vezes em que pisou no octógono, Adesanya saiu derrotado — uma sequência inédita em sua trajetória no MMA profissional. Diante desse cenário, o ex-campeão dos médios parece ter redefinido suas prioridades. Segundo ele próprio, o foco agora não está mais em conquistas históricas, mas em algo mais simples: se divertir.
Adesanya completará, em fevereiro de 2026, um ano longe das lutas. O período de inatividade alimentou rumores sobre uma possível aposentadoria, tema que passou a fazer parte de sua rotina fora dos Estados Unidos. Questionado sobre o assunto, o lutador explicou como tem lidado com a pressão e a curiosidade dos fãs. “Sempre que estou em Auckland, todos os dias me perguntam: ‘Ah, você está aposentado?’”, disse Adesanya durante uma sessão de perguntas e respostas na Bangtao Muay Thai & MMA, na Tailândia. “No começo, eu tinha que me explicar, tipo: ‘Não, estou só dando um tempo e fazendo outras coisas’. Mas agora eu simplesmente digo: ‘Sim, estou aposentado’. Até que me vejam em um pôster.”
A declaração, dita em tom bem-humorado, reflete o momento de transição vivido pelo atleta. Aos 30 e poucos anos, Adesanya não enfrenta limitações extremas de idade, mas carrega um histórico pesado de lutas de alto nível, camps intensos e cobranças constantes por desempenho. O afastamento pode ser lido tanto como uma pausa estratégica quanto como um indício de que o fim da carreira se aproxima.
Adesanya quer se divertir
Conhecido pelo jeito irreverente de lutar, pelas provocações criativas e por movimentos pouco ortodoxos dentro do octógono, Adesanya deixou claro que, se voltar a competir, não será movido pela obsessão por cinturões. O atleta revelou que pensa em fazer mais algumas lutas antes de pendurar as luvas, mas com uma abordagem diferente da que teve como campeão dominante da divisão dos médios.
“Para mim, não se trata mais de cinturões”, disse Adesanya. “Tenho dois cinturões brilhantes em casa. Eles são bonitos. Eu só quero lutar. Só quero fazer as coisas como fazia quando estava no caminho para conquistar o cinturão. Eu ainda lutava muito bem quando defendia o cinturão, mas quero lutar com mais liberdade. Quero tentar algumas coisas arriscadas como fazia antes. Lembram da luta contra o Brad Tavares? Acho que no primeiro round tentei um rolamento Imanari que falhou. Quero tentar coisas assim de novo.”
A fala revela um lutador mais desapegado dos resultados e mais interessado na experiência. Em um esporte cada vez mais orientado por rankings, títulos e números, Adesanya sinaliza um retorno às origens, quando a criatividade e a ousadia eram marcas centrais de seu jogo.
Limitações físicas e novo papel na divisão
Apesar do discurso leve, a realidade esportiva impõe questionamentos. O ex-campeão dos pesos médios não parece ter mais as mesmas condições físicas e competitivas para enfrentar o topo da divisão. Nas últimas apresentações, Adesanya foi amplamente dominado por Nassourdine Imavov, Dricus Du Plessis e Sean Strickland, sofrendo derrotas que expuseram dificuldades tanto no ritmo quanto na adaptação a estilos mais agressivos e físicos.
Ainda assim, isso não significa que sua presença no UFC tenha perdido valor. Pelo contrário. Adesanya continua sendo um nome de peso, capaz de atrair audiência, vender eventos e servir como teste importante para atletas em ascensão. Lutas contra nomes que estão surgindo na divisão podem ser interessantes tanto esportivamente quanto comercialmente, permitindo ao ex-campeão competir em um nível mais compatível com seu momento atual.
Nesse contexto, Adesanya pode assumir um novo papel: o de veterano carismático, que luta para se expressar, entreter e celebrar o esporte, sem a pressão de carregar a divisão nas costas. Se essa será a última fase de sua carreira, ainda é cedo para afirmar. Mas, ao que tudo indica, se houver um retorno, ele será guiado mais pelo prazer de lutar do que pela busca incessante por glória.
Foto: Reprodução/UFC