Alemanha e Itália se enfrentam no próximo domingo (23) em duelo válido pelas quartas de final da UEFA Nations League 2024/2025. As duas seleções tradicionais somam glórias que dão a elas um olhar diferenciado, no que se refere ao elenco e futebol praticado. Diante disso, a Mannschaft e a Azzurra fazem um duelo rico em histórias emocionantes, títulos conquistados em território rival, e claro, personagens lendários dos quais o fã do esporte com bola rolando jamais esquecerá.
Dentro do mundo das estatísticas, não há prova que invalide o fato de que a Alemanha nunca ganhou da Itália em competições oficiais de peso. São 38 partidas disputadas entre as equipes, com 10 vitórias da Alemanha, 13 empates e 15 triunfos da Itália. Mas, dentro desse retrospecto, em Copas do Mundo e Eurocopas, não há registros de êxitos alemães em cima dos italianos no tempo normal — exclui-se disputa por pênaltis.
Além disso, a rivalidade transcende para o contexto das conquistas de títulos mundiais, com cada uma vencendo nos domínios da outra. Sob a ótica da historiografia futebolística, confira aqui alguns jogos icônicos entre alemães e italianos:
Itália 4 x 3 Alemanha – Semifinal da Copa do Mundo de 1970

“O jogo do século”
Com um público com mais de 100 mil pessoas no Estádio Azteca, italianos e alemães estiveram frente a frente para duelar por uma vaga na final da Copa do Mundo de 1970. O elenco forte da Itália propunha um certo favoritismo no duelo, em vista que eram considerados postulantes a conquista da Jules Rimet. Do outro lado, os alvinegros tinham dois jogadores que guiavam um time aguerrido e que conseguiu reverter um resultado de forma heroica nas quartas de final, ao baterem a Inglaterra por 3 a 2. Franz Beckenbauer e Gerd Müller eram dois ícones e, em respeito aos fãs, poupa-se os comentários para descrever a habilidade dessas lendas.
A partida começou com uma dinâmica morosa, porém, ainda sim, as redes balançaram. Boninsegna aproveitou a sobra de bola, na entrada da área alemã, para abrir o placar. A inauguração do marcador para o “lado azul” deixou o público mais tendenciado a acreditar numa vitória tranquila dos italianos, mas isso não se concretizou. Para a surpresa de milhões de torcedores, o treinador da Azzurra ordenou que seus subordinados baixassem as linhas e, para piorar, fez uma troca que convidou os oponentes a virem para o campo de ataque — sacando Mazzola e colocando Rivera.
No segundo tempo, a leitura do técnico alemão foi precisa e concedeu exatamente o que seu time necessitava naquelas condições: ofensividade. Helmut Schön trocou Patzke (zagueiro) e Lohr (meia) por Labuda e Held, ambos atacantes. A Mannschaft se lançou ao ataque, vendo que os comandados de Valcareggi apenas cadenciavam a posse de bola. Sendo assim, erro de um lado, prêmio para o outro. Mas, as circunstâncias em que o empate foi conquistado foi uma verdadeira cena memorável na história das Copas do Mundo.

A resiliência das águias se deu pelo fato de que martelaram até o final o time italiano, que ficara cada vez mais acuado. O drama ficou ainda pior quando Beckenbauer, principal estrela dos alemães, sofreu uma pancada que quebrou sua clavícula. Para o ledo engano dos médicos, Die Kaiser ao invés de sair de campo e ver sua equipe tentar um empate improvável, resolveu enfaixar o braço e continuar jogando — mas, claramente, tomando cautela e restringindo-se a movimentos simples, sem dribles e jogadas de contato.
O empate veio na base da insistência. Grabowski, vindo pela esquerda, cruzou para o cabeceio certeiro de Schnellinger, que estava sem marcação. O jogo terminou logo em sequência e o que parecia dubitável, se consolidou. O certame seria decidido na prorrogação e, esta sim, foi uma verdadeira “chuva de gols”.
Na primeira parte do tempo extra, os alvinegros, embalados pelo empate, buscaram a virada. Gerd Müller, artilheiro oportunista, aproveitou a bobeira da zaga italiana para fazer 2 a 1, logo aos quatro minutos da prorrogação. A Itália aparentava precisar desse “choque de realidade” para voltar para a disputa. Atrás do placar, a squadra conseguiu o empate com Burgnich, após a cobrança de falta de Rivera — em um lance em que a própria zaga alemã se atrapalhou.
O ímpeto reanimou a Azzurra, que retornou à frente do placar, em uma jogada magistral. Como foi dito, se de um lado temos Beckenbauer, do outro havia “Gigi” Riva. No minuto 13 da prorrogação, o camisa 11 italiano demonstrou toda sua genialidade ao gingar na frente da marcação, limpá-la e arrematar de forma brilhante — um lindo gol, que não havia como Sepp Maier defender. Este foi o final dos primeiros quinze minutos. Contudo, para alegria de todos, tinha mais emoção guardada para a outra parte do tempo extra.
Assim como na primeira parte, Müller, marcou mais uma vez. O camisa 13 da Mannschaft testou para o fundo das redes de Albertosi: 3 a 3. Naquela altura do jogo, Die Kaiser orientava a equipe como um “técnico dentro de campo” e capitaneava a Alemanha para o primeiro triunfo diante da Itália — se não fosse Rivera, aquele que iria “arrancar as penas das águias”.
“Gianni” acertou uma pancada depois do cruzamento de Boninsegna vindo da esquerda. O gol da glória italiana veio apenas um minuto depois do gol de empate alemão, e esse foi o último suspiro de alegria da partida, encerrada em 4 a 3. A Squadra Azzurra se caminhou para a final contra o Brasil, já a Alemanha rumou para a disputa de terceiro lugar. Este foi o fim daquele que é considerado, até hoje, como “O jogo do século”.
Alemanha 1 x 3 Itália – Final da Copa do Mundo de 1982

Paolo Rossi: Herói da Copa e carrasco da Seleção Brasileira
12 anos depois da grandiosa semifinal entre as equipes, Alemanha e Itália tiveram um reencontro na final de 1982. O estádio Santiago Bernabéu presenciava duas campanhas de respeito. A Azzurra conseguiu seu passaporte para Madri ao bater o poderoso time da Polônia nas semifinais, mas não somente isso: o time de Rossi e companhia derrotou o principal candidato a conquista daquela edição de Copa do Mundo: o Brasil.
Die Mannschaft, por outro lado, chegou na final completamente exausta, pois vinham de um jogo árduo contra a França. Os alemães jogaram 120 minutos, e mesmo assim, nada foi decidido no tempo normal, seguindo para os pênaltis — em que as águias saíram vitoriosas.
Naquele dia, 90 mil pessoas estiveram presentes no estádio do Real Madrid para acompanhar mais um passeio da Itália. O prenúncio foi dado logo no início da partida, quando o domínio foi todo da Azzurra. O time de Enzo Bearzot teve a oportunidade de abrir o marcador de pênalti, mas Cabrini acabou fracassando no arremate. Porém, nada era possível para bater aquele elenco da Itália.

Os trabalhos foram abertos com Paolo Rossi, no segundo tempo. O algoz do Brasil foi às redes, aos 11 minutos e marcou seu sexto gol naquela Copa do Mundo, se isolando na artilharia do torneio. Tardelli, aos 24 minutos ampliou a vantagem dos azuis e Altobelli fez 3 a 0 aos 35 minutos. A Mannschaft só teve como diminuir a vantagem com Breitner, 3 a 1. No entanto, nenhuma reação seria páreo para aquele que estava destinado a ser o tricampeonato da Azzurra.
Alemanha 0 x 2 Itália – Semifinal da Copa do Mundo de 2006

“Berlim, aí vamos nós!”
Anfitriã da edição, a Alemanha fez uma campanha primorosa naquela Copa do Mundo. O time de Jürgen Klinsmann superou as expectativas da imprensa local e chegou nas semifinais batendo adversário difíceis: a Suécia, de Ibrahimovic, Ljungberg, Larsson e Isaksson nas oitavas; e a Argentina, de Riquelme, Messi, Crespo e Sorín nas quartas.
A Itália fez uma campanha segura, mas não teve a mesma dificuldade que seus adversário para chegar a semifinal. O elenco de Marcelo Lippi vivia quase o mesmo contexto da Copa de 82. A Itália vivia uma crise em seu futebol nacional, quando descobriram mais um escândalo de manipulação de resultados, um episódio que ficou conhecido como Il Calciopoli. A desconfiança pairava sobre o time italiano que faria de tudo para conquistar a taça e arrefecer o clima em seu território. Na campanha, o time de Buffon, Cannavaro e Totti superou a Austrália de Harry Kewell e Mark Schwarzer nas oitavas; e bateu a Ucrânia de Shevchenko e Tymoshchuk nas quartas.
Por mais que naquela época o retrospecto já fosse digno de uma freguesia alemã perante a Itália, havia um fator que amargava o coração dos torcedores da Azzurra. A Alemanha, 16 anos antes, havia sido tricampeã mundial na Copa em que a Itália sediou o torneio, o que caiu mal nas graças dos fãs do Calcio. Isso certamente veio a mente de Marcelo Lippi, que colocou a campo o que de melhor tinha a disposição. Já Jürgen Klinsmann contava com o apoio dos alemães — maioria no estádio em Dortmund, uma vez que as águias que eram os donos da casa.
A partida não acompanhou , dentre todos os aspectos citados, a fervura do pré-jogo. Desse modo, os 90 minutos, assim como em 1970, não eram suficientes para que duelo entre Alemanha e Itália tivessem um vencedor. Certamente, como nos velhos tempos, a emoção foi guardada para a prorrogação e surgiu um herói improvável para o time da Itália, naquilo que seria o penúltimo passo ante o tetracampeonato.
Nos quinze minutos primários, a Itália acertou a trave duas vezes. A primeira foi com Alberto Gilardino, depois de uma bela jogada de linha de fundo do atacante. Na sequência, foi a vez de Simone Perrotta carimbar o travessão de Jens Lehmann. A Alemanha chegou a perder uma boa chance com Lukasz Podolski, que estava sozinho para cabecear, mas o jovem, portador da camisa 20, não aproveitou a oportunidade.
No segundo tempo, o atacante alemão novamente teve a chance abrir o placar, mas parou em Gianluigi Buffon, que fez uma defesa monumental. O drama seguiu e, finalmente, aos 119 minutos, o personagem daquela conquista surgiu: Fabio Grosso.

No escanteio cobrado por Alessandro Del Piero — guarde este nome —, a zaga alemã afastou mal e Andrea Pirlo pegou o rebote na entrada da área. O meio campista do Milan achou um passe para Fabio Grosso, que marcou um golaço. A finalização de pé esquerdo foi no canto oposto de Lehmann, que se esticou até a ponta dos dedos, mas a bola encontrou a “bochecha na rede”. A comemoração foi efusiva e até Buffon se deslocou até o meio campo para comemorar com o lateral esquerdo, autor do tento e que futuramente bateria a penalidade que coroou a Azzurra no Olympiastadion.

Como mencionado anteriormente, Del Piero foi um nome importante no certame. No ataque da Alemanha, Fabio Cannavaro interceptou a jogada, ganhou no pé de ferro de Podolski e entregou para Totti. O camisa 10 serviu Gilardino que estava sozinho no ataque. O centroavante esperou o momento exato para passagem do Pinturicchio, que com requintes de crueldade, chapou a bola no ângulo e sacramentou a vaga para a final em Berlim. O choro alemão tomou conta do ambiente e a noite em Dortmund foi longa para a Itália, que festejou mais uma vez perante as águias.
Alemanha 1 x 2 Itália – Semifinal da Eurocopa de 2012

Super Mario! Mas, que não é o Gómez!
Em Varsóvia, a semifinal da Euro de 2012 contou com mais um herói: Super Mario. Em homenagem ao personagem de videogame, o apelido foi brindado a dois atletas que estavam em campo naquele duelo. Pelo lado alemão, Mario Gómez, estrela do Bayern de Munique e vice-campeão da Champions 2011/12. Do outro, Mario Balotelli, atacante da Itália que despunha de uma força sobrenatural e campeão da Premier League com o Manchester City naquela temporada. Um codinome, dois centroavantes e só um deles passou para a final em Kiev.
A Mannschaft já apresentava a “espinha dorsal” do time campeão mundial em 2014. A predominância de atletas do Bayern de Munique e do Borussia Dortmund era uma realidade dentro daquele plantel. Neuer, Boateng, Lahm, Schweinsteiger, além do próprio Mario Gómez figuravam alguns nomes dos Bávaros naquela convocação. Hummels, Reus, Gündogan, Götze e entre outros, eram aqueles que representavam os Aurinegros na seleção alemã.
Com bola rolando, Alemanha de Joachim Löw fez o que podia para tentar furar o bloqueio montado pelos italianos de Cesare Prandelli, mas não teve êxito na investida. O setor de defesa, especialidade do calcio, fez um trabalho espetacular. A tríade da Juventus, Bonucci, Chiellini e Barzagli foram verdadeiros guerreiros nos combates e neutralizaram as investidas pelos lados, bem como no jogo aéreo.
A frente deles, estavam nomes que foram campeões mundiais em 2006 e que coordenaram o meio campo da Azzurra: De Rossi e Pirlo. O volante da Roma dominou o setor e a performance no certame revelava seus aprendizados com Gattuso, que se aposentara da seleção italiana. Andrea, experiente e multicampeão com o Milan, havia se transferido para a rival Juventus, fica responsável pela saída de bola e, como de costume, demonstrava sua categoria tão admirada pelos torcedores.

No primeiro tempo, Balotelli começa seu show e abre o placar num toque de cabeça letal. O atacante recebeu o cruzamento de Cassano e foi mais rápido que o zagueiro Badstuber para saltar. A testada foi no contrapé de Neuer, que nada pôde fazer.
Minutos depois, na puxada de contra-ataque, Montolivo achou um lançamento espetacular para o camisa 9, que estava em posição legal — Lahm dava condição. Balotelli carregou e fuzilou o barbante alemão, ampliando a vantagem. O arremate do atacante foi tão potente que Neuer sequer se mexeu para defender.
Para preservação da paciência dos fãs, despreza-se boa parte do segundo tempo repleto de tentativas ineficientes da Alemanha. O time de Löw só conseguiu diminuir o placar nos acréscimos, em um pênalti. Na batida, Mesut Özil fez o gol de honra da Mannschaft, eliminada, novamente, pela Itália.
Quem será que vence amanhã?
Com a vitória por 2 a 1 na ida em Milão, a Alemanha tem a vantagem do empate para encaminhar sua vaga entre os quatro melhores da Nations League. O jogo em Dortmund, novamente palco do embate entre as equipes, promete muita emoção e histórias para serem contadas no futuro.
O vencedor do duelo entre a Mannschaft e a Azzurra enfrentará Portugal ou Dinamarca nas semifinais. O pós-jogo desse clássico estará disponível na Playmaker Brasil, assim como o resumo desta fase eliminatória da Nations.