Fernando Alonso chega aos 45 anos cercado por uma realidade curiosa. Ao mesmo tempo em que está entre os pilotos mais experientes da história recente da Fórmula 1, continua sendo citado como alguém capaz de alcançar recordes que sobreviveram por décadas. O bicampeão mundial conquistou seu último título quando tinha apenas 25 anos. Desde então, voltou a disputar campeonatos em diferentes momentos da carreira, mas nunca mais teve à disposição um carro que lhe permitisse lutar de forma consistente pelo Mundial de Pilotos.
O futuro do espanhol também permanece indefinido. Alonso já afirmou que sua permanência na Fórmula 1 depois de 2026 dependerá muito mais do impacto do próximo regulamento técnico do que do pacote de atualizações da Aston Martin. Essa declaração mostra que sua decisão não está ligada apenas ao desempenho atual da equipe, mas principalmente à expectativa de que a nova geração de carros possa alterar novamente a ordem de forças da categoria.
Caso continue competindo e volte a ter um equipamento capaz de disputar vitórias regularmente, Alonso ainda terá oportunidades de alcançar marcas históricas que hoje parecem distantes, mas permanecem matematicamente possíveis.
O recorde de Fangio ainda pode entrar no radar
O maior objetivo seria também o mais simbólico. Se Alonso conquistar outro título mundial, poderá se tornar o campeão mais velho da história da Fórmula 1, superando uma marca estabelecida por Juan Manuel Fangio em 1957. O argentino conquistou seu quinto e último campeonato aos 46 anos e 41 dias, um recorde que atravessou quase sete décadas sem ser ameaçado de forma concreta.
Alonso completa 46 anos na próxima temporada. Isso significa que, caso encontre um carro competitivo e consiga disputar o campeonato até o fim, ainda existe a possibilidade de superar Fangio. Na prática, porém, o desafio é enorme.
Ao longo da temporada atual, a Aston Martin não ofereceu um equipamento capaz de colocar Alonso na disputa pelas primeiras posições. Assim, a possibilidade de um título depende muito mais de uma mudança significativa de competitividade do que apenas do talento do piloto. Se isso acontecesse, haveria outro feito histórico.
Alonso seria o primeiro piloto com mais de 40 anos a conquistar um campeonato mundial desde Jack Brabham, campeão em 1966. O tamanho desse intervalo ajuda a mostrar como a Fórmula 1 moderna se tornou um ambiente cada vez mais dominado por pilotos mais jovens, tornando qualquer conquista nessa faixa etária ainda mais relevante.
Pole positions e voltas mais rápidas continuam ao alcance
Mesmo que um terceiro título mundial não aconteça, Alonso ainda pode quebrar outros recordes importantes relacionados à longevidade. Caso permaneça na Fórmula 1 até a temporada de 2028, poderá disputar duas marcas históricas: tornar-se o piloto mais velho a conquistar uma pole position e também o mais velho a registrar a volta mais rápida de uma corrida.
O recorde de pole pertence a Giuseppe Farina, que largou na frente no GP da Argentina de 1954 aos 47 anos e 79 dias. Essa marca permanece intacta há 72 anos. Já a volta mais rápida continua sendo de Fangio, registrada também no GP da Argentina, em 1958, quando tinha 46 anos e 209 dias.
Esses recordes mostram uma característica interessante. Diferentemente das vitórias ou dos títulos, uma pole position ou uma volta mais rápida podem depender de circunstâncias específicas de um fim de semana. Um carro competitivo em determinada etapa pode ser suficiente para colocar um piloto experiente em condições de alcançar esse tipo de resultado.
Naturalmente, Alonso ainda precisaria de um equipamento capaz de disputar as primeiras posições, algo que a Aston Martin não conseguiu oferecer nesta temporada. Mas, considerando apenas a questão da idade, essas marcas permanecem acessíveis caso sua carreira se estenda por mais alguns anos.
O tempo também pode transformar cada vitória em um novo recorde
Existe outro grupo de marcas que depende menos da idade e mais do intervalo entre grandes resultados. Alonso não vence uma corrida desde o GP da Espanha de 2013. Se voltar ao lugar mais alto do pódio, estabelecerá automaticamente um dos maiores intervalos entre vitórias da história da Fórmula 1.
Hoje, esse recorde pertence a Riccardo Patrese. Entre seu triunfo no GP da África do Sul de 1983 e a vitória em San Marino, em 1990, passaram-se seis anos, seis meses e 28 dias. Situação semelhante acontece com as pole positions.
O recorde atual pertence a Kimi Räikkönen, que ficou oito anos, 11 meses e seis dias entre a pole conquistada no GP da França de 2008 e a obtida em Mônaco, em 2017. No caso dos campeonatos, o cenário seria ainda mais impressionante.
Em 2026 completam-se 20 anos desde o bicampeonato conquistado por Alonso. Se ele voltar a ser campeão antes de encerrar a carreira, estabelecerá com ampla margem o maior intervalo entre dois títulos mundiais. O recorde atualmente pertence a Niki Lauda, que voltou a conquistar o campeonato sete anos depois de seu título anterior ao vencer pela McLaren em 1984.
Todas essas possibilidades dependem do mesmo fator: Alonso precisa voltar a pilotar um carro competitivo. Sem isso, os recordes permanecem apenas como projeções. Com um equipamento capaz de disputar vitórias, várias dessas marcas passariam imediatamente a fazer parte da conversa.
Alguns recordes pertencem praticamente a outra era da Fórmula 1
Se algumas marcas ainda parecem possíveis, outras permanecem praticamente inalcançáveis. O exemplo mais evidente é o recorde de piloto mais velho a vencer uma corrida. Ele pertence a Luigi Fagioli, vencedor do GP da França de 1951 aos 53 anos e 22 dias. Para superar essa marca, Alonso precisaria continuar correndo até 2034, um cenário extremamente improvável.
Há desafios ainda maiores. Louis Chiron continua sendo o piloto mais velho a disputar um Grande Prêmio, iniciando o GP de Mônaco de 1955 aos 55 anos e 292 dias. O monegasco também detém o recorde de piloto mais velho inscrito em uma etapa da Fórmula 1. Em 1958, participou da inscrição para o GP de Mônaco aos 58 anos e 277 dias, embora não tenha conseguido a classificação para a corrida.
Para quebrar essa marca, Alonso precisaria permanecer na categoria até aproximadamente a temporada de 2040. Esses números ajudam a mostrar como a Fórmula 1 mudou ao longo das décadas. Nas primeiras décadas do campeonato, era relativamente comum encontrar pilotos competindo em idade muito mais avançada. Hoje, a exigência física, a preparação técnica e o desenvolvimento das equipes fazem com que carreiras tão longas sejam exceções.
Por isso, ainda que algumas marcas históricas permaneçam matematicamente possíveis para Alonso, outras pertencem praticamente a um contexto completamente diferente da categoria. Aos 45 anos, porém, o espanhol continua ocupando um lugar raro na Fórmula 1. Seu futuro ainda depende das mudanças de regulamento previstas para os próximos anos, mas sua permanência no grid mantém abertas possibilidades que poucos imaginavam quando ele conquistou seu segundo título mundial, duas décadas atrás.
Se a Aston Martin, ou qualquer outra equipe, conseguir oferecer um carro competitivo, Alonso poderá transformar a reta final da carreira em mais um capítulo histórico. Caso contrário, seu legado permanecerá intacto como um dos pilotos que desafiaram o tempo por mais tempo na Fórmula 1 moderna.
Foto: (Fórmula 1)



