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Automobilismo Fórmula 1

Como o relacionamento entre Fórmula 1 e Disney pode crescer nos próximos anos

A relação entre Disney e Fórmula 1 pode ter um potencial muito maior do que as colaborações pontuais já realizadas entre as duas marcas. Essa é a tese central apresentada, que enxerga uma possível aproximação mais profunda entre as empresas a partir de três áreas: conteúdo, experiências e licenciamento. O argumento fica particularmente interessante quando se observa o desempenho da franquia Cars. A propriedade intelectual da Disney já gerou mais de US$ 10 bilhões em receitas de merchandising, apesar de ser baseada em veículos fictícios e não ter uma ligação direta com o automobilismo real.

A partir daí, surge uma possibilidade bastante clara: imaginar uma série animada de Fórmula 1 produzida pela Disney Animation ou pela Pixar, com personagens originais associados às equipes e aos circuitos reais. A ideia seria criar um universo capaz de acompanhar o próprio calendário da categoria. Poderiam existir personagens ligados à Ferrari e à McLaren, enquanto episódios seriam ambientados em locais como Mônaco, Suzuka e Silverstone. A cada temporada, o conteúdo animado acompanharia a temporada real da F1, fazendo com que os dois universos se alimentassem mutuamente.

O potencial desse modelo estaria justamente na capacidade de criar uma conexão duradoura com o público infantil. Uma criança poderia escolher sua equipe favorita de maneira semelhante à escolha de uma casa de Hogwarts e permanecer ligada a ela ao longo dos anos. Ao mesmo tempo, adultos poderiam encontrar referências e humor direcionados a um público mais velho, algo que a Pixar já demonstrou saber fazer.

Nesse cenário, a relação comercial deixaria de depender de um único filme ou de uma coleção temporária de produtos. Seria criada uma conexão contínua entre conteúdo, produtos e esporte ao vivo. A corrida real alimentaria a produção de conteúdo, que estimularia o consumo de produtos, enquanto os produtos ajudariam a manter a ligação do público com a categoria. É justamente esse tipo de ciclo que a Disney sabe explorar particularmente bem.

O licenciamento pode ser a grande oportunidade escondida

O segundo grande ponto está no licenciamento. E é aqui que o autor identifica uma diferença significativa entre o tamanho da Fórmula 1 e quanto ela efetivamente consegue extrair comercialmente de sua marca. As receitas classificadas como “outras receitas” da Fórmula 1, incluindo hospitalidade, licenciamento e merchandising, chegaram a US$ 787 milhões em 2025, com crescimento anual de 20%.

O número parece positivo isoladamente, mas ganha outra dimensão quando comparado ao alcance da categoria. A análise cita 6,75 milhões de espectadores presenciais e 1,8 bilhão de espectadores televisivos como indicadores do tamanho da audiência que a F1 consegue alcançar. O contraste fica ainda mais evidente diante de outros esportes. A NFL gera entre US$ 3 bilhões e US$ 4 bilhões por ano com licenciamento e merchandising, enquanto o mercado global de produtos licenciados de futebol supera US$ 11 bilhões.

A própria Ferrari oferece outro exemplo. Os resultados financeiros da fabricante mostram mais de € 800 milhões em receitas de patrocínio, atividades comerciais e marca em 2025. Essa categoria inclui patrocínios relacionados à F1, coleções de lifestyle, merchandising, licenciamento e royalties. Não é possível separar exatamente quanto desse valor vem apenas do licenciamento. Ainda assim, o dado é utilizado para mostrar uma questão importante: uma única equipe consegue gerar uma receita de monetização de marca superior à operação central de licenciamento e hospitalidade da própria Fórmula 1.

Isso não significa que a F1 tenha pouco valor comercial. Pelo contrário. A interpretação apresentada é que o valor existe, mas está fragmentado entre a categoria e as equipes, em vez de ser concentrado e ampliado por uma estrutura central. É justamente nesse ponto que a Disney aparece como uma possível parceira especialmente adequada.

A Disney Consumer Products possui uma enorme estrutura de licenciamento, incluindo relações com varejistas, equipes de design, redes de distribuição e experiência na transformação de propriedades intelectuais em produtos destinados a diferentes categorias e mercados. A questão, entretanto, é que a Fórmula 1 não controla integralmente os direitos de propriedade intelectual de suas equipes e pilotos. Ferrari, McLaren, Max Verstappen e Lewis Hamilton, por exemplo, possuem suas próprias marcas.

Para a análise, isso é uma limitação no modelo atual, mas poderia se transformar em uma oportunidade em uma eventual estrutura envolvendo a Disney. A empresa poderia oferecer às equipes e aos pilotos acesso a uma rede global de licenciamento muito maior do que aquela que conseguiriam construir individualmente. Um sistema de divisão de receitas, no qual equipes e pilotos disponibilizassem suas marcas dentro de um programa centralizado de licenciamento, poderia então criar uma relação comercial mutuamente vantajosa.

Por que a Disney teria algo que outros compradores não possuem?

A possibilidade de uma aquisição da Fórmula 1 por um fundo de private equity ou por um fundo soberano do Oriente Médio aparece como uma alternativa mais convencional. Ambos têm capital e interesse em ativos esportivos de grande alcance. Mas a análise questiona se esses compradores seriam capazes de fazer algo além de otimizar o negócio que já existe.

Um fundo de private equity ou um fundo soberano é, essencialmente, um alocador de capital. Não possui naturalmente a mesma infraestrutura de licenciamento, estúdios de conteúdo, operações de parques temáticos ou distribuição de varejo que a Disney desenvolveu. Por isso, uma aquisição desse tipo poderia preservar o modelo de negócios atual e continuar expandindo a Fórmula 1 em um ritmo semelhante ao já estabelecido.

O problema é que isso não exploraria completamente os dois grandes espaços de crescimento identificados: conteúdo e produtos. Uma nova estrutura poderia criar uma franquia animada, produtos de consumo, experiências, circuitos transformados em destinos e até novas formas de entretenimento relacionadas à categoria. A diferença está justamente entre otimizar um negócio existente e construir um negócio diferente em torno dele.

A engenharia financeira pode melhorar o modelo atual, mas não necessariamente cria a infraestrutura necessária para transformar uma propriedade esportiva em uma franquia de entretenimento global. É por isso que a Disney aparece como uma candidata diferente. Seu valor potencial para a F1 não estaria apenas no dinheiro necessário para uma aquisição, mas na capacidade de conectar a categoria a negócios que já fazem parte de sua estrutura.

F1 poderia se tornar uma das maiores propriedades da Disney?

A análise vai ainda mais longe ao questionar qual seria o tamanho da Fórmula 1 caso a Disney conseguisse explorar plenamente seu potencial comercial. Marvel gera algo entre US$ 5 bilhões e US$ 6 bilhões por ano considerando filmes, streaming, merchandising e parques. Star Wars estaria na faixa de US$ 3 bilhões a US$ 4 bilhões, enquanto a franquia Disney Princess gera aproximadamente US$ 5,5 bilhões apenas em merchandising.

A hipótese apresentada é que a Fórmula 1 poderia acrescentar entre US$ 5 bilhões e US$ 8 bilhões em receitas anuais de conteúdo, licenciamento e experiências quando estivesse plenamente desenvolvida sob uma eventual administração da Disney.

Somadas às receitas existentes de promoção das corridas, direitos de mídia e patrocínios, estimadas no texto entre US$ 4 bilhões e US$ 5 bilhões, essas atividades poderiam levar a F1 a um nível comparável, ou até superior, ao de algumas das propriedades mais valiosas da Disney. Existe, porém, uma diferença estrutural importante. Marvel precisa investir bilhões de dólares todos os anos em produção de conteúdo para manter sua operação. A Fórmula 1, por outro lado, produz naturalmente seu próprio conteúdo a partir das corridas que já realiza.

São 24 novos episódios de uma narrativa esportiva real todos os anos, sem que a categoria precise produzir artificialmente a matéria-prima da história. Essa característica torna a F1, na visão apresentada, uma espécie de motor de conteúdo extremamente eficiente. As corridas fornecem constantemente novas histórias, personagens, rivalidades e acontecimentos que podem ser utilizados por diferentes plataformas.

Uma aproximação que pode estar longe de ser apenas uma parceria

O ponto mais interessante é que ela não afirma que uma aquisição esteja sendo negociada. O próprio autor deixa claro que não possui informações internas e não sabe se Disney ou Liberty Media chegaram a discutir seriamente essa possibilidade. A Fórmula 1 possui alcance global, uma base de fãs grande e crescente, conteúdo produzido continuamente, equipes com marcas extremamente fortes e uma capacidade de gerar experiências presenciais. A Disney, por outro lado, possui infraestrutura para transformar propriedades intelectuais em conteúdo, produtos e experiências distribuídos globalmente.

É essa combinação que torna a hipótese tão atraente para o autor. A análise estima o valor empresarial da Fórmula 1 em US$ 26 bilhões e a capitalização de mercado da Disney em aproximadamente US$ 170 bilhões. Também destaca que a Disney vem reduzindo sua alavancagem e já realizou uma aquisição de grande escala com a compra da Fox por US$ 71 bilhões em 2019.

A partir daí, o argumento passa a ser menos sobre o preço de compra e mais sobre o que a F1 poderia valer depois de uma transformação desse tipo. Se a receita de licenciamento e produtos de consumo da categoria pudesse sair de menos de US$ 1 bilhão para algo entre US$ 3 bilhões e US$ 4 bilhões, acompanhando o nível atribuído à NFL no texto, e se fossem acrescentadas receitas relevantes provenientes de experiências, circuitos próprios e conteúdo, a análise estima um potencial de receita total entre US$ 10 bilhões e US$ 13 bilhões dentro de uma década.

Nesse cenário hipotético, o valor do ativo poderia ultrapassar US$ 50 bilhões. Mas é importante preservar a natureza dessa projeção: trata-se de uma hipótese apresentada pelo autor, não de uma previsão oficial da Disney ou da Fórmula 1.

No fim, a questão proposta não é se a F1 é um bom ativo. Para o autor, isso já está estabelecido. A verdadeira questão seria identificar qual comprador teria capacidade de liberar o valor que ainda não está sendo explorado. E é aí que a Disney surge como a escolha aparentemente mais adequada dentro dessa tese.

A relação entre as duas empresas já se estende por anos, com colaborações e aproximações que continuam criando novas oportunidades. O autor lembra que, quase uma década atrás, chegou a surgir a ideia de colocar Lightning McQueen em uma garagem real de Fórmula 1. Desde então, Disney e F1 continuam se aproximando, mas sem chegar à conclusão maior sugerida nesta análise.

A Fórmula 1 já possui o esporte, a audiência e a narrativa. A Disney possui ferramentas para transformar esses elementos em uma franquia de conteúdo, produtos e experiências que ultrapassaria as pistas. Por isso, a possível aquisição não seria apenas uma mudança de proprietário. Seria uma tentativa de transformar a Fórmula 1 em algo maior do que uma categoria esportiva: uma propriedade global de entretenimento com capacidade de gerar receita durante todo o ano.

Se esse acordo realmente acontecesse, a história de como Disney e Fórmula 1 chegaram até ele poderia, por si só, virar conteúdo. Primeiro, uma série documental de seis episódios. Depois, talvez, um filme. A história da possível união entre Disney e F1 poderia acabar se tornando mais uma propriedade intelectual criada a partir da própria relação entre as duas empresas.

Foto: (Omelete)