Os rumores de que a Mercedes pretende adquirir parte das ações da Alpine indicam algo além de uma simples movimentação de mercado. A equipe francesa, pertencente ao grupo Renault, vem perdendo progressivamente o controle sobre suas próprias operações. O que começou com a decisão de abandonar o projeto de motor próprio e se tornar cliente da Mercedes pode, com a eventual aquisição, culminar na transformação da Alpine em uma equipe satélite das Flechas de Prata.
É natural imaginar que a negociação possa indicar que a equipe de Enstone deixe de ser apenas uma cliente. Na Fórmula 1, times clientes já são frequentemente utilizados como plataformas de desenvolvimento de pilotos por suas fornecedoras — caso da Haas (e anteriormente da Alfa Romeo) com a Ferrari —, além do exemplo mais extremo da Red Bull e da Racing Bulls, que formam um sistema de equipe A e B dentro da mesma companhia.
Outra questão relevante da possível aquisição de 24% da Alpine é o impacto disso nas outras equipes para quem a Mercedes fornece unidades de potência. Em 2026, além da Alpine, a fabricante alemã tem McLaren e Williams como clientes, e uma delas já veio a público reclamar que a parceira técnica não estaria fornecendo dados importantes para a operação do AMG M17.
O papel que teria uma equipe secundária da Mercedes

Seguindo a lógica vista entre Red Bull e Racing Bulls, a Alpine poderia servir como porta de entrada para pilotos do programa da Mercedes. Nesta temporada, a academia do time de Brackley conta com poucos nomes em níveis intermediários do automobilismo júnior, como Luna Fluxá (F4 dos Emirados Árabes) e Rashid Al-Dhaheri (Fórmulas Regionais), além dos reservas Frederik Vesti e Joshua Dürksen.
Esse cenário pode colocar em risco a continuidade de Franco Colapinto na equipe, já que sua titularidade é, em grande parte, sustentada pela influência de Flavio Briatore e pelos patrocínios que o argentino agrega.
Do ponto de vista esportivo, um vínculo mais estreito tende a trazer maior estabilidade a uma equipe que oscilou entre altos e baixos nas últimas temporadas. Com o compartilhamento de conhecimento técnico, a Alpine pode ganhar consistência no meio do pelotão.
Por outro lado, se a parceria seguir o modelo adotado por outras equipes, dificilmente se concretizará o antigo objetivo da ex-Renault e Lotus de voltar ao topo da Fórmula 1. No caso Red Bull–Racing Bulls, a diferença de desempenho sempre foi evidente, enquanto Haas e Alfa Romeo pouco avançaram além da faixa intermediária do grid. A equipe americana, porém, dá sinais de evolução em 2026 e ocupa a quarta posição no Mundial de Construtores após aprofundar sua relação com a Ferrari e firmar uma parceria operacional com a Toyota.
É importante destacar que, neste estágio inicial, a possível aquisição não envolve a totalidade da Alpine. O que está em negociação é a fatia pertencente ao grupo Otro Capital, que tem entre seus acionistas os atores Ryan Reynolds e Rob McElhenney — também proprietários de Wrexham e Necaxa, clubes do País de Gales e do México, respectivamente —, correspondente a 24% das ações da equipe.
Alpine teria benefícios em relação a outras clientes?
Diante das alegações de Andrea Stella (chefe da McLaren) de que a Mercedes estaria omitindo dados sobre a unidade de potência de suas equipes clientes, é natural a preocupação de que a Alpine possa receber um tratamento privilegiado.
Na prática, McLaren e Williams continuariam recebendo o componente conforme determina o regulamento, enquanto a equipe de Enstone supostamente poderia ter acesso a informações mais detalhadas sobre seu funcionamento.
As regras da Fórmula 1 exigem que os motores fornecidos sejam idênticos aos utilizados pela equipe de fábrica, o que, do ponto de vista técnico, sustenta a decisão da Mercedes de não compartilhar dados adicionais, embora isso possa desgastar a relação comercial e técnica entre as partes.
Para equipes do meio do pelotão — onde se projeta que esteja a Alpine no curto e médio prazo —, esse cenário cria uma dúvida relevante: até que ponto vale a pena ser cliente da Mercedes se uma concorrente direta puder contar com eventuais vantagens operacionais? É uma dor de cabeça extra para os diretores dos times.
Embora a negociação ainda não esteja concluída, a equipe liderada por Toto Wolff desponta como favorita a adquirir a participação. Flavio Briatore, conselheiro da Alpine, já mencionou publicamente o interesse dos alemães, enquanto o nome de Christian Horner, ex-chefe da Red Bull Racing, aparece como alternativa na disputa.
(Foto principal: Sam Bagnall / Sutton Images via Getty Images)



