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Amanda Nunes pode alcançar um feito jamais visto no MMA

O retorno de Amanda Nunes ao octógono mais famoso do mundo, marcado para 24 de janeiro, no UFC 324, diante de Kayla Harrison, movimentou completamente o cenário do MMA feminino. O peso histórico do combate vai muito além do simples retorno da leoa aposentada, caso Amanda vença, ela realizará um feito absolutamente inédito, entre homens e mulheres, ao derrotar todas as lutadoras com credenciais reais de Hall da Fama que passaram por sua categoria na história do Ultimate.

Ao longo de sua carreira, Amanda traçou uma linha divisória rigorosa entre “grandes lutadoras” e “as maiores de todos os tempos”. E ela conseguiu derrotar praticamente todas as candidatas ao Hall da Fama no peso-galo feminino. Seu currículo, já considerado por muitos o mais completo da história do MMA feminino, inclui nomes como Ronda Rousey, Cris Cyborg, Valentina Shevchenko, Holly Holm, Miesha Tate, Germaine de Randamie, Julianna Peña, entre outras.

São campeãs, pioneiras, recordistas, ícones culturais e atletas de elite que marcaram época. E todas elas, com exceção de Kayla Harrison, que chega agora, já sentiram, em maior ou menor grau, o peso da mão da brasileira.

A relevância disso se amplia quando entendemos o impacto específico de cada uma dessas vitórias. Ronda Rousey, por exemplo, era considerada favorita até ser destruída em 48 segundos. Cris Cyborg era vista como monstruosa, uma força quase mitológica, até Amanda nocautear a brasileira com precisão cirúrgica. Holly Holm, ex-campeã e uma das strikers mais técnicas da história do MMA feminino, foi finalizada com um chute limpo de Nunes. Valentina Shevchenko, uma das maiores artes marciais puras que o esporte já viu, encontrou em Amanda a única adversária que consistentemente conseguiu conter seu jogo, duas vezes. E a lista segue.

Kayla Harrison, a última peça do legado de Amanda Nunes

Amanda Nunes vai encarar a campeã Kayla Harrison no UFC 324
Amanda Nunes vai encarar a campeã Kayla Harrison no UFC 324 (Imagem: Reprodução UFC)

Kayla Harrison chega ao UFC como um fenômeno singular. Duas vezes campeã olímpica no judô, multicampeã na PFL, dona de um condicionamento físico acima da média e de um jogo de grappling que domina praticamente todas as oponentes que enfrenta.

É uma atleta que une força, técnica e disciplina em um nível raríssimo. Sua migração para o UFC já era vista como inevitável e o título também, conquistado de forma simples e rápida. A única pergunta que pairava era: quando ela enfrentaria Amanda Nunes?

O duelo agora está marcado, e o que está em jogo transcende o cinturão. Uma vitória de Amanda sobre Kayla equivaleria a fechar um ciclo que nenhum outro atleta, em nenhuma categoria do UFC, jamais completou. Ao derrotar a judoca, Amanda teria vencido todas as adversárias que, no presente ou no futuro, são amplamente consideradas potenciais Hall da Fama de sua divisão.

A simbologia desse feito é imensa. Entre os homens, mesmo nomes considerados lendários, como Georges St-Pierre, Jon Jones, Anderson Silva ou Khabib Nurmagomedov, não enfrentaram todas as maiores figuras históricas de suas categorias.

Eles enfrentaram alguns, venceram muitos, mas sempre houve lacunas inevitáveis de gerações ou momentos diferentes. St. Pierre não enfrentou Robbie Lawler, Jones não quis lutar contra Tom Aspinall, Anderson Silva não venceu Chris Weidman e Khabib Nurmagomedov nunca mediu forças com Charles Oliveira, exemplos rápidos do que estamos abordando. No caso de Amanda, essas lacunas simplesmente não existem.

Harrison, por sua vez, representa a nova geração, mais forte fisicamente, com background olímpico e uma curva de evolução acentuada no striking. É exatamente esse tipo de adversária que, se derrotada por Amanda, adiciona uma camada definitiva ao legado da brasileira.

Amanda Nunes não estaria vencendo “mais uma desafiante”. Estaria superando uma figura que pode facilmente se tornar, no futuro, a principal força dominante do MMA feminino pós-Nunes, algo que inclusive pode ocorrer em caso de derrota da americana também.

Tecnicamente, o combate é fascinante. Amanda possui o melhor conjunto de habilidades ofensivas da história do MMA feminino: potência ímpar, mãos pesadas, precisão, defesa de quedas de elite e experiência em grandes palcos como nenhuma outra atleta em atividade.

Kayla, por sua vez, tem um jogo de pressão, quedas explosivas e controle no solo que poucas rivais conseguem sequer resistir. É um duelo de potência contra potência, técnica contra técnica, legado contra ascensão. Todos os ingredientes de um duelo icônico.

Considerando tudo isso, a narrativa que se constrói não é apenas a de uma ex-campeã retornando após aposentadoria. É a narrativa de uma atleta que pode finalizar sua carreira, caso decida parar após o UFC 324, tendo derrotado todas as grandes figuras históricas de sua categoria, algo que ultrapassa o esporte e entra no terreno do mítico.

Se Amanda Nunes vencer Kayla Harrison, não será apenas mais uma vitória. Será a confirmação absoluta de um legado incomparável. Um feito que, pelo contexto, pela era, profundidade de adversárias e longevidade competitiva, talvez nunca mais seja replicado na história do MMA.

(Imagem de capa: Amanda Nunes – IconSport)