Durante pouco mais de 45 minutos, o Brasil parecia caminhar para uma eliminação precoce da Copa do Mundo diante de um Japão disciplinado, compacto e confortável dentro de sua estratégia defensiva. A equipe de Carlo Ancelotti controlava a posse, pressionava alto e ocupava o campo ofensivo, mas encontrava enormes dificuldades para romper o bloco de cinco defensores montado pelos japoneses.
O gol de Kaishu Sano, aproveitando um erro de Danilo e uma transição rápida após superar Casemiro, tornou o cenário ainda mais complicado. Foi justamente nesse momento que apareceu a principal qualidade do treinador italiano: a capacidade de interpretar o jogo em tempo real e modificá-lo sem abandonar sua identidade.
A reação brasileira não nasceu apenas da intensidade emocional do segundo tempo. Ela foi consequência direta de ajustes táticos que mudaram completamente a dinâmica ofensiva da Seleção. Ancelotti percebeu que o problema não era apenas criar volume de jogo, mas principalmente alterar a estrutura defensiva japonesa, que permanecia extremamente confortável defendendo por dentro.
Ao modificar os posicionamentos ofensivos e redistribuir funções no setor de ataque, Ancelotti criou os espaços que simplesmente não existiam durante a primeira etapa. A vitória por 2 a 1, construída com gols de Casemiro e Gabriel Martinelli, foi fruto de um desenho coletivo muito mais inteligente do que muitos pensam.
A entrada de Endrick e a abertura da linha de cinco
O principal ajuste aconteceu logo após o intervalo com a entrada de Endrick, mas os efeitos da mudança foram muito além da substituição em si. A alteração de Ancelotti reorganizou completamente o comportamento ofensivo brasileiro. Até então, Vinícius Júnior recebia constantemente cercado por dois ou três marcadores porque atuava em zonas mais interiores, exatamente onde a linha de cinco japonesa tinha superioridade numérica.
Com Endrick oferecendo profundidade no centro do campo e obrigando os zagueiros a permanecerem mais próximos da área, Vinícius passou a atuar muito mais aberto pelo lado esquerdo, recebendo praticamente sobre a linha lateral e oferecendo amplitude máxima ao ataque brasileiro.
Essa simples mudança teve enorme impacto sobre o sistema defensivo japonês. A linha de cinco, extremamente compacta durante toda a primeira etapa, começou a sofrer deformações. Ritsu Doan passou a ser obrigado a voltar para pressionar Vinícius longe da área, enquanto o Takehiro Tomiyasu precisava decidir entre acompanhar a movimentação do brasileiro ou manter a proteção da última linha. Pela primeira vez no jogo, surgiram espaços entre lateral, zagueiro e volante, exatamente o lugar onde Gabriel Magalhães atacou para fazer o cruzamento para o primeiro gol de Casemiro.
Foi justamente nesses espaços que o Brasil passou a acelerar suas jogadas. Vinícius voltou a ser o jogador capaz de gerar superioridade individual. Recebendo aberto, ganhou mais campo para atacar no um contra um e passou a conduzir para dentro apenas quando encontrava vantagem. A jogada em que dribla dois marcadores, aplica uma caneta e finaliza na trave resume perfeitamente essa transformação. Não foi apenas talento individual. Foi consequência direta de um posicionamento que ampliou o campo ofensivo e obrigou a defesa japonesa a abandonar sua organização inicial.
Usar Endrick para puxar a marcação liberou o espaço entrelinhas que o Brasil tanto precisava, mas não foi o único ajuste feito para conoseguir melhorar no jogo.
O papel de Gabriel Martinelli e Bruno Guimarães
Outro ajuste igualmente importante foi o novo papel desempenhado por Gabriel Martinelli. Em vez de atuar preso à ponta, o atacante passou a ocupar constantemente zonas interiores como um verdadeiro meia-atacante. Sua movimentação entre linhas trouxe um elemento que o Brasil praticamente não possuía durante a primeira etapa: presença dentro da área sem perder mobilidade. Martinelli alternava infiltrações curtas, ataques ao espaço e aproximações com Endrick, obrigando os zagueiros japoneses a tomarem decisões difíceis a cada ataque brasileiro.
Esse comportamento também teve um efeito indireto extremamente importante: Ancelotti liberou Bruno Guimarães para exercer sua principal característica como meio-campista box-to-box. Durante boa parte do primeiro tempo, Bruno não encontrou o espaço para exercer essa função, mas conseguiu fazer isso com maestria quando a linha japonesa começou a descer, se colocando mais vezes em posições de perigo para finalizar ou dar passes decisivos.
Foi exatamente dessa maneira que Bruno começou a aparecer constantemente em posições de finalização. Logo nos primeiros minutos do segundo tempo obrigou Suzuki a realizar uma grande defesa em uma cabeçada. Depois participou diretamente das jogadas que culminaram nas melhores oportunidades brasileiras, incluindo o gol que deu a vitória para o Brasil nos acréscimos. Sua liberdade para atacar sem precisar ser o responsável exclusivo pela construção tornou o meio-campo brasileiro muito mais dinâmico e imprevisível.
Ao mesmo tempo, Casemiro voltou a atuar na função que ele se destacou no Manchester United na temporada passada. Em vez de precisar iniciar jogadas ou correr grandes distâncias nas transições, passou a concentrar seus movimentos nas chegadas à área adversária durante cruzamentos e bolas paradas. O empate nasce exatamente desse contexto. Depois de já ter desperdiçado uma oportunidade salva em cima da linha, o camisa 5 volta a atacar o segundo poste e aparece livre para finalizar de cabeça após assistência de Gabriel Magalhães.
Ancelotti também ajustou a pressão pós-perda. Com Martinelli ocupando regiões centrais e Bruno Guimarães chegando mais alto, o Brasil passou a recuperar a bola praticamente dentro do campo ofensivo. A equipe deixou de permitir que o Japão respirasse após cada recuperação defensiva. Essa pressão constante foi desgastando fisicamente uma equipe japonesa que havia feito enorme esforço para manter sua linha compacta durante todo o primeiro tempo.
O gol da vitória simboliza perfeitamente essa evolução coletiva. A jogada nasce justamente de uma recuperação alta, consequência direta da pressão brasileira. Rayan rouba a bola no campo ofensivo, Bruno Guimarães imediatamente ocupa o espaço entre linhas e encontra Martinelli infiltrando como um verdadeiro meia-atacante dentro da área. O jogador do Arsenal domina com tranquilidade e finaliza no canto para decretar uma virada construída muito mais pela inteligência tática do que pelo acaso.
A força de Ancelotti está na leitura de jogo
Mais uma vez, Carlo Ancelotti mostrou por que construiu uma carreira marcada pela capacidade de adaptar seus times durante os jogos. O Brasil encontrou enormes dificuldades contra um dos sistemas defensivos mais organizados da Copa do Mundo, mas o treinador soube identificar onde estavam os bloqueios e como desmontá-los sem recorrer ao desespero. Ao abrir o campo com Vinícius, aumentar a presença de área com Martinelli e liberar Bruno Guimarães para atacar os espaços, transformou um ataque previsível em uma máquina de criar oportunidades.
A classificação às oitavas certamente ficará marcada pelo gol de Martinelli nos acréscimos. Mas, olhando além do resultado, talvez a principal vitória brasileira tenha sido outra: a demonstração de que esta Seleção possui um treinador capaz de vencer partidas também no quadro tático. Contra o Japão, Ancelotti não apenas mexeu nas peças. Mudou completamente o desenho do jogo, e, com ele, mudou também o destino do Brasil na Copa do Mundo.
(Foto: Rafael Ribeiro/CBF)