Ancelotti, Seleção Brasileira, Vini Jr
Futebol Brasileirão Copa do Mundo Seleção Brasileira

Ancelotti e o desafio de comandar o Brasil: o sonho do hexa, o caso Neymar e as pressões sobre o técnico italiano

Carlo Ancelotti chegou ao Brasil com muita aura e tranquilidade, como se estivesse vivendo mais um dia de trabalho normal, mas agora o cenário é diferente: ele não está mais em Madrid, Milão ou Londres, está simplesmente no país do futebol, com a missão de conduzir a Seleção Brasileira ao tão sonhado hexa. O italiano é o primeiro estrangeiro da história a comandar a Amarelinha e também o treinador mais bem pago do planeta, com um salário anual de 9,5 milhões de euros, podendo chegar a 10 em caso de título mundial.

A meta é clara, e o próprio Ancelotti já disse em entrevistas: vencer a Copa do Mundo de 2026 é o único grande objetivo. Então, não é necessário dizer que há uma enorme pressão em suas costas, porém, isso nunca foi um problema para ele, e sua longeva, sem contar em vencedora carreira.

O “gringo” no país do futebol

Desde o seu primeiro dia, Ancelotti entendeu que seu desafio vai muito além das quatro linhas. Em entrevista à FIFA, disse que a adaptação à vida no Rio tem sido “muito bonita”, mas reconheceu a força da paixão (e da cobrança) dos torcedores brasileiros. Estamos falando de um sonho de muito tempo, que é levantar mais um título da Copa do Mundo.

A CBF o colocou no centro de um projeto ambicioso, que mistura símbolo e ruptura: um técnico europeu, de carreira vitoriosa, chamado para renovar a identidade da Seleção. Só que nem todo mundo comprou a ideia.

Durante o 2º Fórum Brasileiro dos Treinadores, nomes históricos como Emerson Leão e Oswaldo de Oliveira criticaram a presença de um técnico estrangeiro. Leão foi direto: “Não gosto de ver estrangeiros comandando o Brasil.” Oswaldo até desejou sorte, mas deixou claro que, depois de Ancelotti, a Seleção deveria voltar a ter um treinador brasileiro.

O episódio, presenciado pelo próprio Ancelotti, causou desconforto. A CBF divulgou nota chamando as falas de “inadequadas”, e o técnico reagiu com classe: disse compreender as resistências culturais e reforçou sua vontade de dialogar com os profissionais locais.

Como joga o Brasil de Ancelotti?

O trabalho de Ancelotti tem sido marcado por uma intensa e extensa fase de testes. Em poucos meses, o técnico convocou 45 jogadores e utilizou 39 deles. O plano é simples: transformar 2025 em um laboratório e chegar a 2026 com um grupo fechado, entrosado e competitivo. Diferente dos outros profissionais que comandam seleções nesta temporada, o italiano chegou com um trem andando, e precisa fazer o máximo de coisas possíveis em pouco tempo.

Taticamente, o Ancelotti da Seleção tem oscilado entre o 4-3-3, o 4-2-3-1 e até o ousado 4-2-4, buscando equilíbrio entre a solidez defensiva e o talento ofensivo. É explicíta a melhora da defesa da Amarelinha, o que pode aparecer como o ponto mais positivo possível, porém, ainda existem oscilações no elenco.

Os resultados, por enquanto, não empolgam: o Brasil terminou as Eliminatórias em quinto lugar, com seis derrotas em 18 jogos, desempenho abaixo do esperado. A derrota por 4 a 1 para a Argentina, em casa, foi o maior revés desde o 7 a 1 da Copa de 2014. Dá para levar em conta que o italiano não estava presente desde o início da competição, e muito menos presenciou o confronto no Monumental.

A questão é que, nem tudo é drama. As goleadas sobre o Chile (3 a 0) e a Coreia do Sul (5 a 0) mostraram uma equipe mais leve, intensa e criativa. Vinicius Jr e Rodrygo assumiram o protagonismo, e jovens como Estevão começaram a ganhar espaço. “Precisamos de jogadores que tenham alegria com a bola e responsabilidade sem ela”, costuma dizer Ancelotti.

O caso Neymar

Nenhum tema provoca mais curiosidade no ciclo de Ancelotti do que a situação de Neymar. O craque não atua pela Seleção desde outubro de 2023, quando rompeu o ligamento do joelho. Desde então, ficou fora de todas as convocações.

O técnico explicou que sua ausência é puramente física: “O talento não basta. É preciso intensidade.” Ainda assim, Ancelotti deixou claro que o atacante pode voltar, mas em uma função diferente, mais centralizado, próximo ao gol, com menos exigência defensiva.

“Se estiver bem, pode jogar em qualquer time do mundo”, afirmou o treinador. A mensagem é clara: Neymar só volta se estiver 100% recuperado. Enquanto isso, o time tenta evoluir sem depender do camisa 10, apostando em novas lideranças técnicas e emocionais.

O desafio fora de casa

Mudanças foram feitas, e a melhora é visível, porém, o trabalho do italiano não é isentado dos problemas. O Ancelotti brasileiro vem enfrentando dificuldades nas partidas longe do país. A derrota para a Bolívia, a mais de 4 mil metros de altitude, e a virada sofrida contra o Japão em Tóquio expuseram fragilidades mentais e táticas. É claro que são pontos bem específicos, mas precisam ser citados nesta conversa.

A comissão técnica reconhece que o time ainda tem dificuldade em impor ritmo fora de casa, especialmente quando o adversário pressiona. Ancelotti encara essas oscilações como parte natural do processo, mas a torcida, acostumada a cobrar resultados imediatos, nem sempre tem a mesma paciência. Só que para ser feliz lá na frente, precisam abraçar alguns nomes antes.

Rumo a 2026

Com a vaga no Mundial garantida, Ancelotti usa as próximas datas FIFA para ajustar o time. Os amistosos contra Senegal e Tunísia serão testes valiosos para definir quem entra, quem sai e quem será o núcleo da Seleção em 2026. Já foi possível observar algumas situações onde ele busca utilizar novas peças, enquanto certos nomes já estão certos na próxima Copa.

Mais do que tática, o treinador tenta consolidar uma identidade: um Brasil disciplinado, compacto e, ao mesmo tempo, fiel à tradição do futebol arte. O próprio Ancelotti define assim sua missão: “O Brasil é diferente. Quando a Seleção joga, o país para. Minha obrigação é fazer esse povo sonhar de novo.”

Foto: Rafael Ribeiro / CBF