Andreas Pereira, Palmeiras
Futebol Libertadores

Andreas Pereira pode completar “jornada do vilão” do Flamengo

Andreas Pereira chega à final da Libertadores de 2025 em um enredo que nenhum roteirista de novela ousaria descartar. Hoje jogador do Palmeiras, contratado em agosto deste ano e rapidamente transformado em titular por Abel Ferreira, o meio-campista deve estar entre os onze iniciais do Alviverde na decisão contra o Flamengo, neste sábado (29). E, ao entrar em campo, carregará consigo uma das histórias individuais mais marcantes – e dolorosas – da recente trajetória rubro-negra no torneio continental.

Andreas Pereira: a passagem frustrante pelo Flamengo

Quando desembarcou no Rio de Janeiro, em agosto de 2021, Andreas Pereira era visto como uma das peças finais de um Flamengo estelar, então comandado por Renato Gaúcho. O clube havia recorrido ao Manchester United para fechar o empréstimo de um jogador versátil, de bom passe e excelente chute de média distância. A expectativa era de que Andreas elevasse ainda mais o nível de um elenco já considerado um dos mais fortes da América do Sul.

Mas a trajetória que parecia promissora ganhou um capítulo trágico em Montevidéu. Na final da Libertadores de 2021, contra o Palmeiras, Andreas cometeu um erro decisivo. No início da prorrogação, ao tentar dominar uma bola recuada, foi desarmado por Deyverson. O atacante palmeirense avançou livre e marcou o gol do título, selando a vitória por 2 a 1. A falha, amplamente relembrada até hoje, virou um símbolo da frustração rubro-negra e passou a acompanhar o volante como uma sombra.

Tentativa de recuperação e um ambiente cada vez mais pesado

Após a final, Andreas seguiu no clube por mais alguns meses, buscando uma recuperação esportiva e emocional. Teve atuações razoáveis, fez gols importantes e se esforçou para reconquistar a confiança da torcida. Contudo, o ambiente nunca mais foi o mesmo. As críticas nas arquibancadas e nas redes sociais tornaram-se constantes, e cada erro comum do jogo era amplificado pela memória daquela noite no Uruguai.

A pressão acumulada foi determinante para que sua permanência se tornasse inviável. O Flamengo, que cogitava comprar seus direitos junto ao Manchester United, acabou recuando. Andreas retornou ao clube inglês em junho de 2022, admitindo que o erro na final pesou em seu destino. Mais tarde, em entrevistas, foi ainda mais explícito: disse que “devia uma Libertadores ao Flamengo” e confessou ter tido pesadelos com a jogada que decidiu o título de 2021.

Um novo capítulo no Palmeiras

Três anos depois, o destino colocou Andreas Pereira no caminho do time que, ironicamente, se beneficiou do seu erro mais marcante. Contratado pelo Palmeiras em agosto deste ano, o meio-campista encontrou no clube paulista um ambiente técnico e emocionalmente estável, com funções muito claras dentro do esquema de Abel Ferreira. Sua adaptação foi imediata.

Abel o vê como peça fundamental na saída de bola, no controle do ritmo e na construção ofensiva. A confiança do treinador se reflete nas escalações: Andreas foi titular nos dois jogos contra o River Plate, pelas quartas de final da Libertadores, e também nos dois confrontos contra o Independiente del Valle, na semifinal. Em pouco tempo, tornou-se protagonista silencioso de um time que busca repetir o sucesso recente na competição.

Em números, sua adaptação também impressiona. Andreas já entrou em campo 18 vezes, sendo 14 como titular, e soma 2 gols e uma assistência pelo Alviverde. Mais do que estatísticas, seu desempenho trouxe ao meio-campo palmeirense maior fluidez e capacidade de articulação.

A possível “jornada do vilão”

Agora, às vésperas da final, Andreas Pereira se encontra no ponto mais delicado – e dramático – de sua relação com o Flamengo. Se antes sonhava em devolver ao clube o que acreditava “dever”, agora pode se transformar no algoz rubro-negro. Caso tenha atuação decisiva em favor do Palmeiras, completará o que muitos chamam de “jornada do vilão”: aquele que falhou no passado e, anos depois, contribui diretamente para uma nova derrota do mesmo clube em uma final de Libertadores.

A narrativa, naturalmente, ultrapassa o campo técnico. Trata-se de uma história de marcas emocionais, de expectativas frustradas e de novos começos. No Flamengo, Andreas viveu o momento mais difícil de sua carreira. No Palmeiras, reencontrou protagonismo e confiança. Na decisão, coloca-se diante da chance de encerrar um ciclo que começou em 2021 – não como herói rubro-negro, mas como personagem central de um capítulo que o futebol, com todas as suas ironias, insiste em reescrever.

A bola, agora, está novamente nos pés de Andreas Pereira. E, como se viu no passado, uma jogada pode definir tudo.

Foto: Ettore Chiereguini/AGIF