Martín Anselmi também foi especulado no Atlético Mineiro. Foto: Carl de Souza / AFP
Futebol Brasileirão

Anselmi e Abel: duas escolas parecidas de dois treinadores diferentes com um objetivo em comum

A temporada de 2026 começa com semelhanças para Botafogo e Palmeiras: a necessidade de reconstruir prestígio esportivo após um 2025 frustrante e, sobretudo, encontrar respostas para conter o Flamengo de Filipe Luís, atual campeão brasileiro e da Libertadores, que se consolidou como a principal força do futebol nacional. Nesse contexto, Martín Anselmi e Abel Ferreira surgem como personagens centrais, treinadores de escolas semelhantes, mas com ideias e caminhos distintos para tentar recolocar seus clubes no topo.

Anselmi e Abel compartilham uma origem conceitual parecida. Ambos são treinadores jovens para os padrões do futebol sul-americano, profundamente influenciados pelo jogo posicional, pela intensidade sem a bola e pela obsessão com detalhes táticos. São técnicos que pensam o futebol a partir do coletivo, da ocupação racional dos espaços e da preparação estratégica para cada adversário.

No entanto, quando se observa mais de perto, as diferenças aparecem de forma clara, tanto na forma de jogar quanto na maneira de liderar.

Martín Anselmi: treinador conceituado, mas questionado por sua teimosia 

No Botafogo, Martín Anselmi chega a 2026 sob enorme expectativa. O clube viveu um 2025 turbulento, marcado por trocas constantes de rumo, instabilidade emocional e uma incapacidade crônica de sustentar projetos no médio prazo. Anselmi, contratado com o discurso de modernização e identidade, representa uma tentativa clara de romper com esse ciclo.

Seu trabalho é pautado por um futebol intenso, vertical e agressivo, com forte pressão pós-perda e saída de bola bem estruturada desde a defesa. Diferentemente de Abel, Anselmi não costuma abrir mão de suas convicções com facilidade: ele prefere adaptar peças ao sistema do que moldar o sistema às circunstâncias.

Essa postura, ao mesmo tempo que empolga parte da torcida, também gera riscos. Em um calendário pesado como o de 2026, com início precoce do Brasileirão e desgaste físico elevado, a intensidade máxima defendida por Anselmi exigirá elenco profundo e alto nível de preparo. Além disso, o Botafogo carrega um peso simbólico: recuperar o respeito perdido passa não apenas por desempenho, mas por consistência emocional, algo que faltou em momentos decisivos recentes.

Para Anselmi, vencer o Flamengo não é só uma questão tática, mas psicológica. É preciso provar que o Botafogo pode competir de igual para igual contra o time mais dominante do país.

Abel Ferreira precisa recuperar moral

No Palmeiras, Abel Ferreira vive um momento completamente diferente em termos de histórico, mas igualmente delicado. Ídolo e multicampeão, o treinador português chega a 2026 pressionado como raramente esteve. O ano de 2025 foi marcado por eliminações precoces, dificuldades em clássicos e uma sensação de desgaste de discurso. Ainda que sua posição nunca tenha sido seriamente ameaçada, ficou claro que o Palmeiras perdeu parte da aura de inevitabilidade que construiu nos anos anteriores.

Abel, ao contrário de Anselmi, é um técnico extremamente pragmático. Embora também tenha raízes no jogo posicional e na organização coletiva, ele ficou conhecido pela capacidade de adaptar o time ao contexto: muda esquemas, ajusta linhas, alterna postura agressiva e reativa conforme o adversário. Em 2026, essa flexibilidade será novamente sua principal arma para tentar frear o Flamengo de Filipe Luís, um time que combina intensidade, talento individual e domínio territorial como poucos no continente.

A grande questão no Palmeiras é se Abel conseguirá renovar seu próprio trabalho. O elenco passou por mudanças, algumas lideranças envelheceram, e a fome por títulos já não é a mesma de ciclos anteriores. Recuperar o respeito significa, para o português, provar que ainda consegue extrair algo novo de um projeto longevo, seja com jovens ganhando protagonismo, seja com ajustes mais profundos na forma de jogar.

O Flamengo com um alvo nas costas

O Flamengo de Filipe Luís funciona como parâmetro e obstáculo para ambos. Campeão brasileiro e da Libertadores, o Rubro-Negro estabeleceu um padrão elevado, com um futebol dominante, agressivo e, ao mesmo tempo, maduro. Para Anselmi, enfrentar esse Flamengo será um teste de convicção: sua ideia contra a ideia mais consolidada do país. Para Abel, será um teste de reinvenção: mostrar que a experiência e a leitura de jogo ainda podem superar a força do rival.

Apesar das diferenças, há um ponto em comum que une os dois treinadores: a necessidade de reconstruir confiança interna. Tanto Botafogo quanto Palmeiras saem de 2025 com feridas abertas, uma pela instabilidade crônica, outra pelo desgaste de um ciclo vencedor. Em 2026, Anselmi e Abel não brigam apenas por títulos, mas por narrativa, identidade e respeito.

Se conseguirão ou não parar o Flamengo, o tempo dirá. Mas uma coisa é certa: o duelo de ideias, estilos e trajetórias entre Martín Anselmi e Abel Ferreira será um dos fios condutores mais interessantes do futebol brasileiro em 2026.

Foto: Carl de Souza / AFP