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Antony reencontra o melhor futebol no Betis, mas o que mudou?

Antony voltou a encontrar no Real Betis o futebol que fez o Manchester United investir 95 milhões de euros em sua contratação, em 2022. Depois de uma passagem frustrante por Old Trafford, marcada por dificuldades para justificar o alto valor da transferência, o brasileiro reconstruiu a própria carreira na Espanha e se tornou uma peça importante do projeto de Manuel Pellegrini. Mesmo atravessando um início de temporada 2026/27 sem gols, o atacante apresenta números que indicam uma influência ofensiva maior do que as estatísticas tradicionais sugerem, enquanto o clube inglês começa a conviver com a possibilidade de ter vendido o jogador por um valor muito inferior ao seu potencial.

A trajetória de Antony representa um caso interessante sobre como o contexto de uma equipe pode interferir no rendimento de um atleta. Em Manchester, o brasileiro não conseguiu corresponder às expectativas criadas pelo investimento e terminou negociado com o Betis, em 2025, por apenas 22 milhões de euros. Na Espanha, porém, encontrou condições mais favoráveis para recuperar a confiança, ganhou espaço sob o comando de Pellegrini e encerrou sua primeira temporada completa com 14 gols e dez assistências, números que contribuíram para a campanha que levou os andaluzes à classificação para a Champions League.

A diferença entre as duas passagens não significa, necessariamente, que o Manchester United tenha sido o único responsável pelo fracasso, nem que o Betis tenha solucionado todas as limitações do atacante. O que os números mostram é que Antony voltou a produzir em um ambiente no qual suas características são aproveitadas com maior eficiência. Para o clube inglês, a questão vai além do arrependimento por uma venda abaixo do investimento inicial: trata-se de entender por que um jogador que não conseguiu se firmar na Premier League voltou a demonstrar seu valor em outro campeonato.

Do investimento de 95 milhões de euros à recuperação na Espanha

A contratação de Antony pelo Manchester United foi uma das movimentações mais caras da história do clube. Indicado por Erik ten Hag, com quem havia trabalhado no Ajax, o brasileiro chegou a Old Trafford no verão europeu de 2022 por 95 milhões de euros, tornando-se o segundo reforço mais caro da história dos Red Devils, atrás apenas de Paul Pogba.

O valor da transferência elevou consideravelmente a expectativa em torno do atacante. Além de representar um investimento financeiro expressivo, Antony chegou associado à ideia de que poderia oferecer profundidade, dribles e capacidade de desequilibrar partidas pelo lado direito do ataque. O problema é que o rendimento apresentado em campo nunca alcançou de maneira consistente o patamar esperado para uma contratação desse tamanho.

A dificuldade de corresponder ao investimento contribuiu para que sua passagem pelo clube fosse cada vez mais associada ao fracasso. Em um ambiente de cobrança permanente, no qual cada atuação era analisada também sob a perspectiva do preço pago, o brasileiro encontrou obstáculos para construir uma sequência de boas apresentações e consolidar sua posição na equipe.

A saída para o Real Betis, inicialmente por empréstimo em janeiro de 2025, abriu uma oportunidade para interromper esse ciclo. O futebol espanhol ofereceu ao atacante a possibilidade de recomeçar sem carregar diariamente o peso da transferência milionária. A mudança também permitiu que ele trabalhasse em um contexto diferente, com novas exigências táticas e uma relação renovada com o treinador.

O resultado apareceu em sua primeira temporada completa em Sevilha. Com 14 gols e dez assistências, Antony participou diretamente de 24 gols e teve papel relevante na campanha do Betis. Mais do que recuperar números individuais, o brasileiro voltou a ser uma peça capaz de influenciar o funcionamento ofensivo de uma equipe que alcançou a classificação para a Champions League.

A negociação definitiva, concluída em 2025 por 22 milhões de euros, evidencia a diferença entre o valor investido pelo Manchester United e o montante recebido na saída. O preço da venda ficou 73 milhões de euros abaixo da quantia desembolsada em 2022, uma desvalorização expressiva para um jogador que ainda tinha 26 anos e demonstraria potencial para voltar a competir em alto nível.

É necessário considerar que a transferência também envolveu fatores contratuais, esportivos e de mercado, de modo que a diferença entre os valores não pode ser explicada exclusivamente pelo desempenho do atacante. Ainda assim, o caso mostra como uma contratação malsucedida pode gerar prejuízo financeiro e esportivo, especialmente quando o jogador recupera parte do valor depois de deixar o clube.

Os números mostram que Antony continua influente mesmo sem marcar

O começo da temporada 2026/27 apresenta um contraste com o rendimento ofensivo registrado no ano anterior. Antony ainda não marcou e contabiliza uma assistência em 720 minutos, distribuídos por dez partidas. À primeira vista, os números podem sugerir uma queda de produção, sobretudo para um jogador que encerrou a campanha anterior com participação direta em 24 gols.

Uma análise mais detalhada, entretanto, revela que o brasileiro continua contribuindo em diferentes fases do ataque do Betis. Seus indicadores de dribles, ultrapassagens, precisão dos passes para a frente e cruzamentos estão acima da média dos pontas da La Liga, de acordo com os dados apresentados no levantamento estatístico. Isso significa que sua influência não depende apenas da capacidade de finalizar ou de registrar assistências.

O dado de gols esperados, conhecido como xG, ajuda a compreender essa diferença. Antony apresenta uma média de 0,32 gol esperado por 90 minutos, indicador que estima a probabilidade de uma finalização resultar em gol a partir das características da oportunidade criada. Embora ainda não tenha balançado as redes na temporada, o número sugere que ele tem conseguido chegar a situações com potencial para terminar em gol.

O mesmo raciocínio vale para a participação na construção das jogadas. A precisão de 66,7% nos passes para a frente e de 84,2% nos passes destinados ao terço final do campo aponta para um jogador que continua tentando fazer a equipe avançar. Já a precisão de 30,8% nos cruzamentos oferece outra referência de sua contribuição pelos lados, ainda que esse indicador, isoladamente, não permita medir a qualidade de todas as oportunidades criadas.

Os números de dribles e ultrapassagens também ajudam a explicar por que Antony permanece relevante para Pellegrini. Um ponta não precisa participar diretamente de um gol para oferecer valor tático: pode superar a primeira linha de marcação, obrigar o adversário a deslocar jogadores para a cobertura, abrir espaços para os companheiros e criar condições para que o Betis progrida em campo.

Isso não significa que a ausência de gols deva ser ignorada. Para um atacante, a capacidade de transformar oportunidades em resultados concretos continua sendo uma parte importante da avaliação, e Antony precisará voltar a marcar para que sua produção seja refletida também no placar. A questão é que uma sequência sem gols não deve apagar as contribuições que aparecem na construção das jogadas e na criação de situações ofensivas.

Segundo a análise atribuída à SciSports, apenas Lamine Yamal apresenta desempenho superior ao de Antony entre os pontas da La Liga no recorte considerado. A comparação reforça a dimensão de sua recuperação, embora deva ser interpretada dentro dos critérios utilizados pelo modelo estatístico, e não como uma classificação definitiva que determine, isoladamente, quem é o melhor jogador da posição.

O cenário aponta para uma diferença importante entre desempenho e resultado imediato. Antony pode estar contribuindo para a produção ofensiva do Betis sem que essa influência se converta, por enquanto, em gols ou assistências na mesma proporção. Se mantiver a capacidade de chegar à área e participar da criação, a tendência é que tenha novas oportunidades para interromper o jejum, embora os dados não garantam quando isso acontecerá.

A relação com o Manchester United também ajuda a explicar a mudança

Além das questões esportivas, Antony já manifestou insatisfação com a maneira como foi tratado durante sua passagem pelo Manchester United. Em entrevista à ESPN Brasil no ano anterior, o jogador afirmou que sentiu falta de respeito e relatou situações nas quais, segundo sua versão, pessoas no clube não o cumprimentavam no cotidiano. Ele evitou citar nomes, mas deixou claro que a experiência em Manchester teve um impacto negativo sobre sua percepção do ambiente de trabalho.

O relato não permite estabelecer que o tratamento recebido tenha sido a causa direta de seu baixo rendimento. O futebol de alto nível envolve uma combinação de fatores, incluindo adaptação, confiança, exigência tática, concorrência por posição e capacidade de lidar com a pressão. Ainda assim, o depoimento acrescenta uma dimensão humana a uma passagem frequentemente resumida ao preço da transferência e às atuações abaixo das expectativas.

A confiança de Pellegrini parece ter sido importante para a recuperação do brasileiro. Ao receber oportunidades e participar de uma equipe que conseguiu explorar suas características, Antony encontrou condições para voltar a produzir. Esse processo não elimina a responsabilidade do jogador pelo que aconteceu em Manchester, mas mostra que o rendimento individual não pode ser analisado completamente separado do contexto coletivo.

A diferença entre as duas experiências também reforça uma questão relevante para o planejamento esportivo: contratar um atleta conhecido não garante que ele funcionará em qualquer sistema. Antony havia trabalhado com Ten Hag no Ajax, circunstância que ajudou a sustentar a decisão do United de investir uma quantia tão alta. Mesmo com essa familiaridade, porém, o encaixe não produziu os resultados esperados durante sua passagem pela Inglaterra.

O Betis, por outro lado, conseguiu transformar o brasileiro em um jogador produtivo sem depender exclusivamente de seus números de finalização. Ao aproveitar sua capacidade de conduzir a bola, avançar pelos lados e participar da criação, o clube espanhol encontrou diferentes formas de incorporar o atacante ao sistema ofensivo. A recuperação, portanto, não se resume a uma mudança de campeonato, mas também à maneira como suas qualidades passaram a ser utilizadas.

O Manchester United pode se arrepender da venda, mas o caso vai além do prejuízo financeiro

A comparação entre a contratação e a venda de Antony coloca o Manchester United diante de uma conta difícil de ignorar. O clube pagou 95 milhões de euros pelo brasileiro e o negociou por 22 milhões, enquanto o jogador recuperou parte de seu valor esportivo no Betis. A diferença financeira é significativa, mas o possível arrependimento não deve ser entendido apenas como a constatação de que o atacante voltou a jogar bem longe de Old Trafford.

O ponto central é que o United não conseguiu extrair do jogador o rendimento que justificasse o investimento. A venda pode ter sido uma decisão necessária para reorganizar o elenco e reduzir o peso de uma contratação que não funcionou, mas o sucesso posterior do brasileiro levanta dúvidas sobre a capacidade do clube de identificar as condições necessárias para que seus reforços rendam o esperado.

O caso também precisa ser observado em perspectiva. Uma boa temporada na Espanha não apaga automaticamente os problemas que Antony enfrentou na Inglaterra, assim como uma sequência sem gols no início de 2026/27 não invalida a recuperação demonstrada no campeonato anterior. A avaliação mais justa considera os dois períodos: o brasileiro não correspondeu às expectativas em Manchester, mas mostrou no Betis que ainda pode ser um jogador importante em uma equipe competitiva.

A situação lembra outros casos em que atletas deixam grandes clubes ingleses e reencontram espaço em ligas ou equipes com contextos diferentes. Nem sempre isso significa que o clube anterior cometeu um erro ao negociar o jogador; às vezes, a saída é a melhor solução para ambas as partes. No entanto, quando um atleta recupera rapidamente a produtividade e o novo clube paga muito menos do que o antigo investiu, a operação passa a ser examinada também como uma falha de avaliação e aproveitamento.

Antony ainda precisa confirmar sua consistência ao longo de uma temporada inteira e transformar as boas métricas atuais em participação direta nos gols. O retorno à Champions League, com o confronto contra o Feyenoord na Holanda, oferece um palco importante para que ele volte a marcar e amplie sua influência em uma competição de alto nível. Mesmo sem gols no início da campanha, o desempenho estatístico indica que o brasileiro continua encontrando caminhos para contribuir.

Para o Betis, a contratação representa a oportunidade de manter um jogador que já demonstrou capacidade para decidir partidas por um valor muito inferior ao pago pelo Manchester United. Para o atacante, a passagem pela Espanha se tornou uma chance de reconstruir a carreira e mostrar que o fracasso em Old Trafford não precisa definir sua trajetória.

O Manchester United, por sua vez, fica com a lição de que o custo de uma contratação não se limita ao valor pago na transferência. Quando o investimento não se transforma em rendimento, o clube corre o risco de perder dinheiro e, posteriormente, ver o jogador recuperar o futebol em outro ambiente. Antony não apagou o que aconteceu na Inglaterra, mas seu desempenho no Betis mostra que a história de sua passagem por Manchester talvez não seja a última palavra sobre sua capacidade como jogador.