Futebol Libertadores

Flamengo decepciona contra o Estudiantes e mostra limitações que vão além dos pênaltis; confira as impressões do jogo

O Flamengo fracassou diante do Estudiantes na Libertadores porque não conseguiu transformar sua superioridade técnica em domínio efetivo do confronto. A eliminação na disputa de pênaltis, após dois empates sem gols, representa o desfecho de uma semifinal na qual o time de Leonardo Jardim esteve longe de corresponder às expectativas e encontrou enormes dificuldades para construir oportunidades. Mesmo com um jogador a mais durante boa parte do segundo tempo no Maracanã, o Rubro-Negro não conseguiu assumir o controle da partida como se esperava, enquanto os argentinos executaram com disciplina um plano de jogo que neutralizou suas principais armas.

A queda não pode ser explicada apenas pelos erros de Jorginho, Lucas Paquetá e Bruno Henrique nas cobranças decisivas. Embora as falhas tenham determinado o resultado final, o problema começou muito antes de a classificação ser decidida na marca da cal. Ao longo dos 180 minutos, o Flamengo demonstrou pouca criatividade, dificuldade para encontrar espaços e incapacidade de adaptar sua estratégia diante de um adversário que já havia mostrado conhecer bem suas características. O Estudiantes não precisou dominar a posse de bola nem produzir uma sequência de chances claras para competir em igualdade: bastou limitar o ataque rubro-negro e explorar as dificuldades do favorito.

O Estudiantes venceu a disputa tática antes dos pênaltis

A diferença entre os elencos fazia do Flamengo o favorito, mas a semifinal mostrou que o investimento e a qualidade individual não garantem superioridade quando uma equipe não consegue organizar suas ideias dentro de campo. O Estudiantes entrou no confronto com uma proposta bem definida, apostando na intensidade física, na proteção dos espaços centrais e na redução das opções de passe dos cariocas. Ao impedir que o adversário encontrasse fluidez entre o meio-campo e o ataque, os argentinos transformaram a vantagem técnica do Flamengo em uma posse de bola pouco produtiva.

O cenário se repetiu nos dois jogos. Em La Plata, o Rubro-Negro já havia encontrado dificuldades para construir jogadas que realmente ameaçassem a defesa adversária. No Maracanã, a expectativa era de uma postura mais agressiva, impulsionada pelo apoio da torcida e pela possibilidade de decidir a classificação diante de sua própria torcida. Entretanto, o time voltou a apresentar os mesmos problemas, sem conseguir estabelecer uma circulação de bola capaz de desorganizar a marcação argentina.

O aspecto mais preocupante foi a ausência de respostas durante a partida. O Estudiantes fechou os espaços e dificultou a progressão pelo centro, mas o Flamengo não conseguiu compensar essa limitação com movimentações coordenadas, infiltrações ou combinações pelos lados. Em diversos momentos, a equipe parecia depender de uma jogada individual ou de um cruzamento para produzir perigo, recursos insuficientes diante de uma defesa que se manteve organizada durante praticamente todo o confronto.

A expulsão de Baltasar Rodríguez, aos quatro minutos do segundo tempo, deveria ter alterado significativamente a dinâmica do jogo. Com um homem a mais, o Flamengo ganhou uma vantagem numérica que poderia facilitar a circulação da bola, criar superioridade pelos corredores e obrigar o Estudiantes a recuar ainda mais. O que se viu, porém, foi uma equipe que teve mais posse, mas continuou sem encontrar maneiras consistentes de penetrar na defesa adversária.

O Estudiantes merece reconhecimento pela execução de sua estratégia. A equipe argentina soube reduzir os espaços, competir nos duelos físicos e administrar o tempo quando a partida exigia resistência. Não foi necessário construir um grande volume ofensivo para tornar o confronto difícil, porque seu principal objetivo era impedir que o Flamengo jogasse com liberdade. Ao final, os visitantes demonstraram que compreenderam melhor as exigências da semifinal e souberam explorar as limitações do adversário.

A falta de criatividade tornou o ataque previsível

Se o Flamengo já vinha enfrentando dificuldades para transformar finalizações em gols ao longo da temporada, a semifinal contra o Estudiantes apresentou um problema ainda mais profundo: a equipe praticamente não conseguiu produzir oportunidades claras. A ineficiência ofensiva deixou de ser apenas uma questão de conclusão e passou a envolver a própria construção das jogadas. Faltaram criatividade para romper as linhas defensivas, movimentação para abrir espaços e precisão para aproveitar os poucos momentos em que a defesa argentina ofereceu alguma brecha.

A atuação de Pedro ilustra essa dificuldade. O centroavante conseguiu aparecer em duas situações promissoras no segundo jogo, mas teve participação limitada durante boa parte do confronto. Na primeira partida, Bruno Henrique também encontrou enormes obstáculos para participar das ações ofensivas. A mudança de um atacante pelo outro, portanto, não alterou de maneira significativa o comportamento coletivo, porque o problema não estava restrito à escolha do homem mais avançado, mas na incapacidade de fazer a bola chegar até ele em condições favoráveis.

Os pontas também ficaram abaixo do necessário. Sem conseguir superar os marcadores no um contra um ou combinar com os meio-campistas para criar superioridade pelos lados, os jogadores de frente tiveram dificuldade para desorganizar a defesa. Quando o Flamengo recorria aos cruzamentos, muitas vezes faltavam precisão na execução e ocupação adequada da área. Léo Pereira, por exemplo, insistiu em bolas levantadas sem encontrar companheiros em condições de finalizar.

A situação expôs uma limitação importante no repertório ofensivo de Leonardo Jardim. Uma equipe que pretende disputar os principais títulos precisa ter alternativas para enfrentar adversários que defendem em bloco compacto. Quando a progressão pelo centro é bloqueada, é necessário variar os corredores, acelerar a circulação, realizar infiltrações e movimentar os atacantes para deslocar os defensores. O Flamengo não conseguiu combinar esses elementos de maneira consistente e acabou facilitando o trabalho do Estudiantes.

Também faltou uma atuação individual capaz de mudar o rumo do confronto. Em jogos eliminatórios equilibrados, a qualidade técnica costuma aparecer em uma jogada de ruptura, em um passe que quebra linhas ou em uma finalização que exige uma intervenção decisiva do goleiro. Muslera, entretanto, passou boa parte dos 180 minutos sem ser submetido a grandes testes, o que evidencia a dificuldade do Flamengo para transformar sua superioridade potencial em ameaça real.

A oportunidade mais clara do segundo tempo surgiu com Plata, já perto do fim, enquanto Paquetá também teve uma boa situação após as mudanças promovidas pelo treinador. Foram lampejos tardios, insuficientes para compensar a falta de produção durante o restante da partida. O Flamengo não perdeu apenas porque seus atacantes não converteram as chances; perdeu porque criou muito pouco para uma equipe de seu nível e de suas ambições.

Leonardo Jardim demorou a encontrar alternativas

A atuação do treinador também merece questionamentos. Leonardo Jardim optou por iniciar a partida com Pedro na vaga de Bruno Henrique e manteve Paquetá como camisa 10, mas o desenho ofensivo não funcionou como esperado. O Flamengo continuou encontrando dificuldades para aproximar seus jogadores, acelerar as jogadas e explorar os espaços que o Estudiantes concedia em determinados momentos. Com a partida avançando sem uma mudança significativa no desempenho, a demora para modificar a estrutura da equipe passou a pesar.

A expulsão de Rodríguez, logo no início do segundo tempo, ofereceu ao treinador uma oportunidade evidente para reorganizar o ataque. O Flamengo poderia ter ampliado a presença entre as linhas argentinas e utilizado a vantagem numérica para criar superioridade em diferentes setores. No entanto, Arrascaeta só entrou aos 18 minutos, substituindo Carrascal, enquanto as alterações que efetivamente deram maior amplitude ao time aconteceram apenas aos 35, quando Bruno Henrique, Plata e Ayrton Lucas entraram nas vagas de Pulgar, Lino e Alex Sandro.

A resposta apareceu quase imediatamente. Com mais jogadores de características ofensivas e maior ocupação dos corredores, o Flamengo criou a chance mais clara da partida com Plata e outra boa oportunidade com Paquetá. Isso não significa que as mudanças garantiriam a classificação caso tivessem acontecido antes, mas reforça a impressão de que o time poderia ter buscado alternativas com maior antecedência.

O problema foi a falta de urgência para aproveitar uma situação que exigia uma resposta clara. Jogar com um homem a mais durante boa parte do segundo tempo não assegura que uma equipe conseguirá furar uma defesa organizada, mas aumenta a responsabilidade de quem tem a obrigação de propor o jogo. Nesse contexto, a demora para modificar a estrutura ofensiva contribuiu para que o Flamengo desperdiçasse minutos importantes sem conseguir pressionar de maneira efetiva.

Ainda assim, atribuir a eliminação exclusivamente às escolhas de Jardim seria uma simplificação. Os jogadores também falharam na execução, na movimentação e na tomada de decisão. A dificuldade de construir oportunidades persistiu durante os dois jogos, e a equipe não conseguiu apresentar soluções coletivas mesmo quando teve tempo e vantagem numérica para tentar algo diferente. A responsabilidade é compartilhada entre o planejamento, os ajustes feitos durante a partida e a capacidade dos atletas de executar o que era necessário.

A eliminação revela uma dificuldade recorrente contra o Estudiantes

O histórico recente entre as equipes torna o resultado ainda mais preocupante para o Flamengo. Em seis confrontos nos últimos dois anos, o Rubro-Negro teve poucas atuações realmente convincentes diante do Estudiantes, e a semifinal confirmou que a equipe argentina representa um adversário especialmente desconfortável. Mesmo conhecendo as características do rival, o time brasileiro não demonstrou ter encontrado respostas consistentes para superar a marcação e controlar os momentos decisivos.

Esse aspecto é importante porque elimina a possibilidade de tratar a queda como um acidente isolado. Uma disputa de pênaltis sempre envolve variáveis difíceis de controlar, mas a repetição de dificuldades ao longo de diferentes partidas indica que existe um problema tático a ser enfrentado. O Estudiantes conseguiu neutralizar os principais caminhos ofensivos do Flamengo e obrigou o adversário a jogar de uma maneira que não favorecia suas melhores características.

A superioridade técnica dos cariocas continuou existindo no papel, mas não se traduziu em vantagem suficiente dentro de campo. O Estudiantes mostrou que organização defensiva, disciplina e compreensão do plano de jogo podem reduzir diferenças individuais importantes. Em uma semifinal continental, a equipe que consegue impor suas condições e limitar o adversário costuma aumentar suas chances de classificação, mesmo sem produzir um futebol ofensivo dominante.

As cobranças de pênaltis acrescentaram um componente dramático à eliminação. Jorginho, Paquetá e Bruno Henrique, três jogadores experientes e importantes para o elenco, desperdiçaram suas tentativas em uma noite na qual Muslera também teve papel decisivo. O goleiro uruguaio mostrou segurança no momento mais importante, enquanto o Flamengo não conseguiu converter a pressão em precisão. Ainda assim, os erros na marca da cal foram o último capítulo de uma atuação coletiva que já havia deixado a equipe em uma posição delicada.

O Brasileirão ganha importância, mas não pode esconder os problemas

A eliminação aumenta a pressão sobre o Flamengo no Campeonato Brasileiro. Com a possibilidade de conquistar menos títulos do que o investimento e as expectativas sugerem, a competição nacional passa a ter um peso ainda maior na avaliação da temporada. O time precisa reagir rapidamente, recuperar confiança e demonstrar que a atuação diante do Bahia pode representar um padrão de desempenho, e não apenas uma exceção em meio a dificuldades recorrentes.

No entanto, transformar o Brasileirão em uma obrigação não resolve automaticamente os problemas apresentados na Libertadores. A equipe precisará entender por que encontrou tantas dificuldades para produzir oportunidades, como pode diversificar suas alternativas ofensivas e de que maneira deve reagir quando o adversário fecha os espaços centrais. Sem essas respostas, o risco é repetir as mesmas limitações em confrontos nos quais o Flamengo também terá de assumir a iniciativa.

A reação passa por recuperar a conexão entre meio-campo e ataque, melhorar a movimentação dos jogadores de frente e tornar a circulação da bola menos previsível. Também será necessário que Jardim encontre ajustes mais rápidos durante as partidas, especialmente quando o plano inicial não estiver funcionando. O elenco tem qualidade para apresentar um futebol mais produtivo, mas essa qualidade precisa aparecer em comportamentos coletivos claros, e não depender exclusivamente de momentos individuais.

O Flamengo deixa a Libertadores com uma derrota que vai além da eliminação nos pênaltis. Durante dois jogos, a equipe não conseguiu impor sua superioridade, teve dificuldades para interpretar o confronto e ofereceu poucas razões para acreditar que merecia avançar. O Estudiantes soube executar melhor sua estratégia, enquanto o favorito não encontrou soluções nem mesmo diante de uma vantagem numérica importante.

A temporada ainda oferece ao Rubro-Negro a oportunidade de responder dentro de campo, mas a cobrança será maior justamente porque as expectativas eram elevadas. Para transformar a frustração em reação, o Flamengo precisará mostrar que compreendeu as lições da semifinal. O desafio imediato é disputar o Brasileirão com consistência, mas o desafio mais profundo é recuperar a capacidade de fazer sua qualidade técnica aparecer quando o jogo exige criatividade, adaptação e decisões sob pressão.

(Foto: Pablo Porciúncula/AFP)