Wilton Copa do Mundo
Futebol Copa do Mundo

Árbitros da Copa do Mundo seguem critérios políticos?

Copa do Mundo não é feita apenas de gols, dribles e grandes atuações. Nos bastidores, outro assunto costuma ganhar força à medida que o torneio se aproxima da reta final: a escolha dos árbitros. A cada nova escala divulgada pela Fifa, surgem debates entre torcedores, jornalistas e até dirigentes sobre possíveis favorecimentos ou conflitos de interesse, principalmente quando seleções favoritas seguem vivas na disputa pelo título.

Foi exatamente isso que aconteceu após a confirmação da equipe de arbitragem para a vitória da França sobre Marrocos, pelas quartas de final da Copa do Mundo. A FIFA escalou um trio completamente argentino para comandar a partida, decisão que rapidamente gerou questionamentos nas redes sociais. O motivo era simples: caso a França avançasse, poderia reencontrar justamente a Argentina em uma eventual final, repetindo a decisão de 2022.

Apesar da repercussão, a explicação da entidade mostra que o processo de escolha vai muito além da nacionalidade dos árbitros. Critérios técnicos continuam sendo prioridade, mas questões geopolíticas e diplomáticas também entram na conta antes de cada nome ser confirmado.

Desempenho continua sendo o principal critério

Embora muita gente imagine que a escolha dos árbitros aconteça apenas poucos dias antes das partidas, a realidade é bem diferente. O trabalho começa anos antes da bola rolar na Copa do Mundo e envolve um acompanhamento constante realizado pelo Comitê de Arbitragem da Fifa.

O grupo é liderado pelo lendário Pierluigi Collina, considerado por muitos o maior árbitro da história do futebol. Ao lado de sua equipe, ele acompanha competições internacionais, avalia tomadas de decisão, posicionamento, preparo físico e consistência das atuações durante vários anos até definir quais profissionais estarão presentes no Mundial.

Durante o torneio, esse monitoramento continua. Cada atuação recebe uma avaliação detalhada e influencia diretamente as próximas designações. Em outras palavras, quem vai bem segue recebendo jogos importantes. Quem comete erros relevantes pode acabar perdendo espaço justamente na fase decisiva da competição.

Além disso, os árbitros normalmente trabalham ao lado dos mesmos assistentes durante toda a Copa do Mundo. Essa continuidade ajuda a manter a comunicação e reduz o risco de falhas em momentos decisivos.

Neutralidade pesa na hora da escolha

Se a parte técnica é fundamental, a política internacional também tem um papel importante nas decisões da Fifa. A entidade procura evitar qualquer situação que possa gerar dúvidas sobre a imparcialidade da arbitragem, mesmo quando essas preocupações parecem exageradas para parte do público.

O exemplo mais óbvio é que nenhum árbitro pode apitar jogos envolvendo seu próprio país. Mas as restrições não param por aí.

Também existe o chamado critério da “próxima partida”. Isso significa que um árbitro não pode trabalhar em um jogo cujo resultado possa afetar diretamente sua própria seleção na fase seguinte.

Durante esta Copa do Mundo, por exemplo, um árbitro inglês não poderia apitar uma partida do grupo da Inglaterra envolvendo outras seleções, caso o resultado interferisse diretamente no caminho dos ingleses. Da mesma forma, um árbitro da Inglaterra não seria escalado para um confronto entre Argentina e Suíça, já que o vencedor poderia enfrentar os ingleses na semifinal.

Essa lógica busca eliminar qualquer suspeita, mesmo quando ela parece bastante improvável.

Então por que um trio argentino apitou França x Marrocos?

Essa foi justamente a dúvida que tomou conta das redes sociais depois da divulgação da escala das quartas de final.

Se a França poderia enfrentar a Argentina na decisão da Copa do Mundo, por que a Fifa autorizou um trio argentino na partida?

A resposta está na forma como a entidade interpreta o chamado critério da “próxima partida”. Segundo pessoas ligadas ao processo de designação, essa análise vale apenas para o confronto imediatamente seguinte.

Como Argentina e França ainda não estavam garantidas na final, a Fifa entendeu que não existia conflito direto naquele momento. Ou seja, a possibilidade de um reencontro na decisão não foi considerada suficiente para impedir a nomeação dos árbitros argentinos.

É uma interpretação que pode parecer estranha para muitos torcedores, mas faz parte do protocolo utilizado pela entidade há vários anos.

A FIFA também leva conflitos internacionais em consideração

Outro aspecto importante a ser observado nesta Copa do Mundo envolve questões políticas entre países.

Sempre que possível, a FIFA tenta escalar árbitros pertencentes a confederações diferentes das seleções envolvidas. Se um país africano enfrenta uma equipe sul-americana, por exemplo, um árbitro europeu costuma ser visto como uma alternativa neutra.

Quando dois países do mesmo continente se enfrentam, essa preocupação diminui. Foi exatamente o que aconteceu no duelo entre Espanha e Bélgica, comandado pelo inglês Michael Oliver, já que ambos pertencem à Uefa.

Existem, porém, situações muito mais delicadas.

Caso o Irã estivesse em campo, por exemplo, dificilmente um árbitro dos Estados Unidos seria escolhido para comandar a partida. A tensão diplomática entre os dois países faz com que a Fifa trate esse tipo de cenário com bastante cautela, evitando qualquer polêmica desnecessária.

Segundo fontes ouvidas pela imprensa internacional, não existe uma regra totalmente rígida para esses casos. O processo é considerado “bastante flexível” e leva em conta o contexto político de cada confronto.

A Guerra das Malvinas ainda influencia decisões

Entre todos os fatores políticos considerados pela FIFA, um dos que mais chamou atenção nesta Copa do Mundo envolve a Guerra das Malvinas.

A própria entidade confirmou que o conflito de 1982 continua sendo levado em consideração na escolha dos árbitros. Por esse motivo, árbitros ingleses não podem apitar partidas da Argentina nem confrontos que tenham consequência direta para a seleção sul-americana.

Foi justamente essa política que tirou Anthony Taylor e Michael Oliver da disputa para apitar uma eventual final do torneio. Como Inglaterra e Argentina se enfrentam na semifinal, qualquer resultado interfere diretamente na decisão, tornando inviável a presença de árbitros ingleses.

O tema continua sensível até hoje, especialmente porque os jogadores argentinos frequentemente fazem referências às Ilhas Malvinas durante comemorações e manifestações públicas. Após uma vitória nesta Copa do Mundo, por exemplo, parte do elenco voltou a cantar a tradicional música “Muchachos”, cuja letra menciona o território conhecido pelos britânicos como Falklands.

Curiosamente, conflitos históricos muito mais antigos, como a Segunda Guerra Mundial, não entram nessa avaliação. Assim, um árbitro alemão pode apitar normalmente uma partida da Inglaterra sem qualquer restrição.

Copa do Mundo nem sempre foi assim

Apesar da política atual parecer bastante consolidada, ela nem sempre existiu.

Na Copa do Mundo de 2006, por exemplo, o argentino Horacio Elizondo foi o responsável por apitar o confronto entre Inglaterra e Portugal nas quartas de final. A partida ficou marcada pela expulsão polêmica de Wayne Rooney após um lance envolvendo Ricardo Carvalho.

Hoje, uma escala semelhante dificilmente seria aprovada pela Fifa.

A entidade, inclusive, não explicou oficialmente por que aquele jogo aconteceu sem as restrições atualmente adotadas. O entendimento é que os critérios foram sendo aperfeiçoados ao longo dos anos conforme o futebol passou a conviver com uma exposição muito maior nas redes sociais e com um nível crescente de cobrança por transparência.

Muito além do apito

Quando um árbitro entra em campo na Copa do Mundo, ele leva consigo muito mais do que um apito e cartões no bolso. Sua presença representa meses e, muitas vezes, anos de avaliações técnicas, testes físicos e análises detalhadas sobre cada decisão tomada em partidas anteriores.

Ao mesmo tempo, a FIFA precisa equilibrar esse mérito esportivo com questões políticas capazes de gerar desconfiança entre seleções e torcedores. Nem sempre as escolhas agradam a todos, e as discussões dificilmente vão desaparecer, principalmente nas fases decisivas do torneio.

Ainda assim, a mensagem da entidade é clara: o desempenho continua sendo o principal fator para definir quem recebe os jogos mais importantes da Copa do Mundo. A política entra na equação apenas quando existe algum contexto capaz de comprometer ou parecer comprometer a imparcialidade da arbitragem. Em um torneio acompanhado por bilhões de pessoas, evitar qualquer sombra de dúvida também faz parte do espetáculo.

Foto: HeulerxAndrey/DiaEsportivo