Lionel Messi
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Messi mudou cinco vezes para continuar sendo o melhor; entenda

Lionel Messi continua provando na Copa do Mundo que talento e inteligência podem compensar o passar dos anos. Aos 39 anos, o camisa 10 da Argentina disputa seu sexto Mundial e segue sendo o principal nome da seleção campeã do mundo. O curioso é que, ao contrário do início da carreira, o craque não impressiona mais pela velocidade constante, mas pela capacidade de escolher exatamente quando acelerar e quando apenas observar o jogo.

Se a Argentina sonha em conquistar o bicampeonato consecutivo da Copa do Mundo, algo que nenhuma seleção consegue desde o Brasil de 1962, muito passa pelos pés de Lionel Messi. Com oito gols e três assistências no torneio, ele lidera a disputa pela Chuteira de Ouro e mostra que sua maior evolução não aconteceu nos fundamentos técnicos, mas na forma como passou a entender o futebol ao longo de mais de duas décadas no mais alto nível.

Correr menos virou uma arma para decidir mais

Quem olha apenas para os números físicos pode imaginar que Messi esteja longe do auge. Afinal, ele percorre menos distância que praticamente todos os companheiros de seleção e realiza muito menos sprints do que fazia alguns anos atrás. No entanto, basta observar sua influência nas partidas para perceber que essa mudança foi cuidadosamente construída ao longo da carreira.

Nesta Copa do Mundo, o argentino caminhou durante 47% de toda a distância percorrida, o maior índice entre todos os jogadores de linha do torneio. Além disso, registra média de apenas 8,2 quilômetros por partida, sendo o atleta da Argentina que menos corre entre aqueles que atuaram por mais de 20 minutos.

Os números poderiam sugerir queda de rendimento, mas acontece justamente o contrário. Messi soma 33 finalizações e 21 chances criadas, totalizando 54 participações ofensivas relevantes, o melhor desempenho em uma Copa do Mundo desde Diego Maradona, em 1986. Em vez de desperdiçar energia pressionando ou fazendo corridas desnecessárias, ele escolhe os momentos certos para aparecer.

Essa leitura do jogo também aparece na quantidade de arrancadas. Enquanto na Copa de 2022 realizava, em média, 5,3 sprints por partida, agora faz apenas 2,7. A diferença é que quase toda aceleração acontece em jogadas realmente decisivas, tornando seus movimentos muito mais eficientes.

O garoto da ponta virou o centro de tudo

Quando estreou pelo Barcelona, em 2003, Messi era um ponta-direita explosivo. Recebia aberto, encarava os marcadores no um contra um e utilizava a velocidade para cortar para dentro e finalizar de pé esquerdo. Era um jogador que desequilibrava principalmente pela capacidade de drible, algo que rapidamente chamou a atenção dos maiores nomes do futebol europeu.

Ronaldinho foi um dos primeiros a perceber que havia algo especial naquele adolescente. Após assistir aos treinamentos, afirmou que Messi seria o melhor jogador do mundo. Pouco tempo depois, durante um amistoso contra a Juventus no Troféu Joan Gamper, Fabio Capello ficou tão impressionado com o desempenho do argentino que tentou convencer o clube italiano a contratá-lo.

Mesmo antes da chegada de Pep Guardiola, Frank Rijkaard já entendia que o Barcelona precisava fazer a bola passar mais vezes pelos pés de Messi. O treinador dizia que, quanto mais o argentino tocasse na bola, melhor seria para toda a equipe, antecipando uma transformação que mudaria completamente sua carreira.

Guardiola revolucionou a posição de Messi

A grande mudança aconteceu em 2009, quando Guardiola decidiu retirar Messi da ponta direita para utilizá-lo como falso 9. A função permitia que o argentino deixasse constantemente a área, recuasse entre as linhas e obrigasse os zagueiros adversários a tomarem decisões praticamente impossíveis durante toda a partida.

A estreia desse novo papel aconteceu justamente diante do Real Madrid, no Santiago Bernabéu. Enquanto Thierry Henry e Samuel Eto’o atacavam os corredores laterais, Messi aparecia por dentro para organizar as jogadas. O resultado foi histórico: vitória por 6 a 2 e o nascimento definitivo de uma das maiores revoluções táticas do futebol moderno.

Os defensores nunca sabiam qual decisão tomar. Se acompanhavam Messi até o meio-campo, abriam enormes espaços nas costas. Caso permanecessem posicionados, davam liberdade para que ele recebesse, girasse e conduzisse a bola. Em qualquer cenário, o Barcelona encontrava vantagem.

Poucas semanas depois, Guardiola repetiu a estratégia na final da Liga dos Campeões contra o Manchester United. Messi marcou um dos gols da decisão e consolidou o falso 9 como uma das funções mais influentes do futebol contemporâneo. Entre 2011 e 2013, viveu talvez o auge da carreira ao marcar impressionantes 96 gols em apenas 69 partidas de La Liga.

Quando os parceiros saíram, Messi mudou novamente

A saída de Xavi e, posteriormente, de Andrés Iniesta obrigou Messi a encontrar uma nova forma de influenciar o Barcelona. Se antes havia um meio-campo capaz de controlar completamente as partidas, agora cabia ao camisa 10 assumir praticamente todas as responsabilidades ofensivas da equipe.

Foi nesse período que surgiu uma versão ainda mais cerebral do argentino. Cada vez mais recuado, passou a atuar como um verdadeiro armador, iniciando jogadas, organizando ataques e chegando à frente apenas nos momentos certos. Os gols continuaram aparecendo, mas as assistências passaram a ganhar protagonismo.

Na temporada 2019/20 da La Liga, Messi terminou com 25 gols e 22 assistências. Um ano depois voltou a balançar as redes 30 vezes pelo Barcelona, mas sua leitura de jogo já havia atingido um nível diferente. A confirmação definitiva veio no Paris Saint-Germain, onde, pela primeira vez na carreira por clubes, terminou uma temporada distribuindo mais assistências do que marcando gols.

A Argentina também ajudou a construir um novo Messi

Enquanto evoluía taticamente nos clubes, Messi também precisava lidar com um desafio emocional vestindo a camisa da Argentina. Durante muitos anos, o craque conviveu com comparações constantes com Diego Maradona e carregou o peso de derrotas dolorosas, como a final da Copa do Mundo de 2014 e as decisões da Copa América de 2015 e 2016.

A pressão foi tão grande que chegou a anunciar sua aposentadoria da seleção. A decisão, porém, durou pouco. Quando voltou, já era um jogador diferente também fora de campo. Mais experiente, mais vocal e disposto a assumir a liderança do grupo, passou a demonstrar uma postura que antes raramente aparecia em público.

A conquista da Copa América de 2021 representou um divisor de águas. O título diante do Brasil, no Maracanã, encerrou um longo jejum da Argentina e libertou Messi de um peso que o acompanhava desde o início da carreira. Um ano depois, na campanha do título mundial no Catar, ele reuniu todas as versões que construiu ao longo dos anos.

Contra a Croácia, mostrou que ainda podia driblar como nos tempos de juventude ao deixar Joško Gvardiol para trás antes de servir Julián Álvarez. Já na final diante da França, comandou o jogo como um armador, participou diretamente das principais jogadas ofensivas e ainda demonstrou enorme frieza para converter sua cobrança na disputa por pênaltis.

O futebol mudou, e Messi mudou junto

O próprio argentino já reconheceu que o futebol atual é muito mais físico e tático do que aquele encontrado quando iniciou a carreira. Em entrevista concedida a Zinedine Zidane, explicou que os espaços diminuíram e que os sistemas defensivos ficaram muito mais organizados, exigindo adaptações constantes dos jogadores mais criativos.

Essa capacidade de evoluir talvez seja o maior legado de Messi. Ao longo da carreira, ele deixou de ser apenas um ponta driblador para se transformar em falso 9, depois em camisa 10 clássico, armador, líder e organizador. Em vez de insistir no mesmo estilo de jogo, reinventou sua forma de atuar sempre que o futebol exigiu uma nova resposta.

Hoje, no Inter Miami e também nesta Copa do Mundo, Messi anda mais do que corre. Durante anos, isso foi tratado por muitos como um defeito. Agora, fica claro que se trata de uma escolha estratégica. Enquanto os adversários desperdiçam energia perseguindo a bola durante 90 minutos, o argentino economiza movimentos para aparecer exatamente quando o jogo pede um lance decisivo.

Talvez seja justamente por isso que Pablo Aimar tenha resumido tão bem sua trajetória ao dizer que “o último Messi é sempre o melhor Messi”. Depois de mais de vinte anos atuando entre os maiores jogadores do planeta, o argentino segue encontrando novas maneiras de dominar partidas e provar que genialidade nunca depende apenas da velocidade. Ela depende, acima de tudo, da capacidade de entender o jogo antes de todo mundo.

Foto: Getty Images