A Argentina voltou a mostrar, contra Cabo Verde, que não precisa apenas jogar bem para vencer na Copa do Mundo. Em um confronto muito mais difícil do que muitos imaginavam, a atual campeã mundial sofreu, viu o adversário crescer em momentos importantes e precisou lidar com um cenário de enorme pressão. Ainda assim, a equipe comandada por Scaloni encontrou um jeito de sair viva do confronto.
A vitória por 3 a 2, na prorrogação, reforçou uma característica que tem acompanhado a seleção argentina nos últimos anos. Além da qualidade técnica, do talento de Messi e da força coletiva, a equipe também sabe vencer jogos complicados. Ou seja, a Argentina sabe sobreviver quando o roteiro fica pesado.
E devemos lembrar que isso não é pouca coisa em uma Copa do Mundo. Em um torneio como este, muitas vezes é preciso aguentar o momento ruim, não se perder emocionalmente e encontrar soluções quando o cenário parece cada vez mais perigoso. Neste ponto, a Argentina tem se mostrado uma seleção extremamente chata de enfrentar.
Contra Cabo Verde, a equipe abriu o placar com Messi, mas não conseguiu transformar a vantagem em tranquilidade. O rival resistiu, incomodou e levou o confronto para um nível de tensão que poucos esperavam. Depois, já na prorrogação, a Argentina voltou a ficar na frente, mas sofreu o empate pouco tempo depois. Mesmo assim, o time não desmoronou.
O gol decisivo saiu aos 111 minutos, em mais uma jogada de bola parada. Cristian Romero chegou a ser creditado inicialmente, mas o lance acabou registrado como gol contra de Diney Borges. O detalhe mais importante, porém, está além da autoria do gol. Mais uma vez, quando o jogo estava no limite, a Argentina encontrou um caminho.
Argentina se acostumou a viver no limite
Desde a Copa do Mundo de 2022, a Argentina vem construindo uma relação muito forte com jogos decididos nos detalhes. Nas quartas de final contra a Holanda, a seleção abriu 2 a 0 e parecia ter a classificação nas mãos. Porém, viu Wout Weghorst marcar duas vezes, incluindo um gol nos acréscimos, e levar o confronto para a prorrogação. Naquele momento, a partida poderia ter virado um trauma. Afinal, perder uma vantagem de dois gols em mata-mata costuma abalar qualquer equipe.
Só que a Argentina resistiu. Na disputa por pênaltis, a equipe sul-americana contou com erros holandeses e viu Lautaro Martínez confirmar a classificação.
Na final contra a França, o roteiro foi ainda mais dramático. A Argentina novamente abriu dois gols de vantagem e parecia controlar o confronto até os minutos finais. Porém, Kylian Mbappé mudou tudo em pouco tempo, marcou duas vezes e levou a decisão para a prorrogação. Depois, Messi colocou os argentinos novamente na frente, mas Mbappé empatou de pênalti aos 118 minutos.
Aquele jogo talvez seja o maior exemplo da força mental argentina. A equipe teve motivos suficientes para desmoronar mais de uma vez. Perdeu uma vantagem confortável, voltou a ficar perto do título e novamente foi alcançada. Ainda assim, nos pênaltis, manteve a calma necessária para conquistar a Copa do Mundo.
Agora, contra Cabo Verde, a história teve outro capítulo. Não foi uma decisão de título, mas foi mais uma partida eliminatória com drama, pressão e um adversário disposto a transformar o confronto em algo histórico. É verdade que a Argentina sofreu mais do que esperava, afinal, o adversário não tem grande expressão no futebol mundial, mas novamente o time de Scaloni mostrou capacidade para decidir quando tudo fica mais difícil.
Esse tipo de sequência ajuda a explicar por que a seleção é tão forte atualmente. Claro que existe qualidade. Não podemos esquecer também que existe Messi, além de outros jogadores de qualidade. Mas também existe uma casca competitiva que pesa muito em jogos de Copa do Mundo.
Comparação com a Croácia aumenta a força da Argentina
Neste cenário, é interessante fazer uma comparação com a Croácia. Afinal, nas últimas Copas, os croatas se tornaram praticamente sinônimo de mata-mata dramático. Desde 2018, a seleção venceu cinco jogos eliminatórios na prorrogação ou nos pênaltis. Foi assim que chegou à final em 2018 e voltou a fazer uma campanha forte em 2022, terminando o torneio na terceira colocação.
A Croácia construiu sua fama justamente por essa capacidade de arrastar jogos, sobreviver a momentos complicados e levar adversários para uma zona de desconforto. Ou seja, é um time que sabe sofrer muito bem em grandes jogos. Desta forma, a Croácia se tornou especialista em fazer o adversário sentir que a enfrentá-los não é algo simples.
Agora, a Argentina começa a ocupar um espaço parecido. O país sul-americano ainda está atrás dos croatas neste recorte, pelo menos no que diz respeito aos números, mas vem mostrando uma característica semelhante. A diferença é que a Albiceleste também carrega o peso de ser a atual campeã e de ter um elenco com mais capacidade de decidir antes dos pênaltis. Contra Cabo Verde, por exemplo, não precisou chegar à disputa final.
Com a Croácia eliminada da Copa de 2026 após perder para Portugal, a Argentina também vê esse caminho simbólico ficar mais aberto. A seleção de Lionel Scaloni pode, de certa forma, assumir esse papel de equipe que ninguém quer enfrentar em um mata-mata longo, truncado e emocionalmente pesado.
Isso não significa que a Argentina seja invencível. O jogo contra Cabo Verde mostrou justamente o contrário. A equipe pode sofrer, pode ser pressionada e pode ver adversários teoricamente mais frágeis criarem problemas reais. Porém, o ponto é outro: mesmo nesses cenários, a Argentina costuma encontrar uma resposta.
E, obviamente, na busca pelo título mundial, isso é muito importante. Em uma Copa do Mundo, a campanha raramente é feita apenas de atuações dominantes. Em algum momento, todo campeão precisa passar por um jogo mais complicado e pode desempenhar um futebol abaixo do esperado em determinados confrontos. Nestes momentos, é importante saber como superar os obstáculos.
A Argentina já fez isso contra a Holanda, fez contra a França e voltou a fazer contra Cabo Verde. Dessa forma, segue viva na Copa do Mundo de 2026 e mantém o sonho de conquistar o bicampeonato mundial consecutivo.
Créditos da foto de capa: Getty Images Sport.