O Arsenal já conviveu com fases turbulentas, mas poucas chegam perto do caos físico que o clube enfrenta nesta temporada. Com 28 lesões registradas, o maior número de toda a Premier League, a equipe de Mikel Arteta parece mais uma ala ortopédica do que um elenco profissional. A vítima mais recente? O jovem Max Dowman, que sofreu danos nos ligamentos do tornozelo e deve ficar fora por semanas.
Arteta não escondeu a preocupação: “Estamos vivendo uma situação muito perigosa”. E, sinceramente, não tem como discordar. A cada rodada, mais um jogador vira baixa, e o treinador já começa a ter que montar suas escalações baseado em quem está disponível, e sem saber se terá essa mesma peça na próxima partida…
Lesões por todos os lados e sempre nas mesmas posições
Com Saliba, Gabriel Magalhães e Mosquera fora ao mesmo tempo, o Arsenal praticamente perdeu sua espinha dorsal defensiva. No ataque e no meio-campo, a história se repete: Odegaard, Saka, Martinelli, Havertz, Trossard, Gyokeres, Noni Madueke, Norgaard e até Gabriel Jesus já passaram períodos no departamento médico.
E como se o universo estivesse testando a paciência de Arteta, Trossard não viajou para o jogo contra o Club Brugge pela Champions depois de sair mancando contra o Aston Villa. Rice também ficou fora, dessa vez por conta de saúde. Até o azar resolveu variar um pouco.
Mas há pelo menos uma boa notícia: Gabriel Jesus, que se recupera de lesão no ligamento cruzado anterior, assumiu a vaga de Dowman na lista da Champions e pode voltar aos gramados pela primeira vez desde janeiro, essa seria uma movimentação interessante em meio a diversos problemas passados pelo Arsenal de Mikel Arteta nos últimos meses, mesmo que os resultados não retratem essas questões.
Arteta nega treinos intensos, mas admite a bola de neve
Quando questionado se a causa da avalanche de lesões poderia ser o excesso de treinos, Arteta foi direto ao ponto: “Não, porque a gente não tem tempo para treinar. Hoje fizemos 20 minutos.” Difícil culpar preparação física quando mal existe preparação física.
Segundo ele, o problema é outro: quanto mais jogadores se machucam, mais os que estão disponíveis são forçados a jogar e isso cria uma sobrecarga iminente. A consequência é clara: mais desgaste, mais lesões, mais improviso, mais riscos.
É um ciclo vicioso. Um efeito dominó. Ou, no bom português que Arteta talvez tenha evitado, um grande problema.
O passado recente do Arsenal já mostrava o risco
O Arsenal já tinha visto essa história acontecer antes. Na temporada passada, o time viveu praticamente uma temporada paralela só de improvisos. O ataque sofreu primeiro: Havertz se lesionou, logo depois Jesus também caiu, e o time ficou meses sem um centroavante de ofício. Foi nesse cenário que Mikel Merino, um meio-campista de origem, teve que virar atacante. A imprensa inglesa, sempre criativa, chegou a chamar o trio Merino–Odegaard–Saka de “o ataque mais remendado da Europa”.
E a lateral-direita sofreu com um destino semelhante. Tomiyasu e Ben White se machucaram quase em sequência, sobrecarregando Jurrien Timber. Ele jogou tanto para tapar buraco que acabou com um problema sério no tornozelo e precisou de cirurgia em maio, aparecendo como um novo desfalque no elenco. O time londrino parecia um elenco de emergência, sempre um lance de distância de mais um desastre.
Tudo isso está voltando nesta temporada quase como um VT indesejado. Havertz voltou a se lesionar logo no começo do ano, o que forçou Viktor Gyokeres a assumir uma carga enorme de minutos. Não deu outra: o sueco acabou sofrendo uma lesão na virilha. Resultado? Mais uma vez, sem centroavante, Merino precisou voltar ao papel improvisado, repetindo a novela do ano anterior. Ele até segurou a barra, e fez bastante sucesso no posto, mas o corpo cobrou: foram sete partidas seguidas pelo Arsenal em menos de um mês, somadas a mais duas pela seleção espanhola. No último fim de semana, contra o Aston Villa, simplesmente não aguentou e saiu no intervalo, esgotado.
Se isso não é padrão, nada mais é.
Champions dá um fôlego… mas a que custo?
Curiosamente, dentro desse caos físico, o Arsenal pode chegar à sexta vitória seguida na Champions League, praticamente confirmando uma vaga direta no mata-mata. No papel, isso deveria trazer calma, menos urgência, menos pânico, menos correria. Mas o grande problema é simples: faltam peças interessantes disponíveis para continuar competindo em alto nível nas duas frentes.
Arteta está ficando sem opções. Pior: está ficando sem opções nas mesmas posições. E isso destrói qualquer planejamento. Quando o lateral-direito joga até o limite, o atacante improvisado vira referência do ataque e o zagueiro tem que fazer três jogos por semana, a temporada vira sobrevivência, não desempenho.
Arsenal vive no limite e Arteta sabe disso
O Arsenal continua competitivo, continua vencendo na Champions e continua brigando na parte de cima da Premier League, se trata do atual líder da competição nacional. Mas faz tudo isso andando na corda bamba. Arteta tenta controlar o cenário, mas já não tem como disfarçar: o clube vive um colapso físico, mesmo depois de ter gastado bastante no mercado de transferências.
Se o time não recuperar jogadores rápido e se não evitar outro surto de lesões em posições específicas, a temporada corre risco real de implodir. A base técnica é boa. A organização tática é boa. O grupo é competitivo. Sem contar que, o Arsenal tem um enredo de começar suas temporadas com tudo, só que ver a queda física chegar, e consequentemente ser abraçado pela queda técnica também.
A questão é que, nenhum time vence campeonatos quando passa mais tempo no departamento médico do que em campo. Por isso, no Arsenal, cada volta de um lesionado parece um gol no último minuto. E, no momento, a sensação é que o clube precisa muito mais disso.
Foto: EFE/EPA/VINCE MIGNOTT