Arsenal
Futebol Premier League

Arsenal campeão da Premier League: criticado, “chato” e… o melhor time da Inglaterra

Arsenal campeão da Premier League talvez não fosse o roteiro preferido de muita gente no começo da temporada, principalmente para quem passou meses chamando o time de “Set-Piece FC”, dizendo que os Gunners jogavam um futebol “injogável” e até acusando a equipe de depender da arbitragem. No fim? Martin Odegaard levantou a taça, Mikel Arteta silenciou boa parte das críticas e o clube voltou oficialmente ao topo do futebol inglês.

E talvez o mais engraçado de tudo seja justamente isso: o Arsenal venceu a Premier League sem precisar convencer todo mundo. Em uma era onde parece obrigatório jogar um futebol “instagramável”, recheado de posse de bola infinita, goleadas e lances bonitos para edits de TikTok, os Gunners ganharam sendo pragmáticos, inteligentes e, acima de tudo, competitivos.

Arsenal venceu do jeito que precisava vencer

Existe uma crítica recorrente ao Arsenal de Arteta: a de que o time não encanta como o Manchester City de Guardiola encantava ou o Liverpool de Jurgen Klopp. E honestamente? É verdade em partes.

O Arsenal não teve o artilheiro absurdo de 35 gols, não foi uma máquina ofensiva imparável e muitas vezes ganhou jogos “na marra”. Só que o contexto da temporada precisa ser levado em consideração e é justamente aí que muita gente ignorou o trabalho de Arteta.

O setor ofensivo passou meses sendo desmontado por lesões. Odegaard, cérebro criativo da equipe, conseguiu atuar por mais de 45 minutos em apenas 12 jogos da Premier League. Bukayo Saka perdeu partidas importantes, e o trio ofensivo considerado ideal por Arteta começou junto pouquíssimas vezes durante toda a temporada.

Em outras palavras: o Arsenal precisou sobreviver, somando pontos quando era possível e vendo o Manchester City crescer em sua retaguarda.

Quando Arteta percebeu que não teria um ataque capaz de fazer 100 gols na temporada, ele adaptou a equipe. Fortaleceu o sistema defensivo, potencializou as bolas paradas e transformou detalhes em armas decisivas.

O Arsenal virou um pesadelo para qualquer adversário

Tem um dado que ajuda a explicar muita coisa sobre essa campanha.

O Arsenal foi o time que mais finalizou em jogadas de bola rolando com nove ou mais jogadores adversários dentro da área na Premier League. Foram 112 finalizações nessas condições, além de 12 gols marcados, ambos os melhores números do campeonato.

Isso basicamente mostra uma coisa: os adversários tinham medo do Arsenal.

E não estamos falando apenas de equipes pequenas tentando sobreviver. Até o Manchester City precisou abandonar o próprio estilo em determinados momentos contra os Gunners. Em um jogo no Emirates, o time de Guardiola terminou com apenas 33,2% de posse de bola, algo praticamente impensável para um time treinado pelo espanhol.

O Arsenal obrigava rivais a recuarem.

E quando os adversários tentavam jogar de forma mais aberta, normalmente pagavam caro por isso. Bayern de Munique, Inter de Milão e Atlético de Madrid tentaram encarar os londrinos “de igual para igual” na Champions League e perderam.

Isso desmonta completamente a narrativa de que o Arsenal era apenas um time defensivo ou limitado ofensivamente. A equipe sabia atacar. Só não era irresponsável.

“Set-Piece FC”? Talvez isso seja um elogio

Poucos apelidos foram mais usados contra o Arsenal do que “Set-Piece FC”. A crítica vinha pela enorme quantidade de gols em bolas paradas, especialmente escanteios. Só que existe uma pergunta simples aqui: desde quando ser excelente em um fundamento virou algo ruim?

O Arsenal transformou bolas paradas em uma arma devastadora. Treinou movimentos, criou jogadas ensaiadas, dominou espaços e aproveitou cada detalhe possível. Isso não é “trapaça”, como alguns rivais tentaram insinuar. Isso é trabalho.

E existe outro detalhe importante: os Gunners terminaram a Premier League sem receber um cartão vermelho e sem cometer um pênalti sequer.

Ou seja, o time era físico, competitivo e intenso, mas extremamente controlado emocionalmente.

É curioso porque muitos dos comentários sobre “jogo sujo” pareciam mais desespero dos adversários do que qualquer análise séria.

O velho “1 a 0” voltou ao Arsenal

Quem conhece minimamente a história do Arsenal sabe que existe uma frase clássica ligada ao clube: “One-nil to the Arsenal”.

Durante a era George Graham, os Gunners criaram fama justamente por fazer 1 a 0 e controlar completamente os jogos até o apito final. E Arteta resgatou muito desse espírito.

O Arsenal venceu sete partidas por 1 a 0 na temporada. Apenas um resultado apareceu mais vezes na Premier League: vitórias do Manchester City por 3 a 0.

Isso fala muito sobre maturidade competitiva.

Em vez de transformar todos os jogos em trocação aberta, o Arsenal aprendeu a sofrer pouco. Depois das derrotas para Bournemouth e Manchester City em abril, por exemplo, o time passou seis jogos consecutivos sem sofrer gols em jogadas de bola rolando, incluindo confrontos de Champions League.

Defesa ganha campeonato. Essa frase continua viva.

Arteta finalmente atravessou a última barreira

Talvez a maior vitória de Arteta nem seja o troféu em si, mas o fim da principal crítica que acompanhava o projeto. O Arsenal “jogava bem, mas não sabia vencer”. “Faltava mentalidade”. “Faltava casca”. “Faltava experiência”.

Agora não falta mais nada.

Arteta pegou um clube perdido emocionalmente após anos inconsistentes, reconstruiu a identidade da equipe, desenvolveu jovens jogadores, encarou uma pressão gigantesca e finalmente levou o Arsenal ao topo da Inglaterra novamente.

E sinceramente? O mais impressionante é que parece apenas o começo.

Porque quando um time aprende a vencer até nos dias ruins, quando consegue ganhar partidas mesmo sem brilho máximo, quando transforma organização em rotina e pressão em normalidade… normalmente estamos falando de um campeão preparado para durar.

O Arsenal pode não ter sido o campeão “mais bonito” da história da Premier League. Mas foi, sem dúvida, o mais preparado da temporada.

Foto: Getty Images