Gyokeres Arsenal
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Arsenal pode ser campeão da Premier League sem um artilheiro de alto nível?

O Arsenal vive uma temporada que desafia uma das regras não escritas da Premier League: a de que é impossível conquistar o título sem um grande artilheiro. Líder isolado do campeonato, com seis pontos de vantagem, o time de Mikel Arteta domina jogos, sofre poucos gols e apresenta um futebol coletivo que o coloca como principal favorito ao título, mesmo sem um camisa 9 decisivo em números.

A campanha até o momento impressiona bastante. São apenas duas derrotas em todas as competições, 100% de aproveitamento na Champions League e presença garantida nas fases decisivas das copas nacionais. Ainda assim, a pergunta segue ecoando: quem decide para os Gunners nos momentos cruciais?

Nenhum time venceu a Premier League sem ter ao menos um jogador entre os dez maiores artilheiros da competição. O Arsenal, até aqui, foge completamente desse padrão. Seus principais goleadores na liga são Leandro Trossard e Viktor Gyokeres, ambos com apenas cinco gols, marca que os coloca apenas na 21ª posição do ranking geral.

Enquanto isso, Erling Haaland já atingiu a casa dos 20 gols e segue ditando o ritmo ofensivo do Manchester City. A comparação é inevitável e reforça o debate: é possível competir contra máquinas de fazer gols sem ter uma própria?

Gyokeres e o peso do investimento

Contratado por £64 milhões após uma passagem absurda pelo Sporting, Gyokeres chegou ao Arsenal com status de solução ofensiva, mesmo com seu histórico na Premier League nem um pouco atraente. Em Portugal, foram 97 gols em 102 jogos. Na Inglaterra, o cenário tem sido bem diferente, mas muito.

O atacante sueco ainda não conseguiu transformar volume em gols. Nas últimas 15 partidas, marcou apenas uma vez em jogada aberta. Contra o Liverpool, teve apenas oito toques na bola e não finalizou. A confiança parece abalada, e o impacto visual de suas atuações chama atenção, ainda mais pelo fato dele parecer fora de sintonia com o esquema de Arteta.

Mesmo assim, o dado curioso: o Arsenal perdeu apenas uma vez quando Gyökeres iniciou como titular. Um indicativo claro de que o coletivo tem sustentado o time, independentemente da fase individual do centroavante.

O Arsenal de Arteta sabe trabalhar em grupo

Se falta um artilheiro, sobra organização nesta equipe que conta com um belo projeto. O Arsenal espalha seus gols como poucos na liga. Já são 13 jogadores diferentes balançando as redes na Premier League, número inferior apenas ao do Brighton. Laterais aparecem no ataque, zagueiros decidem em bolas paradas, meias chegam de surpresa e os pontas andam tendo bastante liberdade para finalizar.

Esse modelo torna o Arsenal menos previsível e mais difícil de ser neutralizado, algo que tem sido bem fácil de notar no decorrer da temporada. Estamos falando de um dos principais, talvez o melhor da Europa. Para parar os Gunners, é preciso desmontar o sistema, tarefa que poucos conseguiram até agora.

Se o ataque não tem um nome dominante, a defesa do Arsenal compensa. O time sofreu apenas 14 gols em 21 rodadas, a melhor marca da Premier League. E isso mesmo lidando com lesões importantes de Gabriel Magalhães, William Saliba e Riccardo Calafiori. A consistência defensiva remete a times históricos, como o Chelsea de José Mourinho em 2004/05, campeão sofrendo apenas 15 gols e sem um goleador de 20 gols. Não por acaso, Frank Lampard foi o artilheiro daquela campanha com 13.

Havertz e Gabriel Jesus mudam o cenário ofensivo?

O retorno de Kai Havertz pode ser um divisor de águas, ou um ponto a melhorar um pouco o cenário. Após quase um ano afastado por lesões, o alemão voltou a atuar e já recebeu elogios públicos de Arteta, principalmente por sua inteligência de movimentação e leitura de espaço. Não é um artilheiro clássico, mas pode oferecer fluidez e novas dinâmicas ao ataque do Arsenal.

Gabriel Jesus também voltou recentemente de uma grave lesão no ligamento cruzado e amplia o leque de opções ofensivas. Arteta, que antes tinha apenas Gyokeres como referência central, agora pode variar mais, algo essencial em reta final de temporada.

Outro fator decisivo está nas bolas paradas. O Arsenal é simplesmente o time mais eficiente da liga nesse fundamento, com 17 gols de escanteio em todas as competições. Em jogos travados, isso reduz drasticamente a dependência de um atacante decisivo e oferece soluções constantes, contando com as aparições de Mikel Merino, Magalhães, Saliba, Calafiori, e entre outras peças do sistema defensivo.

Dá para ser campeão assim?

Com 17 rodadas restantes, é improvável que algum jogador do Arsenal alcance números históricos de artilharia. Mas talvez isso simplesmente não seja necessário. O time é sólido, equilibrado, bem treinado e mentalmente preparado para competir até o fim, sem contar nas inúmeras opções no time titular, junto do banco de reservas.

Depois de três vice-campeonatos consecutivos e quase duas décadas sem conquistar a Premier League, os Gunners parecem prontos para quebrar mais um tabu. Mesmo sem um artilheiro fixo, mesmo contrariando a estatística.

Foto: Getty Images