Poucos times da Série A apresentam uma identidade tão clara quanto o Athletico de Odair Hellmann. Longe de ser uma equipe que encanta pela posse de bola ou pelo volume ofensivo, o Furacão construiu sua campanha no Brasileirão a partir de um modelo pragmático, baseado na solidez defensiva, na disciplina tática e na eficiência nas transições.
A estratégia tem dado resultado. Após o primeiro turno, o clube figura entre os primeiros colocados da competição e alimenta a expectativa de disputar uma vaga direta na Libertadores — ou até sonhar com objetivos maiores.
O desempenho, no entanto, também levanta um debate: até onde esse estilo de jogo pode levar o Athletico?
Se por um lado a equipe demonstra regularidade e capacidade para competir contra qualquer adversário, por outro ainda desperta questionamentos sobre sua produção ofensiva e a capacidade de controlar partidas em cenários mais adversos.
Defesa sólida é a base da campanha

O principal mérito do trabalho de Odair Hellmann está na consistência defensiva. O Athletico encerrou o primeiro turno com uma das melhores defesas do Campeonato Brasileiro, sofrendo apenas 19 gols em 19 rodadas, desempenho superado apenas por Palmeiras e Flamengo entre os líderes da competição.
A organização sem a bola é a principal marca da equipe. As linhas permanecem compactas, os espaços entre defesa e meio-campo são reduzidos e a proteção da área impede que os adversários criem oportunidades com frequência. O Furacão não precisa dominar a posse para controlar os jogos. Muitas vezes, prefere entregar a iniciativa ao rival, confiando na força do sistema defensivo para recuperar a bola e atacar em velocidade.
Essa postura não representa falta de ambição, mas uma escolha estratégica. O Athletico abre mão do protagonismo em determinados momentos para explorar justamente aquilo que faz melhor: as transições rápidas. Quando recupera a posse, procura acelerar imediatamente pelos lados do campo e encontrar Kevin Viveros como principal referência ofensiva.
Eficiência compensa menor volume ofensivo

O pragmatismo adotado por Odair também aparece na forma como o Athletico ataca. Diferentemente de outras equipes do topo da tabela, o Furacão não está entre os clubes que mais finalizam ou mantêm maior tempo de posse de bola. Ainda assim, consegue transformar boa parte das oportunidades criadas em gols.
Kevin Viveros simboliza esse modelo. Artilheiro da equipe e um dos principais goleadores do Brasileirão, o atacante potencializa uma estratégia baseada em poucas oportunidades de alta qualidade. O objetivo não é criar dezenas de chances, mas aproveitar os momentos em que consegue acelerar as transições e encontrar espaços na defesa adversária.
Ao mesmo tempo, os números indicam que ainda existe margem para evolução. O Athletico figura entre as equipes que mais desperdiçam grandes oportunidades na competição, o que mostra que o setor ofensivo ainda pode aumentar sua eficiência e tornar o modelo ainda mais competitivo.
Outro aspecto que chama atenção é a força emocional da equipe. Na vitória sobre o São Paulo, por exemplo, o Furacão sofreu um gol após uma falha do goleiro Santos, mas manteve a organização, voltou melhor para o segundo tempo e virou a partida em poucos minutos, com dois gols de Leozinho.
A reação reforçou uma característica recorrente nas equipes treinadas por Odair Hellmann: mesmo em momentos de dificuldade, o time raramente perde o equilíbrio tático.
O desafio é manter a regularidade até o fim

Se a identidade está consolidada, o segundo turno será o grande teste para o modelo construído por Odair Hellmann. O sistema funciona especialmente bem em partidas equilibradas, nas quais o Athletico consegue explorar espaços deixados pelo adversário. Porém, quando precisa assumir o protagonismo diante de equipes mais fechadas ou buscar o resultado após sair atrás no placar, o desempenho tende a oscilar.
Esse talvez seja o principal limite do pragmatismo. Um estilo de jogo baseado em poucos riscos exige alto nível de concentração durante os 90 minutos e grande eficiência nas oportunidades criadas. Qualquer queda de rendimento pode comprometer um modelo que depende diretamente da organização coletiva.
Ainda assim, o histórico do treinador oferece argumentos para acreditar na continuidade da boa campanha. Em 2018, Odair Hellmann conduziu o Internacional ao G4 do Campeonato Brasileiro utilizando uma proposta semelhante, sustentada pela força defensiva e pela competitividade. Agora, tenta repetir a fórmula no Athletico, mas com um elenco renovado e sem a pressão inicial de disputar o título.
O primeiro turno mostrou que o Furacão possui uma identidade consolidada e suficientemente forte para colocá-lo entre os protagonistas da Série A. Resta saber se a consistência defensiva, a disciplina tática e a eficiência nas transições serão suficientes para sustentar a equipe entre os primeiros colocados até a reta final da competição.
Se conseguir manter o equilíbrio apresentado até aqui, o Athletico pode provar que, em um campeonato cada vez mais nivelado, o pragmatismo continua sendo um caminho tão eficiente quanto o futebol mais vistoso.
Créditos da foto de capa: Geraldo Bubniak/IconSport