O Athletico não perdeu o Athletiba, mas a sensação depois do empate por 3 a 3 no Couto Pereira é quase a mesma de uma derrota. O Furacão teve o clássico nas mãos, abriu dois gols de vantagem, enfrentou um adversário com um jogador a menos durante todo o segundo tempo e, ainda assim, deixou escapar uma vitória que parecia encaminhada. Por isso, o problema não está apenas nos dois gols sofridos nos acréscimos, mas na maneira como a equipe administrou uma situação que exigia maturidade.
O Athletico foi competente para entender o cenário de uma partida completamente prejudicada pela chuva, soube explorar a bola aérea e construiu uma vantagem confortável. Depois, porém, parece ter entendido que bastava esperar o relógio passar. Em um clássico, especialmente diante de um rival que ainda tinha tempo para reagir, essa escolha se mostrou perigosa.
O Athletico fez muita coisa certa antes de se perder
É importante não transformar o empate em uma análise simplista. O Furacão teve méritos para chegar ao 3 a 1. Com o gramado encharcado, Odair Hellmann alterou a formação inicial justamente para privilegiar a força física, deixando Leozinho fora e colocando Dantas. A estratégia fazia sentido diante de um campo em que jogar por baixo se tornou extremamente complicado.
A bola parada também foi aproveitada com eficiência. Luiz Gustavo abriu o placar após cobrança de falta de Esquivel, enquanto Arthur Dias ampliou em escanteio cobrado por João Cruz. Mesmo em condições ruins para a prática do futebol, o Athletico encontrou caminhos objetivos para atacar e transformou suas oportunidades em gols.
Até ali, a leitura do jogo era boa.
O problema começou quando a partida passou a exigir outra característica: capacidade de administrar a vantagem sem abandonar a competitividade. O Coritiba diminuiu ainda no primeiro tempo, mesmo depois de Breno Lopes ser expulso pela aplicação da chamada “Lei Vini Jr.”. Com um jogador a mais e dois gols de vantagem, o cenário era ainda mais favorável ao Athletico.
Mas vantagem no placar e superioridade numérica não significam que uma partida esteja resolvida.
O erro foi confundir controle com acomodação
O gol de Viveros, de pênalti, parecia colocar o Athletico em uma condição confortável demais para o Coritiba buscar uma reação. Só que, a partir daquele momento, a equipe deixou de jogar para controlar o clássico e passou a jogar para não perder o controle.
Existe uma diferença importante entre as duas coisas.
Controlar uma partida significa continuar dificultando a vida do adversário, ocupar os espaços corretamente, disputar cada segunda bola e manter o nível de concentração. Administrar de forma passiva é permitir que o rival ganhe território, confiança e volume até encontrar uma oportunidade.
Foi isso que aconteceu.
As mudanças de Odair Hellmann buscavam preservar a vantagem, mas Renan Peixoto, Felipinho e Terán não conseguiram manter a intensidade necessária. Ainda assim, seria simplista colocar o empate exclusivamente nas costas dos jogadores que entraram. O problema foi coletivo: o Athletico perdeu agressividade, baixou a concentração e permitiu que o Coritiba acreditasse novamente.
E clássico costuma cobrar caro esse tipo de comportamento.
Os acréscimos apenas escancararam o problema
Os dois gols de Rodrigo Moledo nos acréscimos são o retrato mais evidente do que aconteceu. O zagueiro apareceu duas vezes pelo alto e transformou um 3 a 1 praticamente consolidado em um 3 a 3 dramático. O Coritiba tinha um jogador a menos, mas encontrou forças para continuar atacando e, principalmente, acreditando.
O Athletico, por outro lado, parecia estar esperando o clássico acabar.
Essa é a parte mais preocupante para uma equipe que pretende permanecer na briga pelas primeiras posições. O Brasileirão pune qualquer queda de concentração, e o Furacão acabou entregando dois pontos em uma partida na qual tinha praticamente todas as condições para sair vencedor.
A questão, portanto, não é simplesmente aprender a jogar quando está atrás. O Athletico já mostrou capacidade para competir, criar e marcar gols. Precisa aprender a continuar jogando quando está na frente.
Esse tipo de maturidade pesa ainda mais para uma equipe que está disputando a parte de cima da tabela. Com o empate, o Furacão chegou aos 46 pontos e permanece na terceira colocação, mas pode ser ultrapassado pelo Fluminense, que ainda joga na rodada. O Coritiba foi aos 38 pontos e aparece em sétimo.
Um tropeço que precisa virar aprendizado
Por isso, o 3 a 3 pode ser mais importante para o Athletico do que parece. Não pelo ponto conquistado, que ficou abaixo do que a equipe tinha condições de levar para casa, mas pelo alerta deixado para a sequência do campeonato.
O Furacão tem qualidade para brigar na parte de cima. Encontrou soluções mesmo em um campo praticamente impraticável, foi eficiente nas bolas paradas e chegou a construir uma vantagem que parecia suficiente. O que faltou foi algo menos visível nas estatísticas: a capacidade de manter concentração, intensidade e competitividade até o último lance.
O próximo compromisso será contra o Bahia, em casa, no dia 20. E talvez seja justamente esse o desafio mais importante para Odair Hellmann: fazer o time entender que administrar uma vantagem não significa diminuir a intensidade.
Se o empate no Athletiba servir para corrigir essa postura, poderá ser lembrado como um tropeço pontual. Se o Athletico repetir o comportamento em situações semelhantes, os dois pontos deixados no Couto Pereira poderão custar muito mais caro.
Porque o Furacão mostrou no clássico que sabe construir uma vitória. Agora, precisa provar que também sabe sustentá-la.
Foto: Divulgação/Athletico-PR


