Futebol Copa Sul-Americana

Atlético-MG chega à terceira final continental consecutiva na base da resiliência, mas precisa superar erros para conquistar a Sul-Americana

O Atlético-MG está novamente em uma final continental, mas a classificação diante do Montevideo City Torque deixou claro que a experiência em decisões não elimina os riscos de uma campanha marcada por dificuldades. Derrotado por 2 a 0 no Uruguai, na noite desta quarta-feira, o Galo avançou graças à vitória por 3 a 0 no jogo de ida e garantiu presença na decisão da Copa Sul-Americana, a terceira final continental consecutiva do clube. O resultado confirma a capacidade atleticana de sobreviver a cenários adversos, mas também expõe problemas que precisarão ser corrigidos antes do confronto contra o Boca Juniors.

A classificação poderia ter sido mais tranquila. Com uma vantagem de três gols construída em Belo Horizonte, o Atlético entrou em campo com margem suficiente para administrar a eliminatória, mas passou boa parte da partida sem conseguir controlar a posse de bola ou estabelecer contra-ataques consistentes. O City Torque dominou o primeiro tempo, pressionou a defesa e obrigou Gabriel Delfim a realizar intervenções importantes. Na etapa final, mesmo com uma melhora técnica pontual, o time mineiro sofreu com a expulsão de Alan Franco e viu os uruguaios marcarem duas vezes nos minutos finais.

O episódio resume a trajetória recente do Galo em competições continentais: uma equipe que encontra maneiras de avançar mesmo quando o desempenho não corresponde às expectativas. A frase de Paulo Bracks, diretor de futebol do clube, antes do início do torneio, de que o Atlético chegaria à final “aos trancos e barrancos de novo”, ganhou ares de profecia. Depois de uma classificação decidida nos minutos finais contra o Bragantino e de uma disputa de pênaltis diante do Santos, o time confirmou sua presença em mais uma decisão, embora ainda precise demonstrar que consegue competir com maior controle.

A vantagem de três gols não impediu uma atuação preocupante

A decisão de Eduardo Domínguez de repetir a escalação do primeiro confronto, sem poupar jogadores mesmo com a vantagem no agregado, indicava que o Atlético pretendia evitar qualquer possibilidade de reação do adversário. A escolha também preservava a estrutura que havia funcionado na partida de ida. Na prática, porém, a estratégia não conseguiu impedir que o City Torque assumisse o controle do jogo.

Durante o primeiro tempo, os uruguaios ditaram o ritmo e mantiveram o Atlético recuado. A equipe mineira tentou proteger a própria área e explorar os espaços deixados pelo adversário, mas teve dificuldades para conectar passes e avançar com a bola. Sem conseguir escapar da pressão, o Galo ficou preso em seu campo defensivo e passou longos períodos sem oferecer uma resposta ofensiva capaz de aliviar o trabalho da defesa.

Nesse cenário, Gabriel Delfim foi fundamental para impedir que a vantagem atleticana diminuísse ainda mais cedo. O goleiro realizou duas defesas importantes e também conseguiu se recuperar depois de um erro com os pés, evitando que a falha se transformasse em gol. Suas intervenções deram ao Atlético a segurança necessária para atravessar uma etapa em que o time pouco conseguiu produzir.

A diferença entre o placar agregado e o desempenho apresentado ajudou a explicar a tranquilidade com que o Galo foi para o intervalo. Apesar de não controlar a partida, a equipe ainda mantinha uma vantagem confortável, e o City Torque precisava sustentar a pressão por mais 45 minutos para transformar o domínio em uma ameaça real à classificação. O problema é que o Atlético não aproveitou o intervalo para corrigir de maneira suficiente as dificuldades de construção.

Domínguez voltou para o segundo tempo sem alterações, mantendo inclusive Alan Franco e Vitão, que estavam pendurados. A ideia era melhorar a circulação da bola e reduzir a pressão exercida pelo adversário, mas a mudança de comportamento foi limitada. O Atlético apresentou maior qualidade técnica em alguns momentos e chegou a acertar o travessão com Reinier, porém não conseguiu transformar essa chegada em uma sequência de ataques que afastasse o City Torque de sua meta.

A oportunidade de Reinier mostrou que havia espaço para o Atlético ser mais agressivo, mas o lance ficou isolado em meio a uma partida na qual a equipe continuava sem controlar o ritmo. A vantagem no agregado permitia uma postura prudente, mas não justificava a incapacidade de manter a bola ou de construir saídas mais seguras. Quando um time passa tanto tempo defendendo, qualquer erro individual ou mudança no equilíbrio da partida pode aumentar rapidamente a pressão.

A expulsão de Alan Franco transformou o fim do jogo em um teste de sobrevivência

A tentativa de Domínguez de reorganizar o time incluiu mudanças e o reforço da defesa com três zagueiros. A escolha buscava proteger a área e diminuir os espaços para as investidas uruguaias, mas o cenário se tornou mais complicado quando Alan Franco recebeu o segundo cartão amarelo e deixou o Atlético com dez jogadores, onze minutos depois das alterações.

A expulsão mudou as condições da partida. Com um jogador a menos e o City Torque pressionando, o Galo precisou abandonar qualquer tentativa mais ambiciosa de controlar o confronto e concentrar esforços em impedir que o adversário continuasse diminuindo a diferença no agregado. A equipe reforçou o meio-campo e procurou fechar os espaços, mas a inferioridade numérica aumentou o desgaste e tornou mais difícil sustentar a organização defensiva.

O City Torque aproveitou a situação para intensificar a pressão nos minutos finais. Aos 43 minutos, marcou o primeiro gol e voltou a alimentar a possibilidade de uma reação histórica. Cinco minutos depois, encontrou novamente o caminho da rede e venceu por 2 a 0, deixando o Atlético sob ameaça até os instantes derradeiros. Faltou tempo para os uruguaios buscarem o terceiro gol, que levaria a eliminatória a um cenário ainda mais delicado para os brasileiros.

A sequência evidencia que a classificação não foi apenas resultado da vantagem construída na ida, mas também da capacidade de suportar uma pressão crescente. Ao mesmo tempo, revela um problema que não pode ser ignorado: o Atlético permitiu que o adversário mantivesse a iniciativa durante quase toda a partida e não encontrou respostas consistentes para reduzir o volume ofensivo dos uruguaios.

É importante separar a responsabilidade individual de Alan Franco do desempenho coletivo. A expulsão teve impacto direto no desfecho, mas as dificuldades do Atlético já estavam presentes antes do cartão vermelho. A equipe não conseguia construir jogadas com regularidade, não controlava a posse e dependia de intervenções defensivas para manter a vantagem. A inferioridade numérica agravou um cenário que já exigia correções.

Para Domínguez, a partida oferece um alerta sobre o equilíbrio entre administrar uma vantagem e continuar competindo. O Atlético não precisava perseguir o gol a qualquer custo, mas deveria ter encontrado formas de tirar o adversário de sua zona de conforto. Sem essa capacidade, a equipe permitiu que o City Torque permanecesse vivo na eliminatória até os últimos minutos.

O Atlético confirmou a previsão de Paulo Bracks, mas o caminho cobra seu preço

A frase de Paulo Bracks sintetizou uma expectativa de campanha difícil, mas acabou descrevendo com precisão o percurso do clube até a decisão. O Galo superou o Bragantino em uma classificação definida por um gol nos minutos finais e passou pelo Santos nos pênaltis. Contra o City Torque, mesmo depois de abrir uma vantagem de três gols no primeiro jogo, voltou a precisar de resistência para confirmar a vaga.

Esse histórico mostra que o Atlético desenvolveu uma capacidade importante de sobreviver a diferentes contextos. Em torneios eliminatórios, nem sempre a equipe que apresenta o melhor futebol em uma partida consegue avançar, e a administração dos momentos de pressão faz parte da disputa. Saber sofrer, proteger uma vantagem e manter a concentração quando o adversário cresce são características valiosas para quem pretende conquistar um título continental.

No entanto, existe uma diferença entre saber superar dificuldades e criar condições para que elas se repitam. A resiliência ajuda a explicar a presença do Atlético na final, mas não deve ser usada como justificativa para todas as limitações. Contra o City Torque, o time teve problemas técnicos na saída de bola, não conseguiu sustentar contra-ataques e passou boa parte do confronto defendendo. Em outra eliminatória, diante de um adversário mais eficiente, uma atuação semelhante poderia ter consequências mais graves.

A sequência de classificações apertadas também pode cobrar um preço físico e emocional. Cada jogo em que o Atlético precisa resistir até os minutos finais aumenta a exigência sobre a concentração dos jogadores e sobre a capacidade de recuperação do elenco. Em uma decisão, na qual os erros costumam ter consequências imediatas, o time precisará combinar a força mental demonstrada na campanha com uma execução técnica mais consistente.

A terceira final continental consecutiva é um feito relevante e reforça a presença do clube entre os protagonistas sul-americanos. Ainda assim, chegar à decisão não representa o objetivo final. Depois de perder a final da Libertadores para o Botafogo em 2024 e a decisão da Sul-Americana para o Lanús em 2025, o Atlético volta a ter a oportunidade de conquistar um título que encerraria uma sequência dolorosa de vice-campeonatos.

Contra o Boca Juniors, a experiência precisa virar vantagem competitiva

A final contra o Boca Juniors colocará o Atlético diante de um adversário de tradição continental e acostumado a disputar partidas de alta pressão. Nesse tipo de confronto, a experiência acumulada nas campanhas recentes pode ser um diferencial, mas somente se for acompanhada por uma atuação mais equilibrada. As derrotas nas decisões anteriores podem ter deixado marcas no grupo, mas também oferecem referências sobre o que precisa ser feito para que a equipe não repita os mesmos erros.

O Atlético terá de encontrar uma maneira de proteger a defesa sem abrir mão da capacidade de atacar. Contra o City Torque, a postura recuada dificultou a construção de jogadas e impediu que o time usasse a bola para aliviar a pressão. Diante do Boca, conceder longos períodos de iniciativa ao adversário pode ser ainda mais perigoso, especialmente se o Galo não conseguir controlar o meio-campo ou ameaçar em transições.

Domínguez precisará, portanto, transformar a classificação em aprendizado. A atuação de Gabriel Delfim e a capacidade coletiva de resistir foram fundamentais para alcançar a decisão, mas o Atlético não pode depender exclusivamente de defesas difíceis e de uma vantagem construída anteriormente. A equipe precisa demonstrar que consegue controlar os momentos do jogo, sustentar a posse sob pressão e aproveitar as oportunidades que surgirem.

O Galo chega à final com cicatrizes recentes, mas também com a experiência de quem voltou a encontrar o caminho para uma decisão continental. A terceira final consecutiva confirma a força competitiva do clube e oferece uma nova chance de encerrar o ciclo de frustrações. Para transformar essa trajetória em título, porém, será necessário ir além da sobrevivência: o Atlético precisará mostrar contra o Boca Juniors que aprendeu com as derrotas e está preparado para competir com mais consistência durante os 90 minutos.

(Foto: Eitan Abramovich/AFP)