O Atlético-MG está na final da Copa Sul-Americana. Mesmo derrotado por 2 a 0 pelo Montevideo City Torque, no Uruguai, o Galo conseguiu administrar a vantagem construída no jogo de ida e confirmou a classificação para a decisão. A equipe brasileira passou por momentos de tensão, especialmente nos minutos finais, quando os donos da casa intensificaram a pressão e marcaram duas vezes, mas não conseguiram reverter a diferença necessária para avançar.
A classificação coloca o Atlético diante do Boca Juniors na disputa pelo título, marcada para 21 de novembro, em Barranquilla, na Colômbia. O clube mineiro terá a oportunidade de conquistar pela primeira vez a Copa Sul-Americana, mas a atuação em Montevidéu deixa alertas importantes. Com pouca iniciativa ofensiva e dificuldades para controlar o ritmo da partida, o Galo terminou o confronto acuado, dependendo da vantagem acumulada anteriormente para sobreviver à reação uruguaia.
O jogo
Com uma vantagem expressiva construída em casa, o Atlético entrou em campo sem demonstrar grande urgência para atacar. O Montevideo City Torque aproveitou a postura mais cautelosa dos brasileiros e assumiu o controle da posse de bola, passando a maior parte do primeiro tempo no campo ofensivo.
A equipe uruguaia procurava movimentar a bola de um lado para o outro até encontrar espaços na defesa atleticana. Gabriel Delfim foi um dos principais personagens da etapa inicial, obrigado a intervir em finalizações de Obregón, Silvera e Salomon Rodríguez. As oportunidades mostraram que, mesmo sem transformar o domínio em gols, o City Torque conseguia ameaçar com frequência.
Do lado brasileiro, o meio-campo organizado por Eduardo Domínguez conseguiu dificultar algumas investidas pelo centro, mas teve pouca influência na construção ofensiva. Os pontas também apareceram pouco no ataque, em parte pelas responsabilidades defensivas exigidas diante da iniciativa dos mandantes. A principal oportunidade atleticana surgiu quando Victor Hugo encontrou Bernard na área, mas a defesa uruguaia conseguiu interromper a jogada.
O primeiro tempo terminou sem gols e com um cenário relativamente confortável para o Atlético no placar agregado, mas preocupante pelo comportamento da equipe. O Galo não conseguiu impor seu ritmo nem afastar o adversário de sua área durante períodos prolongados. O City Torque, mesmo precisando de uma reação significativa, manteve a iniciativa e mostrou disposição para continuar pressionando.
Na volta do intervalo, o time uruguaio aumentou ainda mais a intensidade. Logo aos três minutos, Gabriel Delfim escorregou ao cobrar um tiro de meta, permitindo que Obregón tentasse encobri-lo. Lyanco, atento, salvou o Atlético ao afastar a bola praticamente sobre a linha do gol.
O susto não impediu que os mandantes continuassem no ataque. Com uma postura cada vez mais ofensiva, o City Torque colocou mais jogadores no campo adversário e tentou sufocar a saída atleticana. O Atlético, por sua vez, encontrou uma oportunidade de ampliar sua vantagem no confronto aos cinco minutos da etapa final. Após cruzamento de Cuello pela esquerda, Reinier aproveitou a sobra e acertou a trave.
O lance poderia ter dado tranquilidade ao Galo, mas não alterou significativamente a dinâmica da partida. O Montevideo City Torque seguiu pressionando, enquanto o Atlético tinha dificuldades para manter a posse e construir ataques consistentes. A equipe brasileira parecia mais preocupada em resistir do que em controlar o jogo, uma postura que aumentou o risco à medida que o relógio avançava.
Nos minutos finais, a situação ficou ainda mais delicada para os visitantes. A expulsão de Alan Franco, que recebeu o segundo cartão amarelo, deixou o Atlético com um jogador a menos justamente quando o City Torque intensificava sua pressão. Os números ilustravam a superioridade uruguaia: cerca de 65% de posse de bola e 26 finalizações, contra 35% de posse e apenas quatro chutes do Galo.
Apesar do volume ofensivo, os donos da casa demoraram a transformar o domínio em gols. A pressão, porém, finalmente surtiu efeito perto dos acréscimos. Depois de uma tentativa de bicicleta de Quintana que não encontrou a conclusão esperada, Kevin Silva aproveitou a sequência da jogada dentro da área e marcou o primeiro gol uruguaio.
O gol aumentou a tensão e fez a classificação atleticana deixar de parecer tão segura. Apenas três minutos depois, Kagelmacher marcou o segundo, levando o confronto a um cenário de enorme nervosismo. O City Torque passou a acreditar na possibilidade de completar a reação, enquanto o Atlético precisava suportar o abafa para preservar a vantagem conquistada no primeiro jogo.
Nos acréscimos, os cruzamentos para a área atleticana se multiplicaram. Os uruguaios tentaram aproveitar cada bola levantada e mantiveram a pressão até os instantes finais. Na última oportunidade, Quintana não conseguiu concluir de maneira efetiva, encerrando a sequência de ataques e confirmando a classificação brasileira.
Análise: Atlético sobrevive ao próprio conservadorismo e terá de evoluir para a decisão
A classificação do Atlético tem um contraste evidente: o resultado agregado foi suficiente para garantir a vaga, mas o desempenho em Montevidéu ficou longe de transmitir segurança. A equipe entrou em campo com uma vantagem importante e pareceu escolher a administração do placar como principal estratégia. O problema é que controlar uma vantagem não significa apenas defender, e o Galo teve dificuldades para manter a bola, afastar a pressão e oferecer uma ameaça ofensiva capaz de obrigar o adversário a recuar.
O comportamento do primeiro tempo já indicava esse risco. O Montevideo City Torque teve mais posse, ocupou o campo de ataque e conseguiu finalizar em boas condições. Gabriel Delfim precisou trabalhar para manter o placar zerado, enquanto o Atlético pouco produziu na frente. A equipe brasileira conseguiu proteger algumas zonas centrais, mas não encontrou equilíbrio entre a organização defensiva e a capacidade de sair jogando.
A postura conservadora tornou-se ainda mais problemática na segunda etapa. O City Torque aumentou a presença ofensiva, passou a colocar mais jogadores perto da área e explorou a dificuldade atleticana para manter a posse. O erro de Delfim na saída de bola, que quase resultou em gol, foi um sinal de alerta. Lyanco evitou o pior naquele momento, mas o lance expôs a pressão a que o sistema defensivo estava submetido.
A trave de Reinier também merece destaque porque representou uma oportunidade de mudar o cenário. Se o Atlético tivesse ampliado sua vantagem no confronto, poderia ter reduzido a confiança dos uruguaios e encontrado mais espaço para jogar. Como a bola não entrou, o City Torque continuou acreditando e manteve o Galo sob pressão durante boa parte da etapa final.
Os números reforçam que a classificação não veio acompanhada de controle sobre a partida. Sofrer 26 finalizações e terminar com apenas quatro tentativas mostra a dificuldade atleticana para equilibrar as ações. Embora o contexto de uma vantagem ampla permita uma postura mais cautelosa, a equipe acabou cedendo território e iniciativa em excesso. Em vez de administrar o confronto com a bola, passou longos períodos tentando resistir aos ataques adversários.
A expulsão de Alan Franco agravou o cenário. Com um jogador a menos, o Atlético perdeu capacidade de pressionar a saída uruguaia e encontrou ainda mais dificuldade para aliviar a pressão. Os dois gols sofridos perto do fim mostraram como a combinação entre recuo excessivo, desgaste e inferioridade numérica pode tornar vulnerável uma vantagem que parecia confortável.
Por outro lado, o Atlético demonstrou capacidade de suportar um momento de enorme pressão e preservar o objetivo principal. A classificação era a prioridade, e a vantagem construída no jogo de ida foi determinante para que a derrota não se transformasse em eliminação. Lyanco, ao salvar a tentativa de Obregón, teve participação decisiva em um dos momentos mais perigosos, enquanto a equipe precisou resistir coletivamente até o último lance.
A atuação do Montevideo City Torque também merece reconhecimento. Mesmo diante de uma desvantagem expressiva no confronto, os uruguaios não abandonaram a tentativa de buscar a classificação. A equipe controlou a posse, finalizou muito mais e intensificou a pressão quando percebeu as dificuldades do Atlético. Os gols de Kevin Silva e Kagelmacher deram dramaticidade ao fim da partida e mostraram que o domínio não era apenas territorial, embora tenha faltado tempo para completar a reação.
Agora, o Atlético terá pela frente um adversário de maior tradição continental e acostumado a disputar partidas decisivas: o Boca Juniors. A final exigirá uma postura mais equilibrada, com capacidade para defender sem abrir mão da construção ofensiva. Repetir em Barranquilla o comportamento apresentado em Montevidéu pode colocar o time mineiro em dificuldades, especialmente se permitir que o adversário acumule ataques e pressione sua defesa durante longos períodos.
A vaga na decisão representa uma oportunidade histórica para o Galo conquistar sua primeira Sul-Americana. Para transformar essa oportunidade em título, porém, a equipe precisará corrigir os problemas de saída de bola, melhorar a retenção da posse e encontrar maneiras mais eficientes de aliviar a pressão. A vantagem construída no jogo de ida garantiu a classificação, mas a final não oferece espaço para depender apenas do placar acumulado.
O Atlético alcançou seu objetivo, mas terminou a semifinal sob alerta. A derrota por 2 a 0 não apagou o resultado obtido em casa, embora tenha revelado fragilidades que precisam ser trabalhadas antes da decisão. Contra o Boca Juniors, o Galo precisará mostrar que sabe não apenas sobreviver à pressão, mas também controlar o jogo quando a situação exigir.
(Foto: Eitan Abramovich/AFP)



