Há pouco mais de um ano, Carlos Baleba parecia ser exatamente o tipo de jogador que o Manchester United precisava contratar a qualquer custo. O volante do Brighton havia se transformado em uma das grandes revelações da Premier League, combinando força física, capacidade de condução, intensidade e qualidade para atuar como primeiro homem de meio-campo. O problema era o preço: o Brighton chegou a trabalhar com uma avaliação próxima de £100 milhões, e relatos apontavam até £115 milhões. O United recuou. Agora, voltou à ativa por aproximadamente £65 milhões.
A diferença financeira é enorme. Mas talvez exista uma diferença ainda mais importante: Baleba já não chega ao United como a estrela em ascensão que parecia ser há um ano. Chega como uma aposta.
O Manchester United está perto de transformar uma antiga obsessão em uma contratação de risco, mas um risco calculado. A proposta apresentada ao Brighton é de cerca de £60 milhões fixos, com outros £5 milhões em bônus, e as negociações estão avançadas. O jogador também já teria acertado os termos pessoais.
O negócio pode ser excelente. Também pode se transformar em um daqueles casos em que o clube compra mais a memória do jogador do que o jogador que ele é atualmente. Porque existe uma pergunta que ninguém consegue responder antes de Baleba vestir a camisa do United: qual é o Carlos Baleba real? O de 2024/25 ou o de 2025/26?
O Baleba que fez o United se apaixonar
A temporada 2024/25 foi o momento em que Baleba deixou de ser apenas um jovem interessante do Brighton e passou a ser visto como um potencial volante de elite.
Aos 21 anos, o camaronês se consolidou como um dos principais jogadores da equipe. Foram 34 partidas de Premier League e três gols, além de participações em outras competições. Mais importante do que os números ofensivos, entretanto, era a maneira como ele influenciava o jogo. Baleba conseguia recuperar a bola, cobrir grandes espaços, carregar a posse e conduzir o Brighton para frente.
Em determinado momento daquela temporada, a percepção em torno do jogador era tão positiva que ele passou a ser tratado como um ativo potencialmente superior a £100 milhões. O próprio Brighton resistiu à investida do United, enquanto o clube de Manchester demonstrava interesse em condições financeiras muito mais baixas.
Era fácil entender a empolgação. Baleba tinha uma combinação que não aparece com frequência: corpo de volante defensivo e comportamento de meio-campista capaz de conduzir a bola.
Ele podia proteger a defesa, pressionar, ganhar duelos e, depois de recuperar a posse, avançar metros com ela. Para um Manchester United que precisava desesperadamente de um jogador capaz de dar equilíbrio ao meio-campo, parecia uma solução quase óbvia. Só que o futebol raramente é tão linear.
Um ano depois, a percepção mudou
A temporada seguinte não confirmou a ascensão de maneira tão contundente. Baleba continuou sendo importante para o Brighton, mas seu rendimento caiu. Na Premier League 2025/26, ele terminou com 29 jogos, nenhum gol e nenhuma assistência. Além disso, seu número de ações com a bola caiu, assim como seus desarmes e praticamente todas as estatísticas defensivas.
Não é simplesmente uma questão de números. O problema é que o Baleba que aparecia como potencial estrela da posição perdeu parte do impacto que havia provocado a corrida dos grandes clubes. O próprio Fabian Hürzeler chegou a admitir que a especulação sobre uma possível transferência poderia ter afetado emocionalmente o jogador. A atenção de clubes maiores, em vez de funcionar apenas como combustível, pode ter pesado sobre um atleta ainda muito jovem.
E agora surge a grande contradição da negociação. O United está comprando Baleba justamente porque acredita que aquele jogador ainda existe. Mas não existe nenhuma garantia de que ele voltará imediatamente.
A queda de preço é um aviso, mas também é uma oportunidade
É impossível ignorar o tamanho da diferença entre as duas avaliações. Um ano atrás, o Brighton chegou a exigir algo próximo de £115 milhões. Agora, está negociando em torno de £65 milhões.
Para o Manchester United, isso pode representar inteligência de mercado. Em vez de pagar o preço total pela promessa, o clube esperou o mercado corrigir a avaliação e agora pode adquirir o jogador por uma quantia significativamente menor.
Mas também existe outra leitura. Se o preço caiu porque o desempenho caiu, o desconto não é necessariamente uma oportunidade. Pode ser simplesmente o mercado reconhecendo que a certeza deixou de existir.
Essa é a verdadeira natureza da operação. O United não está mais comprando uma estrela pronta para explodir. Está comprando a possibilidade de que ela volte a existir.
É justamente por isso que a contratação ganha uma dimensão tática interessante. O United precisa de um meio-campista capaz de jogar como número 6. Casemiro saiu, Manuel Ugarte enfrenta problemas físicos e o setor passa por uma grande reformulação. Baleba pode oferecer força, cobertura, recuperação e condução, características que explicam o interesse de Michael Carrick.
Além disso, o clube já contratou Youri Tielemans e Andrey Santos nesta janela. Baleba não chega, portanto, simplesmente para preencher uma vaga. Ele chega para dar uma identidade diferente ao meio-campo.
Andrey Santos pode oferecer mais chegada e presença física. Tielemans acrescenta passe e capacidade de organizar a posse. Baleba pode ser o jogador responsável por fazer o trabalho estrutural: proteger a defesa, cobrir os espaços e permitir que os outros tenham mais liberdade.
No papel, faz sentido. O problema é que o sucesso dessa estrutura depende do melhor Baleba aparecer.
A aposta é maior do que parece
Existe uma diferença importante entre contratar um jogador de 22 anos que está crescendo e contratar um jogador de 22 anos que já teve um pico de expectativa e acabou de atravessar uma temporada de regressão.
No primeiro caso, o clube aposta na evolução. No segundo, aposta na recuperação. É exatamente o segundo cenário que o Manchester United enfrenta. Baleba já mostrou que consegue atuar no nível exigido pela Premier League. Não é uma aposta cega. São mais de 100 partidas pelo Brighton desde sua chegada em 2023, e sua temporada 2024/25 ofereceu evidências concretas de que existe um meio-campista de alto nível dentro dele. Mas também existe evidência concreta em sentido contrário. Na última temporada, o impacto foi menor.
E existe ainda a questão física: Baleba está se recuperando de uma lesão ligamentar no tornozelo. A expectativa é que não seja um problema de longo prazo, mas ele pode não estar imediatamente disponível para o início da nova temporada. Ou seja, o United está assumindo riscos em duas frentes: performance e condição física.
Apesar dos riscos, existe uma lógica por trás da operação. O Manchester United não pode continuar esperando encontrar jogadores absolutamente prontos e sem qualquer incerteza. O mercado atual simplesmente não permite isso sem pagar valores exorbitantes.
A contratação de Baleba por £65 milhões representa uma tentativa de comprar potencial sem pagar integralmente o preço do potencial. Se o camaronês recuperar o nível de 2024/25, o United terá conseguido um volante de 22 anos por um valor muito abaixo daquele que o Brighton exigia anteriormente.
Se ele repetir o futebol da última temporada, entretanto, a história será completamente diferente. Nesse caso, o clube terá investido £65 milhões em um jogador que deixou de ser uma certeza e ainda não provou que consegue voltar ao patamar anterior. É uma linha tênue.
Baleba foi de estrela à aposta, e o United pode ter se aproveitado disso
Talvez seja essa a melhor maneira de resumir a negociação. Carlos Baleba passou de estrela em ascensão a aposta de recuperação. E isso não necessariamente é ruim.
Aos 22 anos, ele ainda tem tempo suficiente para transformar uma temporada ruim em um capítulo menor de sua carreira. O talento continua evidente, a experiência na Premier League já existe e seu perfil físico e técnico continua extremamente adequado às necessidades do United.
Mas o clube precisa entender que não está contratando o jogador que todos imaginavam que Baleba se tornaria. Está contratando um jogador que precisa provar novamente quem é. Essa talvez seja a parte mais fascinante da operação.
O Manchester United não sabe se está comprando o Baleba que dominava o meio-campo do Brighton em 2024/25 ou o Baleba que perdeu força na temporada seguinte.
E talvez a resposta para essa pergunta seja justamente aquilo que definirá se os £65 milhões serão lembrados em Old Trafford como uma pechincha ou como mais um investimento caro em uma promessa que nunca se confirmou.
O United não está comprando uma certeza. Está apostando que a melhor versão de Carlos Baleba ainda está esperando para aparecer.
(Foto: Getty Images)



